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Podemos substituir trabalhadores por agentes de inteligência artificial, mas isso não significa eliminar o sexismo do ambiente profissional. Um estudo de pesquisadores da Universidade de Limerick, na Irlanda, encontrou diferenças na maneira como pessoas avaliavam e remuneravam assistentes virtuais. Bastou mudar a apresentação dos agentes para surgir uma desigualdade conhecida: a versão masculina ganhou mais que a feminina, embora ambas realizassem exatamente o mesmo trabalho.
Mesmo desempenho, avaliações diferentes O estudo publicado pelos pesquisadores reuniu 189 profissionais que trabalham com atividades baseadas em conhecimento. Eles entraram em um escritório de realidade virtual, onde colaboraram com três tipos de agentes de IA para concluir tarefas. Um assistente funcionava como chatbot de texto.
Outro tinha apresentação robótica e permanecia junto a uma mesa. O terceiro possuía características semelhantes às humanas, com uma versão de apresentação masculina ou feminina. Todos funcionavam de maneira idêntica.
A diferença estava na forma como apareciam diante dos participantes. Depois das atividades, os trabalhadores avaliaram o trabalho dos assistentes e distribuíram uma remuneração conforme o desempenho percebido. Os agentes com características humanas receberam mais que os equivalentes com apresentação robótica ou textual.
Entretanto, parecer humano não beneficiou igualmente as duas versões. Johan recebeu mais que Johanna O assistente masculino, chamado Johan, recebeu em média cerca de 10% mais que Johanna, sua equivalente feminina. Como ambos apresentavam o mesmo desempenho, a diferença não correspondia a uma vantagem na execução das tarefas.
O resultado reproduziu, dentro de um escritório virtual, uma disparidade semelhante à desigualdade salarial de gênero encontrada no mundo real. A pesquisa também revelou outra diferença incômoda. Os participantes perceberam Johan como mais humano que Johanna.
Assim, a apresentação feminina ficou em desvantagem tanto na remuneração quanto na atribuição de características humanas. O experimento sugere que transformar colegas em personagens digitais não impede as pessoas de carregar suas expectativas e preconceitos para a interação. Quase ninguém reconheceu o próprio viés Os pesquisadores entrevistaram 34 participantes para entender melhor suas escolhas.
Desses, 30 afirmaram que confiariam e recompensariam um assistente igualmente, independentemente de sua apresentação de gênero. Apenas três reconheceram que seu comportamento poderia refletir algum viés. Um único participante admitiu diretamente confiar menos em mulheres.
Essa distância entre o que as pessoas dizem e como agem ajuda a explicar por que preconceitos inconscientes são difíceis de identificar. A maioria defendia um tratamento igualitário, mas as avaliações e decisões de remuneração revelaram um padrão diferente. Preferência por mulheres não significou valorização As entrevistas trouxeram uma aparente contradição.
Quando precisaram escolher entre assistentes masculinos, femininos ou neutros, o maior grupo de participantes declarou sentir mais conforto com uma IA de apresentação feminina. O artigo aponta uma possível influência da familiaridade com assistentes como Siri e Alexa, tradicionalmente associados a vozes ou personagens femininos. Empresas de tecnologia adotam essa apresentação porque essas vozes costumam ser percebidas como mais acessíveis e menos ameaçadoras.
Ao mesmo tempo, a escolha pode reforçar a ideia de que mulheres devem ocupar funções de apoio e serviço. No experimento, preferir trabalhar com uma assistente feminina não se traduziu em reconhecê-la como igualmente humana ou merecedora da mesma remuneração. A tecnologia mudou o cenário e os colegas de trabalho.
As pessoas, porém, conseguiram transportar para esse ambiente uma desigualdade bastante familiar.
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