📸 Créditos da imagem: Unsplash
Quando uma enchente destrói uma cidade ou uma onda de calor extremo coloca milhares de vidas em risco, as consequências parecem atingir a todos. Mas a realidade é muito diferente. Enquanto algumas pessoas conseguem reconstruir suas casas e retomar a rotina, outras perderam praticamente tudo.
Um novo relatório internacional revela que essa desigualdade começa muito antes dos desastres e envolve uma concentração surpreendente de emissões de carbono e interesses financeiros. Uma pequena parcela da população emite mais carbono do que bilhões de pessoas O relatório Brecha ante los desastres, divulgado pela organização Oxfam em 27 de outubro de 2026, apresenta números que evidenciam a dimensão da desigualdade climática. Segundo a entidade, o 0,1% mais rico da população mundial, aproximadamente oito milhões de pessoas, produz mais emissões de carbono do que os 3,5 bilhões de habitantes mais pobres juntos.
Isso significa que uma parcela equivalente a apenas um milésimo da humanidade tem uma pegada de carbono superior à de aproximadamente 44% da população mundial. Para chegar a essas estimativas, a Oxfam combinou dados sobre emissões associadas à renda com modelos científicos que relacionam emissões históricas ao aquecimento global. Os resultados também apontam diferenças expressivas na contribuição para eventos climáticos extremos.
Segundo o relatório, uma pessoa pertencente ao grupo dos 0,1% mais ricos teria contribuído quase 400 vezes mais para as atuais ondas de calor extremo do que alguém situado na metade mais pobre da humanidade. Quando a análise considera o 1% mais rico, a organização estima que suas emissões correspondam a aproximadamente 20% do aquecimento global acumulado desde 1990. A desigualdade, portanto, não está apenas no consumo de recursos, mas também na responsabilidade histórica pelas mudanças climáticas.
O impacto das emissões pode provocar milhões de mortes no futuro O documento também apresenta uma projeção preocupante sobre os efeitos das emissões de carbono na saúde humana. De acordo com os modelos utilizados pela Oxfam, as emissões produzidas pelo 1% mais rico durante um único ano poderiam contribuir para aproximadamente 1,9 milhão de mortes adicionais relacionadas ao calor ao longo do tempo. É importante destacar que esse número representa uma estimativa estatística de consequências futuras, não uma contagem de mortes já registradas.
A distribuição prevista dessas perdas também chama a atenção. Cerca de 78% das mortes projetadas ocorreriam em países de renda baixa ou média-baixa, justamente aqueles que respondem por uma parcela relativamente pequena das emissões globais. O contraste evidencia uma das principais características da crise climática: os países e comunidades que menos contribuem para o problema frequentemente enfrentam algumas de suas consequências mais graves.
Mas o relatório identifica outra dimensão dessa desigualdade, relacionada aos negócios que surgem antes e depois das catástrofes. Algumas empresas participam tanto das atividades poluentes quanto da reconstrução A Oxfam desenvolveu um indicador chamado Destruir e Reconstruir para investigar a relação entre investimentos em atividades associadas ao aquecimento global e serviços de recuperação após desastres. O levantamento identificou 217 empresas com operações ligadas a esses dois segmentos.
Segundo a organização, as gestoras de investimentos BlackRock e Vanguard possuem participações em 92% dessas companhias. O valor conjunto dos investimentos identificados ultrapassa US$ 1 trilhão. Isso não significa que essas instituições tenham provocado diretamente desastres específicos ou que todas as empresas analisadas obtenham lucros em cada catástrofe.
O que o levantamento aponta é a existência de interesses financeiros simultâneos em setores relacionados às emissões e em negócios voltados à preparação e reconstrução após eventos extremos. Esse segundo mercado também está crescendo. Segundo as estimativas citadas no relatório, o setor mundial de recuperação após desastres pode passar de aproximadamente US$ 70 bilhões anuais para US$ 92 bilhões até 2029.
A situação revela uma contradição econômica: determinados investidores podem obter retornos tanto de atividades que contribuem para o problema climático quanto de serviços necessários para enfrentar seus impactos. Quem tem menos recursos também enfrenta maiores dificuldades para se recuperar A desigualdade climática continua depois que uma enchente, seca ou tempestade termina. Famílias com maior poder aquisitivo geralmente dispõem de seguros, reservas financeiras e alternativas de moradia.
Já comunidades de baixa renda podem perder suas casas, ferramentas de trabalho e economias, enfrentando dificuldades prolongadas para reconstruir suas vidas. Segundo a Oxfam, a mortalidade por inundações é sete vezes maior em países com níveis mais elevados de desigualdade. O dado reforça a importância das condições sociais e econômicas na capacidade de enfrentar eventos extremos.
Diante da COP31, prevista para ocorrer na Turquia, a organização defende impostos maiores sobre grandes fortunas, lucros de empresas de combustíveis fósseis e atividades de luxo com elevadas emissões, como voos privados. Também recomenda ampliar o financiamento destinado à adaptação climática nos países mais vulneráveis. Essas medidas representam propostas da Oxfam, e sua eficácia depende de decisões políticas e econômicas que continuam em debate.
A principal conclusão do relatório é que a crise climática não distribui igualmente responsabilidades, riscos e oportunidades econômicas. Enquanto uma pequena parcela da população concentra emissões e recursos financeiros, bilhões de pessoas enfrentam consequências desproporcionais, muitas vezes sem condições suficientes para se proteger ou recomeçar.
📰 Leia a notícia completa em: Gizmodo »