Acúmulo de satélites é 'ameaça existencial' à astronomia, alerta observatório

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Acúmulo de satélites é 'ameaça existencial' à astronomia, alerta observatório

📸 Créditos da imagem: Unsplash

O acúmulo crescente de megaconstelações de satélites na órbita terrestre representa uma “ameaça existencial” para a astronomia, alertou o Observatório Europeu Austral (ESO) em um estudo recente. A pesquisa aponta para “consequências devastadoras” se o número desses dispositivos exceder a marca de 100 mil, comprometendo severamente nossa capacidade de observar o céu noturno.

Publicado na prestigiada revista Astronomy & Astrophysics, o estudo do ESO é o primeiro a quantificar o impacto que as constelações de satélites de grande porte e alta luminosidade teriam sobre as observações astronômicas. Além das preocupações com a astronomia, o relatório também levanta questões sobre os efeitos desses satélites na saúde humana e no meio ambiente, devido ao clareamento artificial do céu noturno.

Desde 2019, o número de satélites em órbita aumentou exponencialmente, atingindo a marca de 14 mil. A vasta maioria desses dispositivos pertence à constelação Starlink, da SpaceX, empresa de Elon Musk. No entanto, este é apenas o começo de uma expansão ambiciosa.

Projeções Alarmantes para o Futuro

As projeções futuras indicam um cenário ainda mais preocupante. A SpaceX, por exemplo, planeja lançar mais 1 milhão de satélites adicionais, destinados a centros de dados espaciais. Outros projetos significativos incluem:

  • O “Cinnamon”, da empresa emergente E-Space, que adicionaria centenas de milhares de satélites.
  • As constelações chinesas CTC-1 e CTC-2, que também contribuiriam com centenas de milhares de dispositivos.
  • A Reflect Orbital, uma startup americana, que pretende lançar até 50 mil satélites de grande porte, semelhantes a espelhos, até 2035. O objetivo é refletir a luz solar para proporcionar iluminação noturna.

Somando todas essas iniciativas, o número total de satélites em órbita poderia ultrapassar 1,7 milhão, resultando em uma saturação sem precedentes do céu noturno que os telescópios terrestres tentam observar.

O Impacto Visual: Um Céu Suburbano no Atacama

Olivier Hainaut, astrônomo do ESO e um dos autores do estudo, detalha o impacto visual. “Quando um satélite passa diante daquilo que estamos observando, deixa uma esteira luminosa na nossa imagem, ocultando tudo o que está atrás”, explica. Ele ressalta que, embora isso já ocorra diariamente, o aumento projetado para 1,7 milhão de satélites tornará a situação insustentável, especialmente com os dispositivos projetados para serem extremamente brilhantes.

Os satélites da Reflect Orbital, mesmo sem apontar diretamente para o observador, dispersariam luz de tal forma que apareceriam no céu como milhares de Vênus, o astro visível a olho nu. Hainaut compara o efeito a transformar o céu puro de locais remotos, como o deserto do Atacama no Chile, o Saara na África ou Auvergne na França, em algo semelhante ao que se observa nos arredores de uma cidade, com intensa poluição luminosa.

Recomendações e Ações Regulatórias

Para mitigar essas “consequências dramáticas” para a astronomia terrestre, o estudo do ESO sugere que o número de satélites em órbita seja limitado a 100 mil. Além disso, é crucial que esses satélites sejam projetados para serem suficientemente pouco brilhantes, a ponto de não serem visíveis a olho nu quando observados de um local escuro.

Com base neste estudo, o ESO, em colaboração com a Royal Astronomical Society do Reino Unido e a União Astronômica Internacional, apresentou um relatório à Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos Estados Unidos. A FCC é o órgão responsável por analisar os pedidos de autorização de empresas como SpaceX e Reflect Orbital.

Betty Kioko, encarregada de assuntos institucionais do ESO, enfatizou a gravidade da situação em nota. “Para a astronomia óptica, trata-se de uma ameaça existencial e esperamos que os reguladores compartilhem este ponto de vista”, afirmou, aguardando as decisões da FCC sobre os expedientes em questão.

Diálogo com a Indústria e Preocupações Amplas

Apesar das preocupações, os astrônomos não são contra o uso de satélites, mas buscam uma forma de coexistência. Olivier Hainaut mencionou uma “colaboração razoavelmente boa com os fabricantes de satélite, em particular com a SpaceX”, que tem feito “um grande esforço para minimizar o impacto de seus satélites”.

Um porta-voz da Reflect Orbital, por sua vez, informou que a empresa encomendou estudos independentes sobre o impacto de sua tecnologia e se comprometeu a “continuar o diálogo com os astrônomos”. A empresa garantiu que seus satélites estarão “desligados por default” e que “evitarão sistematicamente redirecionar a luz perto dos observatórios”.

A contaminação luminosa gerada pelas constelações de satélites transcende a esfera astronômica. Ela pode ter repercussões significativas para a saúde e o meio ambiente, desregulando os relógios biológicos de seres vivos e alterando ecossistemas. Adicionalmente, o lançamento e a reentrada desses satélites na atmosfera, ao final de sua vida útil, contribuem diretamente para a degradação da qualidade do ar, adicionando mais uma camada de preocupação ambiental a este desafio tecnológico.

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