Nem EUA, China ou ?Nuvembras?: ministra detalha empresa da Nuvem Brasileira

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Nem EUA, China ou ?Nuvembras?: ministra detalha empresa da Nuvem Brasileira

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ReportagemNem EUA, China ou ‘Nuvembras’: ministra detalha empresa da Nuvem BrasileiraNo mesmo dia em que anunciou R$ 2,1 bilhões para comprar dois computadores de inteligência artificial, o governo federal lançou uma iniciativa menos vistosa, mas que tende a intensificar a mudança no relacionamento entre poder público e grandes empresas de tecnologia. É o serviço nacional de computação em nuvem, chamado de Nuvem Brasileira. Capitaneada pelo Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos em parceria com Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados) e BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento), a proposta é armazenar dados públicos estratégicos nessa nova empresa. De passagem por São Paulo, a ministra Esther Dweck falou à coluna sobre como funcionará essa nova companhia. Na avaliação do governo, o Brasil já possui ações de soberania de dados e operacional, mas falta a tecnológica.

Símbolo das duas primeiras frentes é a Nuvem do Governo, operada por Serpro e Dataprev. É uma modalidade de prestação de serviço que obriga as provedoras de nuvem a manter as informações dentro do território nacional, sob regras rígidas de segurança e transparência e, em alguns casos, com operação feita pelas duas estatais. A Nuvem Brasileira é o passo para fechar o circuito, garantindo soberania também tecnológica. Dweck afastou a criação de uma nova estatal (“Nuvembras?

É um nome bonitinho, mas não vai ser”), mas afirmou que a ideia é fomentar a criação de uma empresa nacional, impulsionada com financiamento público e garantia de contratação por parte do governo. O objetivo é essa nova companhia dominar a tecnologia de armazenamento, não depender de alguma big tech nem pagar royalties a estrangeiras pelos serviços usados. O processo ainda está em fase de consulta pública, mas o edital, diz a ministra, deve sair em novembro e prever uma joint venture entre o Serpro e alguma empresa brasileira.

Com isso, o governo federal está excluindo big techs norte-americanas, como Amazon, Google e Microsoft, e chinesas, como Huawei e Alibaba? “Em princípio, a gente está”, diz Dweck. Leia abaixo os principais trechos da entrevista, editados para facilitar a clareza: Em que medida o governo federal vislumbra que uma intervenção estrangeira possa afetar não só a soberania, mas os serviços públicos brasileiros? Esther Dweck: Logo que chegamos, tivemos uma preocupação. Ocorreu uma expansão muito grande no uso de nuvem pública, e a grande maioria dos dados públicos em nuvem estava localizada fora do Brasil. Em 2023, trouxemos esse tema.

Quando os Estados Unidos aprovaram o Cloud Act [lei de 2018 que obriga empresas americanas a fornecerem dados de usuários armazenados em servidores no exterior quando solicitados por ordem judicial], percebemos que o primeiro passo foi importante, mas insuficiente. Com as medidas ocorridas no Tribunal Penal Internacional de Haia, onde autoridades tiveram acessos a e-mails cortados por aplicação da Lei Magnitsky, e as restrições impostas pelos EUA ao acesso a determinados modelos de IA, vimos que o assunto é mais amplo do que a localização física dos dados. No caso da nuvem, ampliamos para os dados serem operados por empresas estatais de TI, como Serpro e Dataprev, e fizemos o repatriamento dos dados para essas empresas.

Contudo, com o Cloud Act, mesmo com o dado no Brasil, uma empresa americana ainda é obrigada a seguir as determinações dos EUA. Por isso, avançamos para o terceiro estágio: soberania tecnológica. Realizamos uma consulta de mercado e uma audiência pública promovida pela ABDI, e estamos fazendo reuniões individuais com empresas para definir o modelo de uma Parceria Público-Privada para desenvolver essa nuvem soberana.

A ideia é ter uma empresa pública associada a empresas privadas, contando com a garantia de compras públicas como mecanismo de financiamento e estímulo ao desenvolvimento tecnológico nacional. Também estamos dialogando com o MEC, universidades, institutos federais, estados e municípios para estender a proteção a todo o setor público. Os Estados Unidos já usaram o Cloud Act para obter dados do serviço público brasileiro? Esther Dweck: Felizmente ainda não tivemos nenhum incidente maior desse tipo no Brasil. No entanto, mapeamos incidentes ocorridos no mundo para pautar nossa proposta de soberania digital, identificando riscos e oportunidades.

Uma das ações prioritárias para a soberania é a aquisição do supercomputador para treinamento de modelos de IA nacionais adaptados à nossa realidade com dados locais, evitando enviar dados para fora do país. Outro projeto é o Centro de Transparência Algorítmica, desenvolvido inicialmente em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais para fiscalizar algoritmos de plataformas e redes sociais quanto a possíveis vieses. Em que fase está o desenvolvimento da Nuvem Brasileira? Esther Dweck: O Serpro é a empresa pública participante e não será criada uma nova empresa estatal. A lógica inicial trabalhada é uma joint venture entre o Serpro e empresas privadas.

É a maior probabilidade, embora o modelo final dependa da conclusão das escutas de mercado. O BNDES apoiará o projeto com financiamento ou participação acionária. Um requisito indispensável é que o código-fonte permaneça no Brasil e sob domínio nacional.

A Dataprev não atuará no desenvolvimento direto da tecnologia neste momento, mas será uma das ofertantes dos serviços posteriormente. As parceiras privadas da PPP devem ser empresas de capital nacional, fundadas no Brasil e com sócio majoritário brasileiro. O governo brasileiro caminha para um posicionamento de que empresas norte-americanas e chinesas não estarão na Nuvem Brasileira? Esther Dweck: Em princípio, a gente está. Sobre restrições a tecnologias estrangeiras, caso uma empresa nacional adquira os direitos de uma tecnologia desenvolvida fora, com código 100% aberto, auditável e submetido integralmente à jurisdição e legislação brasileiras, ela poderá ser aceita.

O que não aceitaremos são tecnologias proprietárias sujeitas a jurisdições estrangeiras ou pagamento de royalties externos. As big techs instaladas no Brasil participaram das conversas e apresentaram propostas, mas a prioridade é o capital nacional. Não há muitas empresas de nuvem no mercado nacional. Esther Dweck: Não há grandes multinacionais de nuvem brasileiras, mas existem iniciativas de menor porte. A Magalu Cloud, por exemplo.

A maioria das empresas nacionais não entrava nesse segmento devido aos custos elevados e à ausência de garantias de compras governamentais posteriores. O caminho viável é o Estado bancar o financiamento e a contratação futura. Ministra, já estão apelidando essa iniciativa de ‘Nuvembras’. Esther Dweck: Nuvembras (risos)?

É um nome bonitinho, mas não vai ser. Bom, o Brasil tem algumas empresas de ponta e quase todas vieram de empresas públicas. Elas podem ser privatizadas posteriormente.

No mundo inteiro é assim. É muito difícil o desenvolvimento de uma tecnologia comercial sem apoio público, porque é um grau de incerteza gigantesco. Tem muito erro.

Se não tiver o Estado minimamente bancando isso, dificilmente vai dar um salto de qualidade. A Embraer começou como? Era uma empresa estatal com uma universidade grudada a ela.

E a universidade pública continua formando e fornecendo gente. A mesma coisa com a Petrobras, uma grande empresa com um centro de pesquisa gigantesco. Eu fui à China e tive contato com a Sasac (Comissão de Supervisão e Administração de Ativos Estatais do Conselho de Estado), a área de estatais da China, e vi como elas operam. Lá desenvolveram a concorrência entre as estatais, que é algo que a gente tem discutido no Brasil.

Aqui, em geral, teve uma estatal de cada setor. A gente tem uma diretoria de inovação, mas é para a operação. Lá não.

A diretoria de inovação deles exige inovação tecnológica das empresas públicas. Uma empresa de TI chinesa surgiu da união de mais de 50 institutos de pesquisa e hoje oferta para o governo e para o privado. Uma das coisas, por exemplo, que a gente tem pensado é as empresas públicas serem associadas a vários institutos de pesquisa. A gente tem conversado com a Embrapi para isso.

E a ideia é que essa futura empresa já nasça com um mote de inovação. Quando sai o edital para escolher a empresa do Nuvem Brasil? Esther Dweck: A escuta de mercado contou com 270 participantes de 70 instituições, sendo 59 empresas privadas. Queremos que o edital da chamada para a PPP seja lançado em novembro. Quais dados irão para essa nova empresa? Esther Dweck: Com essa Nuvem Brasileira, o governo quer focar naquilo que é mais estratégico. Vai continuar tendo dados de nuvem pública e dados nessa nuvem de Governo, que fica dentro das empresas públicas, mas a gente quer uma Nuvem Brasileira para dados cada vez mais sigilosos, estratégicos. Estruturamos a interoperabilidade pública de dados feita pelo CPQD, financiado pelo FNDCT.

O projeto iniciou pela catalogação das bases e pela integração de dados em torno do CPF. Unificamos, por exemplo, o número do SUS ao CPF e estamos padronizando 40 sistemas da saúde para permitir que os dados sejam usados no planejamento de políticas públicas e em soluções de IA. Essa é a base de dados do Brasil, que vai, em partes, para a Nuvem Brasileira. Integrar as bases de dados em torno do CPF é um esforço anterior a esse governo, que vem desde pelo menos 2019.

Por que é tão difícil? Esther Dweck: É verdade. Mas isso vem de antes até. Faltava colocar a integração como prioridade política no centro do governo.

Eu estava na sala do presidente para discutir fraudes nos benefícios sociais e falei: ‘A melhor maneira de resolver isso é integrando os dados para ver se está indo para o lugar correto’. E um dos meios é o desenvolvimento da Carteira de Identidade Nacional para identificar os brasileiros com a biometria. Na época, a própria PF trouxe um estudo de que, com exigência de biometria, cairiam as fraudes.

Aí ele [Lula] falou: “Pode trazer todo mundo que não quiser abrir os dados para a minha mesa que eu vou obrigar”. A centralização de base de dados é uma das coisas mais importantes do governo. Expandimos o Conecta, a plataforma de interoperabilidade, e cada ministério passou a ter um gestor de dados mesmo.

Até o fim do ano, o CPQD vai ter um supercomputador de 300 petaflops para avançar nessa interoperabilidade. Os dados atualmente hospedados em nuvens públicas serão transferidos? Os contratos vigentes podem ser rescindidos? Esther Dweck: Uma parte dos dados será transferida, mas não a totalidade. Não haverá rescisão imediata de contratos.

Contudo, a postura das grandes empresas americanas mudou significativamente entre 2023 e 2025. Encontrei com o pessoal da Microsoft na Inglaterra e eles falaram: “Vocês estão tomando decisões jurássicas. É um absurdo essa coisa do Brasil de querer trazer os dados para dentro”.

Agora, a responsável da Microsoft veio na minha sala dizer que estão dispostos a fazer o que o Brasil disser para garantir soberania. A gente está no processo de rodar nossos sistemas de e-mail governamentais, o pacote Office, tudo diretamente dentro dos servidores do Serpro. ReportagemTexto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis. O autor da mensagem, e não o, é o responsável pelo comentário.

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  • R$ 2,1 bilhões para comprar dois computadores de inteligência artificial: https: //www. com. br//colunas/helton-simoes-gomes/2026/08/20/lula-anuncia-r-1-bi-para-computador-de-ia-e-parceria-bilionaria-com-china. htm

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