📸 Créditos da imagem: Jongman & Hall (2026), Nature Sustainability
Um sistema de correntes oceânicas essencial para regular o clima da Terra pode sofrer um enfraquecimento significativo até o fim do século, mas o risco ainda é ignorado pela maioria dos governos em seus planos de adaptação climática. De 91 planos nacionais apresentados à Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, apenas dois mencionam a possibilidade de colapso dessas correntes — e nenhum deles prevê medidas concretas para enfrentar o cenário.O alerta foi publicado em artigo na revista Nature Sustainability, elaborado por pesquisadores que analisaram como os países se preparam para possíveis mudanças na circulação do Oceano Atlântico.O sistema em questão é a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico, conhecida pela sigla AMOC. Ela funciona como uma espécie de esteira transportadora oceânica: leva águas quentes da superfície em direção ao norte do Atlântico e devolve águas mais frias para o sul em camadas profundas.Esse movimento redistribui calor pelo planeta e influencia temperaturas e padrões de chuva em regiões muito distantes do oceano.
Com o aquecimento global, a circulação está enfraquecendo e pode continuar a perder força ao longo deste século.Os pesquisadores ressaltam, porém, que um colapso completo é considerado improvável antes de 2100. Um estudo recente citado pelos autores projetou redução de 50% na intensidade da AMOC até o fim do século em cenário intermediário de emissões.O que aconteceria se as correntes enfraquecessem ainda mais?Uma redução acentuada da circulação poderia provocar mudanças importantes no clima de diferentes regiões. No norte da Europa, por exemplo, a diminuição do transporte de calor vindo dos trópicos poderia favorecer episódios de frio extremo durante o inverno.
Simulações climáticas com a AMOC desligada indicaram a possibilidade de temperaturas de até -20 °C em Londres (Inglaterra).Os efeitos também poderiam atingir regiões que dependem das chuvas de monção. Experimentos com modelos climáticos apontaram enfraquecimento médio de 29% das monções da África Ocidental e de 19% das monções de verão da Índia em cenários de interrupção da circulação.Essas alterações aumentariam os riscos para o abastecimento de água e a produção de alimentos em áreas dependentes dessas chuvas. Outros estudos mencionados no artigo apontam maior risco de secas severas em partes da América Central, da África Ocidental e da região amazônica.
A pesca e o nível do mar também poderiam ser afetados. Mudanças nas temperaturas oceânicas e na distribuição das águas teriam consequências para comunidades costeiras, estoques pesqueiros e estruturas de proteção contra a elevação do mar. fa Brasil menciona o risco, mas preparação ainda é um desafio Entre os 91 planos nacionais analisados, o Brasil está entre os dois países que mencionam a AMOC.
O plano brasileiro inclui alerta de que o desligamento do sistema poderia deslocar a faixa de chuvas do Atlântico para o sul e contribuir para levar a Floresta Amazônica a ponto de colapso; A Irlanda é o outro país citado. Como depende da circulação para manter seu clima relativamente ameno, o documento irlandês reconhece que a adaptação, por si só, pode não ser suficiente diante de um colapso. O plano também conclui que nenhum planejamento nacional consegue se preparar plenamente para pontos de inflexão climática desse tipo; Ainda assim, os autores avaliam que mencionar o risco não basta.
Nenhum dos dois planos apresenta ações concretas para responder à possibilidade de colapso da circulação; O problema é que muitos investimentos em infraestrutura, abastecimento de água e proteção costeira são planejados para durar décadas. Se as mudanças climáticas forem diferentes das previstas inicialmente, essas estruturas podem deixar de cumprir sua função e gerar prejuízos elevados — especialmente em países com menos recursos para reagir a situações inesperadas. Como os países podem se preparar?Os pesquisadores propõem cinco medidas para incorporar o risco da AMOC ao planejamento climático: identificar países e investimentos mais vulneráveis; testar projetos com simulações que considerem o colapso da circulação; priorizar soluções flexíveis, que possam ser adaptadas ao longo do tempo; manter o monitoramento das correntes oceânicas; e revisar as projeções climáticas globais.O objetivo não é prever exatamente quando — ou mesmo se — ocorrerá um colapso, mas verificar se decisões tomadas hoje continuariam funcionando em diferentes cenários climáticos.Os autores também ressaltam que preparar-se para esse risco não deve desviar recursos do combate aos impactos já observados, como ondas de calor, secas e enchentes.
A redução rápida das emissões de gases de efeito estufa continua sendo fundamental.A AMOC já passou por mudanças drásticas no passado. Estudos indicam que o sistema esteve perto de interrupção quase completa há cerca de 17,5 mil anos, após o período mais frio da última era glacial. O histórico mostra que alterações profundas são possíveis, embora não determine quando ou se uma nova interrupção acontecerá.
Rodrigo Mozelli Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital. Ver todos os artigos →
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