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Com a definição oficial das chapas e o estabelecimento das alianças partidárias, a estrutura de distribuição de tempo no rádio e na televisão para a propaganda eleitoral gratuita está desenhada. Contudo, o peso relativo do horário político tradicional na decisão dos eleitores passa por uma transformação sem precedentes, consolidando os ambientes digitais como o verdadeiro centro de gravidade da disputa eleitoral.
O tempo reservado a cada candidato na grade televisiva e radiofônica reflete a dimensão das coligações partidárias formadas no Congresso Nacional. A divisão do tempo por bloco ficou estabelecida da seguinte forma:
- Lula: 5 minutos e 32 segundos;
- Flávio Bolsonaro: 4 minutos e 20 segundos;
- Ronaldo Caiado: 2 minutos e 11 segundos;
- Augusto Cury: 36 segundos;
- Romeu Zema e Renan Santos: sem presença no horário eleitoral gratuito.
Em pleitos passados, não contar com tempo de exposição na televisão e no rádio representava um obstáculo inviável para qualquer pretensão majoritária. No entanto, o cenário político recente demonstrou a mudança na dinâmica da comunicação. Nas eleições de 2018, grandes coligações partidárias com amplo tempo de TV não conseguiram garantir desempenho nas urnas, enquanto campanhas articuladas em redes sociais, aplicativos de mensagens e transmissões ao vivo alcançaram resultados vitoriosos, sinalizando a migração do eixo de atenção do eleitorado.
Do horário nobre às redes sociais: o novo formato das campanhas
Apesar da perda de protagonismo exclusivo, a televisão mantém papel relevante ao alcançar eleitores passivos que não buscam ativamente conteúdo político no ambiente virtual. Todavia, a concepção das peças publicitárias mudou de foco: os conteúdos agora são planejados primariamente para os feeds das redes sociais. O formato dominante passa a ser o vídeo vertical, com duração média de trinta segundos, legendado para visualização sem áudio e otimizado para o compartilhamento direto entre usuários.
A transição do meio televisivo para o digital altera profundamente a dinâmica da mensagem política. Diferente do monólogo característico das inserções de TV, a propaganda na internet opera em um ecossistema interativo e reativo. No ambiente digital, o conteúdo publicado fica sujeito a sistemas de moderação de algoritmos, checagens de fatos, inclusão de notas da comunidade, respostas imediatas da oposição e releituras em formato de meme.
Estratégias digitais: Inteligência Artificial, gamificação e mascotes
A ausência de tempo no rádio e na TV levou candidatos sem espaço na grade tradicional a adotarem estratégias focadas exclusivamente no ambiente virtual. Romeu Zema tem utilizado ferramentas de Inteligência Artificial para a produção de animações satíricas voltadas ao debate político. A série de vídeos intitulada “Os Intocáveis”, que satiriza ministros do Supremo Tribunal Federal, motivou reações jurídicas e pedidos de inclusão em inquéritos que apuram a circulação de desinformação.
Já a candidatura de Renan Santos, pelo partido Missão, fundamenta-se na gamificação do engajamento político. A agremiação estruturou um aplicativo proprietário que distribui tarefas diárias aos militantes, como o compartilhamento de cortes de vídeos e a participação em eventos organizados. O cumprimento das metas concede pontos de experiência (XP) e atualiza pontuações em tempo real. O sistema conta ainda com um repositório de mais de mil vídeos catalogados e com uma mascote virtual em estilo anime, chamada Fely, voltada para a interlocução com o público jovem por meio de linguagem e tendências da cultura da internet.
A contraofensiva dos grandes partidos e os limites da regulação
A consolidação do ecossistema digital também orienta a preparação das legendas com grande tempo de exposição na TV. O Partido dos Trabalhadores tem organizado sua rede de porta-vozes digitais para intensificar a presença nas redes. A articulação liderada por parlamentares como André Janones indica uma postura mais incisiva na busca pelo engajamento e na disputa pela atenção dos usuários das plataformas digitais.
Esse novo ecossistema impõe desafios complexos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Resolução 23.610/2019, atualizada pela Resolução 23.755/2026, veda formalmente a contratação ou a oferta de vantagem econômica, direta ou indireta, para a publicação de conteúdos de cunho político-eleitoral em perfis pessoais. O texto normativo busca coibir mecanismos de recompensa por engajamento, cabendo à justiça eleitoral delimitar as fronteiras entre a militância voluntária gamificada e os incentivos indiretos proibidos por lei.
A regulação do TSE estabeleceu também restrições severas ao uso de inteligência artificial durante o período de votação. A norma prevê a proibição da publicação de qualquer conteúdo sintético novo que utilize imagem ou voz de candidatos nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores ao pleito, ainda que o material esteja devidamente sinalizado. O cenário delineia uma disputa eleitoral fortemente marcada pela convergência entre mídias tradicionais, inteligência artificial e estratégias avançadas de distribuição digital.
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