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Reportagem’Enxurrada de investimento’: indústria projeta R$ 1,5 tri para data centersCom a aprovação dos incentivos fiscais para a instalação de data centers no Brasil, a indústria agora projeta investimentos de até R$ 1,5 trilhão para construir esse tipo de infraestrutura no Brasil. A gente vai ver uma enxurrada de investimento. Não será nas próximas semanas, mas sim nos próximos meses, porque, nos últimos quatro meses, você já vê uma série de anúncios de operadores de data center com projetos contratadosLuiz Tossi, vice-presidente da ABDC (Associação Brasileira de Data Centers)Em todo mundo, muito dinheiro tem ido para galpões enormes, máquinas poderosas e sistemas de inteligência artificial e computação em nuvem. Na avaliação da indústria, parte desse fluxo financeiro já chegaria ao Brasil de todo modo, mas, com equipamentos a um custo mais competitivo, o país agora se cacifa para desbancar rivais.
“É a maior oportunidade de investimento em infraestrutura da nossa geração”, diz Eduardo Sodero, CEO da Takoda Data Centers. A capacidade dos data centers brasileiros é de 1 Gigawatt, estima a indústria. A título de comparação, os Estados Unidos, líderes indiscutíveis na área, contam com com 55 GW. Se o boom da IA move negócios lá, também impulsiona por aqui: Sem Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter), o setor projetava adicionar 2 GW ao parque nacional; “O mercado já tinha precificado o Redata e já tinha retomado os investimentos para atender o crescimento vegetativo de cloud do país”, explica Tossi. O Brasil tem menos de 1% da capacidade instalada de data centers no mundo, embora tenha aproximadamente 2% do PIB e 3% da população mundiais.
Só pensando nesses aspectos, dá para ver que está desbalanceadoEduardo Sodero, TakodaCom aprovação dos incentivos no Congresso Nacional, a projeção é de o Brasil chegar a 5 GW entre 18 e 30 meses; “Agora, a gente entra no jogo de volta para atrair os data centers de IA”, resume; Nas contas do setor, a cada 100 Megawatt, são necessários US$ 1 bilhão para a construção do data center e entre US$ 4 bilhões e US$ 7 bilhões para a aquisição de equipamentos (GPUs, memória, fibra óptica e outros sistemas). Como a expectativa é ampliar em 4 GW, os investimentos previstos ficam entre R$ 1 trilhão e R$ 1,5 trilhão. A projeção é similar à realizada pela FGV Projetos, a pedido das empresas Scala Data Centers e Norgás; Mas o caminho até essas cifras deixarem de ser só especulações não foi fácil; Proposto em forma de Medida Provisória pelo governo Lula ainda em 2025, o Redata chegou a ser apresentado a diversas big techs em visita do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad ao Vale do Silício; Mesmo que tenha empolgado, caducou por não ter sido apreciado a tempo pelos parlamentares; Para manter a chama viva, o deputado José Guimarães (PT-CE) propôs em fevereiro deste ano um projeto de lei para recriar seus benefícios e contrapartidas e outro para garantir espaço fiscal; Após o primeiro projeto avançar na Câmara, o Senado chegou a aprovar regime de urgência para votá-lo diretamente no plenário, mas ficou assim por meses; Tossi admite que empresas da área pressionaram, mas o que ajudou mesmo foi um entendimento entre Executivo e o Senado; a retomada do diálogo entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), ocorreu em agosto, destravando esta e pautas como as PECs da Segurança e da escala 6×1; Contou ainda o enfoque dado pelo governo federal à soberania nacional, cristalizada, no âmbito da tecnologia, na instalação de infraestrutura nacional para sustentar o crescimento do país em IA, avalia Tossi; Nessa esteira, o governo federal anunciou R$ 2,1 bilhões para dois supercomputadores para desenvolver IA, e a liberação do desconto tributário para data centers veio a reboque; agora, vai à sanção presidencial; Não sem um último contratempo: relatado pelo deputado Isnaldo Bulhões (MDB-AL), o projeto criado para garantir a isenção de impostos aos data centers ainda em 2026 quase foi aprovado sem fazer isso.
Mexe daqui, mexe dali, e os descontos fiscais foram suprimidos. No lugar, entraram benefícios a resseguradoras e a municípios de até 65 mil habitantes. A ideia original retornou via emenda do PDT, quando o texto já era debatido no plenário, pouco antes de ser aprovado pela Câmara. Na prática, o Redata antecipa os benefícios da reforma tributária.
Fica suspenso para equipamentos a serem instalados em data centers o recolhimento de tributos federais, como PIS/Pasep, Cofins, IPI e Imposto de Importação. Mas só vale se não houver produção nacional. O Brasil é atrativo pela abundância comparativa de energia renovável, mas, antes de decidir, os hyperscalers (grandes operadores de computação em nuvem) comparam o país com o mundo todo. “Quando você olha todos os custos para rodar um data center, o Brasil não era competitivo.
Por isso, eles buscavam ter o mínimo de investimento aqui, levando coisas que poderiam processar para outros países. Com o Redata, a gente vai ver uma entrada importante para o Brasil”, diz Sodero, da Takoda. As empresas beneficiadas precisam destinar 10% da capacidade de processamento ao mercado interno —para as instalações no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, essa exigência cai para 8%. O equivalente a 2% dos gastos com compra de equipamento precisa ser investido no país sob a forma de pesquisa, inovação ou desenvolvimento —fora Sul e Sudeste, esse índice cai para 1,6%. Outra obrigação é o uso de fontes renováveis de energia ou de baixa emissão, algo que abre caminho para o gás natural.
Outro detalhe é que o consumo não pode passar de 0,05 litro de água para cada kWh —no jargão da área, esse é o WUE (Índice de Eficiência Hídrica, na sigla em inglês). Essa última contrapartida atende às preocupações com o impacto ambiental dos data centers. Para Tossi, da ABDC, as empresas brasileiras conseguem atingir com folga esse critério, pois o WUE médio do país é de 0,005 litro por kWh. A preocupação ambiental aqui no Brasil é desproporcional e está sendo importada de uma realidade americana, que não é condizente com a realidade brasileiraLuis Tossi, da ABDCEnquanto instalações dos EUA recorrem a refrigeração por evaporação, que demanda consumo diário de água, as brasileiras usam circuito fechado, em que o líquido é inserido uma vez e recircula. Preocupação importada ou não, antes da votação, diversas entidades da sociedade civil fizeram campanha contra o Redata usando como argumento o impacto sobre recursos hídricos e no solo, normas ambientas e avanço sobre comunidades tradicionais. Apesar de o Redata ser celebrado, os investimentos em data centers já estão a todo vapor. Em agosto, a Terranova anunciou uma instalação de quase 400 MW em Campinas (SP), programada para 2027 e a um custo de R$ 2,5 bilhões (US$ 500 milhões). Em junho, a Ascenty anunciou investimentos de R$ 6 bilhões (US$ 1,2 bilhão) em quatro centrais de dados em São Paulo, um deles o primeiro voltado à IA no país e na região —um deles, o de Sumaré (SP), foi contratado pela Microsoft, relatam fontes do setor.
Dona de 26 instalações em operação na América Latina, dos 21 ficam no Brasil, a empresa possui outros 14 em construção ou desenvolvimento. Essa onda também compreende interessados em comprar empresas da área. O fundo I Squared Capital concluiu em junho a compra da Elea. Dona de data centers no Rio, São Paulo, Rio Grande do Sul e Distrito Federal, ela investirá R$ 2,5 bilhões (US$ 550 milhões) no Rio AI City, um complexo voltado a IA em parceria com a prefeitura carioca —ao todo, o projeto pode consumir R$ 50 bilhões. Ainda em junho, outra a mudar de mãos foi a Takoda.
A Monte Capital adquiriu 100% da companhia junto ao fundo Apax Partners. Agora, a dona de instalações de 14 MW tem planos de multiplicar em 11,5 vezes essa capacidade com dois data centers, um de 96 MW em Sumaré (SP) e outro de 64 MW no Rio.”É um projeto de 5 anos com potencial de US$ 1,6 bilhão (R$ 8 bilhões) de investimento físico em todas as fases dele”, diz Eduardo Sodero, CEO da Takoda. Considerando a relação de US$ 5 para equipamentos a cada US$ 1 gasto com infraestrutura, mais R$ 40 bilhões seriam adicionados ao projeto, vindos das empresas a ocuparem os espaços. O negócio joga luz sobre outro movimento.
Conhecida por investir em rodovias, portos e obras de saneamento básico, a gestora Monte Capital adiciona ao seu portfólio um item básico à infraestrutura digital, os data centers. É a maior oportunidade de investimento em infraestrutura da nossa geração. Se no século 19 as pessoas estavam construindo ferrovias no mundo todo, agora estão construindo infraestrutura digital. Esse é o momentoEduardo Sodero, CEO da TakodaReportagemTexto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.
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