Cientistas cobrem geleira com lã de ovelha e descobrem uma forma surpreendente de reduzir o degelo

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Cientistas cobrem geleira com lã de ovelha e descobrem uma forma surpreendente de reduzir o degelo

📸 Créditos da imagem: Unsplash

Cobrir uma geleira com cobertores pode parecer uma ideia improvável para combater os efeitos do aquecimento global. Entretanto, foi exatamente isso que pesquisadores fizeram na Suíça, utilizando um material simples e biodegradável: lã de ovelha. Depois de três meses de observações, os resultados surpreenderam até os responsáveis pelo experimento.

A técnica conseguiu preservar parte do gelo durante o verão e apresentou uma possível alternativa aos materiais plásticos usados atualmente. Uma experiência com cobertores naturais surpreendeu os pesquisadores A iniciativa aconteceu no glaciar Tsanfleuron, localizado na região de Les Diablerets, nos Alpes suíços, e foi desenvolvida por quatro estudantes de mestrado da Universidade de Lausanne. O projeto, chamado Keep It Wool, contou com a colaboração da organização ambiental Summit Foundation e teve como objetivo encontrar uma alternativa sustentável às coberturas sintéticas utilizadas para proteger geleiras.

Em 22 de junho de 2026, os pesquisadores instalaram dois cobertores de lã de ovelha sobre uma área de aproximadamente 200 metros quadrados. Cada cobertura media 10 por 10 metros, mas apresentava espessura diferente. Ao lado delas, os cientistas colocaram uma lona geotêxtil convencional, permitindo comparar diretamente os resultados.

Durante o verão europeu, a equipe realizou medições a cada duas semanas para acompanhar a quantidade de neve e gelo preservada. Ao final de três meses, os dados preliminares indicaram que os cobertores naturais haviam reduzido o derretimento em mais de 50% nas áreas protegidas. O resultado foi comparável ao desempenho das coberturas sintéticas utilizadas tradicionalmente.

A experiência foi realizada na Suíça, não na Antártida, embora a descoberta também desperte interesse em pesquisas sobre conservação de gelo em outras regiões. Como a lã consegue proteger uma geleira do calor? O funcionamento dos cobertores envolve dois princípios físicos relativamente simples: isolamento térmico e redução da absorção de energia solar.

A lã possui fibras capazes de reter pequenas bolsas de ar, dificultando a transferência de calor. Quando utilizada como cobertura, ela ajuda a limitar o aquecimento da superfície protegida. Além disso, a coloração clara dos materiais pode contribuir para refletir parte da radiação solar, reduzindo a energia absorvida pelo gelo.

Essa propriedade está relacionada ao chamado albedo, que representa a capacidade de uma superfície refletir a luz recebida. Superfícies claras geralmente refletem mais radiação do que materiais escuros. Os cobertores utilizados no experimento foram fabricados pela empresa suíça Fisolan, especializada em produtos derivados de lã.

Para impedir que o vento deslocasse as peças, os pesquisadores utilizaram sacos reutilizados preenchidos com cascalho. Segundo informações divulgadas pela Swissinfo, serviço internacional de notícias da Suíça, os resultados iniciais mostraram desempenho semelhante ao dos materiais sintéticos, que podem reduzir o degelo local em aproximadamente 50% a 70%. Entretanto, os cientistas ainda precisam avaliar a durabilidade e o comportamento da lã durante períodos mais prolongados.

O problema ambiental escondido nas coberturas tradicionais A utilização de lonas para proteger geleiras não é uma novidade. Há vários anos, estações de esqui nos Alpes europeus cobrem pequenas áreas de gelo durante o verão para preservar neve destinada à temporada seguinte. O problema é que essas coberturas geralmente são fabricadas com materiais sintéticos, como poliéster e polipropileno.

Com a exposição ao sol, ao vento e às variações de temperatura, esses tecidos podem liberar pequenas fibras plásticas. Os fragmentos podem permanecer sobre o gelo ou ser transportados pela água do degelo, contribuindo para a contaminação ambiental. A lã representa uma alternativa interessante porque é renovável e biodegradável.

Existe ainda outra vantagem: grande parte da lã produzida na Suíça não encontra utilização comercial. De acordo com os responsáveis pelo projeto, entre 40% e 70% da produção nacional acaba descartada, compostada ou incinerada. Transformar esse material em coberturas para geleiras poderia reduzir desperdícios e substituir parcialmente produtos derivados de petróleo.

Por que os cobertores não conseguem salvar todas as geleiras? Apesar dos resultados promissores, os próprios pesquisadores reconhecem que a técnica possui limitações importantes. Atualmente, apenas cerca de 0,02% da superfície das geleiras suíças está protegida por coberturas artificiais.

Isso significa que o método consegue preservar pequenas áreas específicas, mas não impedir o recuo generalizado das massas de gelo. Além disso, transportar, instalar e retirar cobertores em regiões montanhosas exige recursos financeiros, equipamentos e trabalho especializado. A aplicação em áreas muito extensas seria extremamente difícil.

O experimento também não demonstra que a técnica funcionaria da mesma maneira na Antártida, onde as condições ambientais e a escala das massas de gelo são muito diferentes. Segundo reportagem da Reuters sobre o projeto Keep It Wool, os pesquisadores consideram os cobertores uma medida localizada de adaptação, e não uma solução para o aquecimento global. O que a descoberta significa para o futuro das geleiras?

Os Alpes estão entre as regiões onde o recuo das geleiras se tornou particularmente visível nas últimas décadas. O desaparecimento dessas massas de gelo afeta a disponibilidade de água, a estabilidade de encostas e atividades econômicas relacionadas ao turismo. Nesse contexto, soluções localizadas podem ajudar a preservar áreas consideradas estratégicas.

O experimento suíço demonstra que materiais naturais podem oferecer desempenho semelhante ao de alternativas sintéticas, com potencial para reduzir a liberação de microplásticos. Entretanto, a principal medida para limitar o derretimento das geleiras continua sendo a redução das emissões de gases de efeito estufa. Os cobertores de lã podem ganhar espaço como ferramenta complementar de conservação, mas não substituem ações climáticas de longo prazo.

A descoberta mostra que uma solução aparentemente simples pode produzir resultados importantes, desde que suas possibilidades e limitações sejam compreendidas.

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