Estudo da Universidade do Sul da Califórnia levanta novas questões sobre ultraprocessados e cérebro infantil

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Estudo da Universidade do Sul da Califórnia levanta novas questões sobre ultraprocessados e cérebro infantil

📸 Créditos da imagem: Unsplash

Biscoitos recheados, salgadinhos, cereais açucarados e refeições industrializadas fazem parte da rotina alimentar de muitas crianças. Embora seus efeitos nutricionais sejam amplamente discutidos, os cientistas estão começando a investigar uma questão menos evidente: como esses produtos se relacionam com o funcionamento do cérebro durante o desenvolvimento? Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos encontrou sinais que merecem atenção.

E o mais interessante é que os pesquisadores acompanharam o que aconteceu com os participantes um ano depois. O cérebro das crianças apresentou uma resposta diferente diante de imagens de comida Pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia (USC) analisaram o cérebro de 46 crianças para investigar possíveis relações entre o consumo de alimentos ultraprocessados e os circuitos cerebrais associados à alimentação. Os participantes tinham, em média, 8,7 anos e apresentavam peso considerado saudável no início da pesquisa.

O estudo, publicado na revista científica JAMA Network Open, utilizou ressonância magnética funcional para observar a atividade cerebral enquanto as crianças visualizavam fotografias de alimentos. Os cientistas também coletaram informações sobre a alimentação habitual e realizaram avaliações corporais. Um dos primeiros resultados chamou a atenção: aproximadamente 67,7% das calorias consumidas pelos participantes vinham de alimentos ultraprocessados.

A classificação seguiu o sistema NOVA, que organiza os alimentos de acordo com o grau e a finalidade de seu processamento industrial. Mas a descoberta mais relevante apareceu nas imagens cerebrais. Crianças que consumiam proporções maiores desses produtos apresentavam uma resposta mais intensa no estriado dorsal ao observar fotografias de comida, mesmo depois de terem se alimentado.

Essa região participa de processos relacionados à motivação, ao aprendizado e à formação de hábitos. Uma região ligada à motivação pode ajudar a explicar a atração por determinados alimentos O estriado dorsal integra circuitos cerebrais envolvidos na maneira como aprendemos comportamentos e respondemos a estímulos associados a recompensas. Isso não significa que ele funcione exclusivamente como um centro de prazer.

Sua atividade também está relacionada à motivação e à repetição de comportamentos aprendidos. Os pesquisadores observaram que a associação entre consumo de ultraprocessados e resposta cerebral não ocorreu da mesma maneira em todas as regiões analisadas. No estriado ventral, outra estrutura associada ao processamento de recompensas, não foi identificada uma relação estatisticamente significativa.

Essa diferença sugere que os resultados podem estar ligados a mecanismos específicos de aprendizagem e motivação alimentar. Entretanto, ainda não é possível determinar se os hábitos alimentares influenciaram a atividade cerebral ou se crianças com determinadas características cerebrais demonstravam maior preferência por esses produtos. O estudo identificou uma associação, mas não comprovou uma relação de causa e efeito.

Essa distinção é fundamental para interpretar corretamente os resultados. Um ano depois, os pesquisadores encontraram outra associação importante A investigação não terminou com os exames de ressonância magnética. Após aproximadamente um ano, os cientistas voltaram a avaliar os participantes, analisando o índice de massa corporal (IMC), o percentual de gordura corporal e a circunferência da cintura.

Os resultados mostraram que crianças com maior atividade no estriado dorsal diante de imagens de comida apresentaram, em média, aumentos posteriores mais expressivos no IMC e no percentual de gordura. Além disso, uma maior participação de ultraprocessados na alimentação inicial esteve associada ao aumento da circunferência da cintura. Entretanto, as relações diretas entre consumo desses alimentos e alterações posteriores no IMC e no percentual de gordura foram menos conclusivas.

Para os pesquisadores Jasmin Alves e Kathleen Page, os resultados levantam a hipótese de que circuitos cerebrais envolvidos na motivação alimentar possam participar da relação entre padrões de alimentação e mudanças na composição corporal durante a infância. Isso não significa que as alterações cerebrais observadas sejam necessariamente responsáveis pelo ganho de gordura. Outros fatores biológicos, comportamentais e ambientais também podem influenciar essa relação.

O que essa descoberta realmente significa para a alimentação infantil? A pesquisa acrescenta uma nova dimensão ao debate sobre alimentos ultraprocessados, mas apresenta limitações importantes. A amostra incluiu apenas 46 crianças, e as imagens cerebrais foram obtidas em um único momento.

Por isso, os pesquisadores não conseguiram acompanhar possíveis mudanças na atividade cerebral ao longo do tempo. Também não foi possível controlar todos os fatores capazes de influenciar os hábitos alimentares e o desenvolvimento corporal. A questão envolve ainda o ambiente em que as crianças crescem.

O UNICEF alerta que a publicidade de alimentos pouco saudáveis pode influenciar preferências alimentares e comportamentos de consumo entre crianças e adolescentes. Embora os resultados sejam relevantes, eles não demonstram que comer ultraprocessados provoque inevitavelmente alterações cerebrais ou obesidade. A principal descoberta é a existência de uma possível conexão entre alimentação, resposta cerebral a estímulos alimentares e mudanças corporais posteriores.

Com estudos maiores e acompanhamento prolongado, os cientistas poderão compreender melhor como essa relação se desenvolve e quais fatores realmente contribuem para ela.

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