A inovação morreu e talvez isso seja uma boa notícia

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A inovação morreu e talvez isso seja uma boa notícia

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IA na saúde: inovação exige testes, segurança e regulamentação2: 23Especialista alerta para riscos e falhas da tecnologia e defende sistemas confiáveis, rigorosamente testados e com benefícios comprovados para a saúde. Crédito: EstadãoHá palavras que, de tanto serem mal usadas, começam a dizer muito pouco. Inovação é uma delas.

Hoje, praticamente tudo pode ser apresentado como inovador: um produto que ganha uma nova funcionalidade, uma empresa que reformula sua identidade, um evento com um line-up diverso, uma campanha que incorpora frases de efeito em alta ou uma área que adota um título diferente. Até aquilo que ainda não produziu resultado algum recebe o mesmo adjetivo. Talvez seja por isso que possamos falar, provocativamente, na morte da inovação.

Não porque as empresas tenham deixado de inovar, mas porque a palavra foi progressivamente esvaziada de significado. A linguística oferece uma maneira interessante de compreender esse fenômeno. Ferdinand de Saussure, um dos fundadores da linguística moderna, estabeleceu uma distinção entre significante e significado. De maneira bastante simplificada, o significante corresponde à forma pela qual um conceito se manifesta — uma palavra, por exemplo — enquanto o significado é o conceito que associamos à ela.

Quando repetimos incessantemente um significante sem preservar a precisão do significado, corremos o risco de conservar a palavra e perder aquilo que ela deveria representar. Foi, em alguma medida, o que aconteceu com a inovação. O significante nunca esteve tão presente. Está em apresentações corporativas, relatórios anuais, campanhas publicitárias, departamentos, cargos, eventos e discursos de liderança.

O significado, no entanto, tornou-se muito mais difícil de identificar. Em determinados ambientes corporativos, inovação passou a significar modernidade, tecnologia, criatividade, transformação digital ou simplesmente novidade. São conceitos relacionados, mas não são sinônimos.

Ser novo, por si só, não é suficiente. Essa distinção não é apenas filosófica. O Manual de Oslo, elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e pelo Gabinete de Estatísticas da União Europeia (Eurostat) e utilizado internacionalmente como referência para mensuração da inovação, estabelece que uma inovação envolve um produto ou processo novo ou melhorado, significativamente diferente do que existia anteriormente, que tenha sido efetivamente disponibilizado aos usuários ou colocado em uso. A própria OCDE ressalta um ponto fundamental: inovação é mais do que uma ideia nova ou uma invenção, ela exige implementação. Essa definição ajuda a recuperar algo que o discurso corporativo muitas vezes esqueceu.

Uma ideia pode ser brilhante e continuar sendo apenas uma ideia. Uma tecnologia pode ser sofisticada e não resolver nenhum problema relevante. Uma prova de conceito pode impressionar em uma apresentação e nunca chegar à operação.

Nada disso diminui o valor da experimentação, mas é importante distinguir o caminho da chegada. Na prática, a inovação aparece quando uma necessidade concreta encontra uma resposta que antes não existia, ou que, pelo menos, não havia sido aplicada daquela maneira. Não basta criar algo novo: é preciso transformar essa novidade em uma solução capaz de melhorar a vida das pessoas, o funcionamento de uma empresa ou a eficiência de um processo. A palavra “dor” é importante porque devolve propósito à discussão. Pode ser a dor de um consumidor que perde horas realizando uma tarefa que poderia levar minutos.

Pode ser a de uma indústria que desperdiça recursos em determinado processo. Pode ser uma dificuldade logística, um problema energético, uma barreira de acesso a serviços financeiros ou uma ineficiência que durante décadas foi aceita simplesmente porque “sempre funcionou assim”. Quando alguém encontra uma maneira significativamente diferente de enfrentar esse problema e consegue colocá-la em prática, estamos mais próximos da essência da inovação. Isso também significa que inovação não precisa ser espetacular.

Talvez uma das consequências do esvaziamento da palavra tenha sido a criação de uma estética da inovação. Esperamos que ela venha acompanhada de inteligência artificial, laboratórios futuristas, grandes anúncios ou tecnologias capazes de transformar mercados inteiros. Algumas inovações serão assim.

Muitas outras não. Uma mudança de processo que reduz desperdício pode ser inovação. Uma nova combinação de tecnologias existentes que torna um serviço mais acessível pode ser inovação. Uma solução desenvolvida em outro setor e aplicada pela primeira vez a um problema específico também pode ser inovação.

O próprio Manual de Oslo reconhece que inovações podem resultar de novos usos ou novas combinações de conhecimentos e tecnologias existentes. No ecossistema de startups, essa distinção é particularmente importante. Durante anos, aprendemos a celebrar tecnologias, rodadas de investimento, valuations, hackathons, provas de conceito e programas de inovação aberta. Todos esses elementos têm sua função, mas nenhum deles deveria ser confundido com o resultado final, tampouco o orçamento isolado de uma área de inovação.

A pergunta fundamental é: “qual problema relevante conseguimos resolver de uma maneira que antes não conseguíamos? ” Essa deveria ser uma, e talvez a principal, pergunta incômoda dentro das organizações. Em inovação aberta, esse aprendizado é decisivo. Nenhuma organização, independentemente de seu tamanho, concentra internamente todas as respostas para os problemas que enfrenta. Startups, universidades, pesquisadores, fornecedores e empresas de outros setores podem possuir tecnologias ou conhecimentos capazes de resolver uma dor que, dentro de uma companhia, permanece sem resposta há anos.

Mas conexão, tecnologia e experimentação só ganham valor empresarial quando conseguem produzir alguma mudança concreta. Talvez a morte da inovação como palavra de marketing seja necessária justamente para recuperarmos a inovação como prática empresarial. E essa discussão acontece em um momento particularmente interessante para o Brasil. A Selic está em 14% ao ano e, embora o Banco Central tenha iniciado o ciclo de redução dos juros, as expectativas de inflação para 2026 e 2027 permanecem acima da meta.

Ao mesmo tempo, mais de 9,1 milhões de empresas brasileiras estavam inadimplentes em junho de 2026, o maior número da série histórica da Serasa Experian, acumulando R$ 232,9 bilhões em dívidas negativadas. Em 2025, 2.466 empresas estiveram envolvidas em processos de recuperação judicial, também um recorde da série apurada pela instituição. É um ambiente que torna capital, margem e produtividade ainda mais relevantes. E talvez seja justamente aí que esteja a mudança mais importante.

Quando dinheiro e tempo são escassos, fica difícil sustentar uma inovação que existe apenas para cumprir agenda corporativa, produzir eventos, acumular provas de conceito ou alimentar uma narrativa de modernidade. Essa inovação, tratada como custo acessório e desconectada dos problemas centrais do negócio, provavelmente perdeu espaço, e talvez devesse mesmo perder. O paradoxo é que o mesmo cenário que mata essa inovação ornamental torna a inovação real ainda mais necessária. Empresas que precisam reduzir custos, aumentar produtividade, proteger margens, conquistar mercado e sobreviver a um ambiente mais competitivo não podem simplesmente deixar de inovar.

Elas precisam inovar melhor. Precisam encontrar soluções concretas para problemas concretos, dentro ou fora de suas estruturas, e ser muito mais rigorosas sobre aquilo que merece investimento. Talvez seja esse o próximo ciclo. A inovação como conhecíamos, inflada pelo discurso, associada à novidade e muitas vezes distante do resultado, está morrendo.

Em seu lugar, pode surgir algo menos vistoso, mais pragmático e muito mais relevante para os negócios. Se isso acontecer, a morte da inovação terá produzido justamente aquilo que se espera dela: uma forma melhor de resolver um problema real.

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