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A evolução costuma ser retratada como uma grande árvore, com espécies surgindo de ancestrais comuns e seguindo caminhos separados ao longo do tempo. Mas, às vezes, a natureza ignora esse roteiro organizado. Um novo estudo revelou que um dos insetos mais antigos e bem-sucedidos do planeta carrega milhares de fragmentos genéticos vindos de organismos completamente diferentes.
A descoberta lança luz sobre um mecanismo evolutivo que pode ser muito mais importante do que os cientistas imaginavam. Uma troca genética que desafia a visão tradicional da evolução Quando pensamos em herança genética, imaginamos que os genes passam de pais para filhos ao longo de gerações. Esse processo continua sendo a principal força por trás da evolução das espécies, mas não é o único.
Existe um fenômeno conhecido como transferência horizontal de genes. Em vez de receber material genético exclusivamente de seus ancestrais, um organismo pode incorporar fragmentos de DNA provenientes de espécies totalmente diferentes. Entre bactérias e arqueias, esse mecanismo é relativamente comum.
Esses microrganismos vivem cercados por material genético liberado por células mortas ou danificadas, o que aumenta as oportunidades para que sequências de DNA sejam absorvidas e incorporadas ao genoma. Durante muito tempo, acreditou-se que esse tipo de transferência fosse raro em animais complexos. Afinal, organismos multicelulares possuem estruturas celulares mais sofisticadas e células especializadas para reprodução, o que dificulta que material genético estranho seja transmitido às gerações futuras.
Por décadas, as análises genéticas pareciam confirmar essa ideia. Os cientistas encontravam muitos vestígios de vírus espalhados pelos genomas animais, mas poucos sinais de DNA bacteriano. Parte dessa ausência, porém, estava ligada às limitações tecnológicas da época.
Ferramentas de sequenciamento frequentemente interpretavam fragmentos bacterianos como simples contaminação laboratorial e os descartavam das análises. Com o avanço das técnicas modernas de leitura genética, esse cenário começou a mudar. O que as baratas revelaram sobre milhões de anos de convivência Para entender melhor a extensão da transferência horizontal de genes em animais, uma equipe internacional decidiu analisar um grupo que possui uma longa história evolutiva: as baratas.
A escolha não foi aleatória. Esses insetos mantêm uma relação íntima com bactérias chamadas Blattabacterium, que vivem dentro de seus corpos há milhões de anos. Esses microrganismos desempenham funções importantes relacionadas ao aproveitamento de nutrientes, especialmente compostos ricos em nitrogênio.
Além disso, são transmitidos de geração em geração por meio dos ovos, permanecendo em contato constante com seus hospedeiros. Essa proximidade cria condições ideais para que fragmentos de DNA bacteriano encontrem caminhos inesperados até o genoma dos insetos. Os resultados surpreenderam os pesquisadores.
Dependendo da espécie analisada, foram encontrados entre algumas dezenas e quase cinco mil sequências de origem bacteriana espalhadas pelo DNA das baratas. A maioria desses fragmentos era pequena. Em média, possuíam cerca de 160 bases genéticas, uma extensão relativamente curta quando comparada aos genes completos encontrados nos organismos.
Outro detalhe chamou atenção: mais de 75% dessas sequências estavam localizadas em regiões do genoma que não codificam proteínas. Isso sugere que grande parte delas não exerce uma função biológica relevante. Mesmo assim, sua presença demonstra que a transferência horizontal de genes acontece com muito mais frequência do que se imaginava.
Pequenos fragmentos que podem mudar a história da evolução Ao comparar diferentes espécies, os cientistas perceberam que algumas dessas inserções genéticas parecem existir desde os primeiros ancestrais das baratas modernas. Outras são compartilhadas apenas entre grupos mais próximos, indicando que surgiram em períodos evolutivos mais recentes. Isso revela que o processo não ocorreu uma única vez no passado distante.
Pelo contrário, ele parece ter acontecido repetidamente ao longo de milhões de anos. Os pesquisadores acreditam que a maior parte desses fragmentos não oferece qualquer benefício direto aos insetos. Eles simplesmente foram incorporados por acaso e permaneceram no genoma porque não causam prejuízos suficientes para serem eliminados pela seleção natural.
Ainda assim, o elevado número de ocorrências levanta uma questão intrigante. Se milhares de sequências conseguem entrar e permanecer nos genomas animais ao longo do tempo, algumas delas podem eventualmente adquirir funções úteis. Essa possibilidade sugere que a transferência horizontal de genes pode representar uma fonte de diversidade genética muito mais relevante do que se pensava anteriormente.
A descoberta reforça uma ideia cada vez mais presente na biologia moderna: a evolução não acontece apenas por meio da herança tradicional. Em alguns casos, ela também pode ser influenciada por encontros inesperados entre organismos separados por milhões de anos de história evolutiva. E se isso acontece em um dos insetos mais antigos da Terra, talvez fenômenos semelhantes estejam escondidos em muitos outros animais, aguardando apenas as ferramentas certas para serem revelados.
[Fonte: ARS Technica]
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