📸 Créditos da imagem: Divulgação/Apple
Todo fim de agosto acontece a mesma coisa comigo. O iPhone no meu bolso funciona perfeitamente, a bateria aguenta o dia inteiro, nada quebrou, nada travou… e mesmo assim, eu já estou fazendo contas.
O detalhe é que não é bem uma dúvida. Se eu for honesto, a decisão já está tomada. Eu vou trocar.
Só falta a Apple me dar a desculpa perfeita.
Faço isso desde o primeiro iPhone, e já escrevi/falei sobre isso aqui no MacMagazine: passou o tempo em que a mudança de hardware era tão gritante a ponto de você olhar para o aparelho novo e pensar “ eu tenho que trocar, isso vai mudar minha vida” Hoje, é tudo mais suave. Um pouco mais de bateria, uma câmera que resolve melhor a contraluz, um chip que você não sente no dia a dia, etc. E, curiosamente, funciona ainda melhor assim.
A ansiedade chega antes do produto
O termo FOMO (fear of missing out, ou medo de ficar de fora) foi formalizado em 2013 por Andrew Przybylski, Kou Murayama, Cody DeHaan e Valerie Gladwell, num estudo publicado na revista Computers in Human Behavior. A definição deles é boa demais para parafrasear: “ uma apreensão persistente de que outras pessoas possam estar vivendo experiências gratificantes das quais você está ausente”
A pesquisa falava de redes sociais, de gente olhando o Facebook no meio do jantar. Mas repare no que acontece no ciclo do iPhone: o objeto do meu medo ainda não existe. Não foi anunciado, não tem preço, não tem data.
Eu estou com medo de ficar de fora de uma coisa que ninguém viu.
Divulgação/Apple
Isso é FOMO antecipado, e é um estado bem mais confortável para quem vende do que para quem compra. Quando o produto finalmente aparece, ele não precisa lhe convencer do zero. Ele só precisa preencher um espaço que você já reservou.
A ciência do “ e se eu me arrepender? ”
Existe um estudo que me fez repensar a forma como eu leio as páginas de comparação da Apple. Eric Shih e Hope Jensen Schau publicaram no Journal of Retailing (2011) uma pesquisa sobre arrependimento antecipado nas decisões de atualizar produtos de tecnologia. A conclusão é contraintuitiva: dar ao consumidor justificativas baseadas em atributos (aquela tabela de especificações, aquele “ veja tudo o que mudou”) aumenta o arrependimento antecipado e faz a pessoa adiar a compra.
Faz sentido quando você para para pensar. A tabela lhe lembra de duas coisas ao mesmo tempo: do que você está ganhando agora e do que virá no ano que vem. O que os autores recomendam, no lugar disso, é vender o benefício hedônico de ter aquilo hoje.
Agora vá ver a página de um iPhone novo no site da Apple. A tabela existe, mas está lá embaixo, depois de um monte de vídeo de gente usando a câmera num show, filmando o filho na piscina, gravando com o pôr do sol atrás… não é distração. É exatamente o que a literatura acadêmica sugere fazer.
A espera é parte do produto
Tem outro estudo que explica por que agosto é tão gostoso. Amit Kumar, Matthew Killingsworth e Thomas Gilovich mostraram, na Psychological Science (2014), que esperar por uma experiência é mais prazeroso do que esperar por um bem material. A antecipação de uma viagem rende mais felicidade do que a antecipação de um sofá novo.
E é aqui que a Maçã fez a jogada mais inteligente de todas: ela transformou a compra de um objeto em uma experiência. Tem temporada de rumores, tem evento com data marcada, tem madrugada de pré-venda, tem entrega, tem unboxing. O produto é material, mas o processo é experiencial — e o processo começa meses antes.
Divulgação/Apple
Vale dizer que a Apple não precisa vazar nada para se beneficiar disso. O ecossistema de rumores funciona sozinho, movido por cadeia de suprimentos, analistas e gente como eu, escrevendo sobre o que ainda não existe. É a fase mais eficiente do marketing dela e não custa um centavo.
E os rumores deste ano trazem um detalhe que merece atenção: o tal iPhone dobrável, chamado até agora de “ iPhone Ultra” é apontado com preço na faixa de US$2.000 a US$2.500. Se ele existir mesmo, ele muda a régua.
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