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A perda auditiva afeta milhões de pessoas em todo o mundo e, até hoje, a medicina dispõe de poucas alternativas capazes de recuperar aquilo que foi perdido. Aparelhos auditivos e implantes cocleares ajudam muitos pacientes, mas nenhum deles consegue reconstruir as delicadas células responsáveis por transformar sons em impulsos enviados ao cérebro. Agora, um estudo experimental sugere que essa realidade pode começar a mudar, embora ainda existam muitos desafios pela frente.
Uma barreira considerada praticamente impossível de superar Grande parte dos casos de perda auditiva permanente ocorre quando determinadas células do ouvido interno deixam de funcionar ou são destruídas. Essas estruturas microscópicas, conhecidas como células ciliadas, ficam localizadas na cóclea e desempenham um papel indispensável: transformar as vibrações sonoras em sinais elétricos que serão interpretados pelo cérebro como sons. Na parte superior dessas células existem pequenos feixes chamados estereocílios.
Sempre que o líquido presente no ouvido interno se movimenta por causa das ondas sonoras, essas estruturas se inclinam e iniciam todo o processo que torna possível ouvir. O problema é que, nos seres humanos, essas células praticamente não se regeneram depois de sofrerem danos provocados pelo envelhecimento, pela exposição prolongada a ruídos intensos ou até mesmo pelo uso de determinados medicamentos. Em outras espécies, porém, a história é diferente.
Aves e alguns vertebrados conseguem substituir naturalmente as células perdidas graças às chamadas células de suporte, que assumem a função de gerar novas células sensoriais. Esse mecanismo despertou há anos o interesse da comunidade científica, que tenta descobrir por que essa capacidade desapareceu durante a evolução humana. Estudos anteriores já haviam mostrado que camundongos recém-nascidos ainda conservam, durante um curto período após o nascimento, uma pequena capacidade de produzir novas células ciliadas.
No entanto, essa habilidade diminui rapidamente conforme o animal amadurece. Pesquisadores acreditam que parte dessa limitação esteja relacionada à epigenética. Embora o DNA continue carregando todas as instruções necessárias para formar novas células, muitas dessas regiões acabam ficando “desligadas”, tornando-se inacessíveis para a maquinaria responsável por ativar esses genes.
A combinação de três fatores trouxe resultados muito mais promissores Durante muitos anos, diversos grupos de pesquisa concentraram esforços em um fator de transcrição chamado Atoh1, considerado essencial durante o desenvolvimento embrionário das células ciliadas. Os resultados, entretanto, ficaram aquém do esperado. Em vários experimentos surgiam apenas poucas células novas e, na maioria dos casos, elas apresentavam desenvolvimento incompleto ou não possuíam estereocílios organizados adequadamente, condição fundamental para captar os sons.
A conclusão foi que não existia um único “interruptor” capaz de reiniciar esse processo biológico. A nova pesquisa adotou uma estratégia diferente. Em vez de estimular apenas o Atoh1, os cientistas ativaram simultaneamente três fatores de transcrição: Atoh1, Gfi1 e Pou4f3, responsáveis por controlar diferentes etapas relacionadas ao desenvolvimento, sobrevivência e amadurecimento dessas células.
Os experimentos foram realizados em camundongos adultos. Quando apenas um ou dois desses fatores eram utilizados, praticamente nenhuma regeneração significativa era observada. Mas, ao combinar os três, parte das células de suporte maduras começou a adquirir características muito semelhantes às células ciliadas naturais.
Depois que as células originais foram eliminadas de forma controlada durante o experimento, a técnica conseguiu produzir uma quantidade muito maior de células de substituição distribuídas por diferentes regiões da cóclea. Algumas delas chegaram a desenvolver estereocílios ainda rudimentares e também apresentaram sinais iniciais de formação de conexões com fibras nervosas — um passo importante para que futuramente possam desempenhar a função esperada. Os pesquisadores também observaram que determinadas células de suporte continuaram respondendo ao tratamento mesmo até seis semanas após o dano inicial, ampliando a janela de tempo em que uma futura terapia poderia ser aplicada.
Além disso, outros testes conseguiram reprogramar células vizinhas ao órgão de Corti, estrutura considerada essencial para a audição. Essas células passaram a ativar diversos genes característicos das células ciliadas e continuaram surgindo durante várias semanas. O maior desafio ainda está por vir Apesar do avanço representar uma das descobertas mais animadoras dos últimos anos na área da regeneração auditiva, os próprios cientistas alertam que ainda não é possível afirmar que a audição possa ser restaurada.
Criar células parecidas com as originais é apenas parte do caminho. Para que uma terapia realmente funcione, essas novas células precisam amadurecer completamente, assumir corretamente o papel de células ciliadas internas ou externas, ocupar a posição exata dentro da cóclea, desenvolver estereocílios totalmente funcionais e estabelecer conexões precisas com o nervo auditivo. Outro obstáculo importante envolve as próprias células de suporte.
Elas exercem funções estruturais fundamentais para o funcionamento da cóclea, e transformá-las em excesso pode comprometer a estabilidade desse delicado sistema. Também será necessário desenvolver formas seguras de transportar os fatores genéticos até o ouvido interno. A cóclea é extremamente pequena, protegida por estruturas ósseas e bastante sensível a qualquer intervenção cirúrgica.
Por enquanto, tudo permanece em fase experimental e restrito a estudos com animais. Ainda assim, o trabalho representa uma mudança importante na forma como os pesquisadores enxergam esse desafio. A grande questão deixou de ser se uma cóclea adulta é capaz de produzir novas células e passou a ser como fazer com que elas amadureçam, se integrem ao sistema auditivo e recuperem a capacidade de ouvir.
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