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Por trás de algumas das maiores fortunas do Vale do Silício opera uma rede reservada, com raízes profundas nos círculos empresariais e políticos dos Estados Unidos. Conhecida como Rockbridge Network, a organização foi cofundada por J. D. Vance e conta com a influência direta de magnatas da tecnologia como Peter Thiel. Nos últimos anos, essa aliança conservadora passou a traçar planos de expansão internacional, e o Brasil surgiu como uma de suas principais prioridades estratégicas.
No entanto, a tentativa de consolidação da iniciativa em solo brasileiro gerou forte turbulência. Uma combinação de documentos internos, reuniões com lideranças do alto escalão e acusações de envolvimento eleitoral transformou uma articulação discreta em uma polêmica de alcance nacional.
Uma rede criada longe dos holofotes
A história da Rockbridge Network começou em 2019, durante um encontro reservado na zona rural do estado de Ohio. A fundação foi liderada por J. D. Vance, atual vice-presidente dos Estados Unidos, em conjunto com o empresário e comunicador Chris Buskirk. Peter Thiel, figura central na consolidação do Vale do Silício, exerceu papel determinante na conexão entre os idealizadores.
Thiel possui uma trajetória consolidada no ecossistema global de tecnologia e venture capital, destacando-se por investimentos e fundações de peso:
- Cofundador do serviço de pagamentos PayPal;
- Cofundador da Palantir Technologies, gigante de análise de dados e defesa;
- Um dos primeiros e mais influentes investidores do Facebook;
- Financiador político que desembolsou US$ 15 milhões para impulsionar a campanha vitoriosa de Vance ao Senado em 2022.
Com o passar dos anos, a Rockbridge consolidou-se como um núcleo exclusivo para investidores e doadores alinhados à direita. Documentos apontam que a entidade busca erguer sua própria infraestrutura de poder institucional, congregando institutos de pesquisa, plataformas de mídia, bases de mobilização eleitoral e grupos de pressão política. A entrada no grupo é restrita a participantes de altíssimo patrimônio, com reuniões que chegam a exigir contribuição mínima de US$ 100 mil por participante.
O Brasil no radar estratégico da organização
A estratégia de internacionalização da rede não é apenas ideológica, mas fundamentalmente orientada para setores industriais de fronteira. A organização mapeou mercados cruciais para a cadeia de suprimentos do Ocidente, voltando suas atenções para áreas vitais:
- Inteligência artificial e supercomputação;
- Semicondutores e microeletrônica;
- Transição energética e minerais críticos;
- Tecnologia de defesa e infraestrutura física e digital.
Após aproximações iniciais com a Coreia do Sul, Taiwan e Índia, o mercado brasileiro entrou formalmente nos planos da organização. Representantes do grupo mantiveram reuniões com grandes empresários nacionais, como Joesley Batista e André Esteves, além de lideranças políticas como o senador Flávio Bolsonaro e o governador mineiro Romeu Zema.
Materiais institucionais apresentados a interlocutores no Brasil detalhavam planos audaciosos. O projeto propunha faixas de adesão anual estipuladas em US$ 500 mil e US$ 1 milhão, acompanhadas da formatação de um conselho voltado a tecnologia e atração de aportes. Uma das projeções mencionava a ambição de gerar um impacto superior a US$ 100 bilhões na economia local ao longo de dez anos, com potencial para abrir mais de 500 mil postos de trabalho.
A repercussão no cenário político e as investigações
O que parecia um projeto de articulação corporativa e tecnológica ganhou novos contornos diante da arena política. O presidenciável Renan Santos denunciou publicamente a organização, alegando que a estrutura internacional estaria atuando para prestar suporte direto à campanha de Flávio Bolsonaro. Como a legislação brasileira veda expressamente o financiamento de campanhas eleitorais por agentes ou capitais estrangeiros, o episódio desencadeou pedidos de apuração formal.
As suspeitas aumentaram após a confirmação de que uma entidade jurídica, batizada de Rockbridge Brazil LLC, havia sido registrada no estado de Wyoming, nos Estados Unidos. A abertura foi intermediada por Chris Applegate, profissional historicamente ligado à captação de recursos republicana e a Vance.
Em resposta à controvérsia, a Rockbridge negou categoricamente qualquer interferência política. A entidade sustentou que a empresa norte-americana foi aberta em resposta ao interesse demonstrado por executivos brasileiros, mas garantiu que a operação foi descontinuada antes de receber aportes ou iniciar atividades. Empresários associados às tratativas, como Tallis Gomes e Pedro Sang, corroboraram que os conselhos e iniciativas não saíram do papel, mantendo o caso no centro de um intenso debate sobre investimentos globais e limites eleitorais.
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