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Inspiração em clássicos da Rockstar e a promessa de nostalgia
A Rockstar Games marcou época na era do PlayStation 2 com franquias memoráveis como Grand Theft Auto, Midnight Club e o aclamado Bully. Enquanto GTA se consolidou como uma das maiores propriedades do entretenimento mundial, o restante do catálogo acabou ficando restrito à memória e ao afeto do público. Essa forte carga nostálgica serve com frequência de combustível para estúdios independentes, como é o caso da Refugium Games, que lançou recentemente o título Agefield High: Rock the School.
A proposta do jogo tenta resgatar diretamente o espírito do clássico estrelado por Jimmy Hopkins, combinando dinâmicas escolares com a estética e o humor das comédias adolescentes do início dos anos 2000, na linha de filmes como American Pie. No entanto, tentar reproduzir a fórmula de um dos jogos mais icônicos da indústria se provou um desafio muito maior do que a desenvolvedora previa, entregando uma experiência repleta de limitações técnicas e conceituais.
Uma proposta ambiciosa para um estúdio independente
Em termos de enredo, Agefield High acompanha a jornada de Sam, um jovem que acaba de se mudar para uma pequena cidade no período que antecede sua formatura. Para se adaptar ao novo ambiente, ele faz amizade com os estudantes Kale e Axel. Juntos, o trio tenta colocar em prática o plano “Rock the School”, uma sequência de travessuras, conquistas amorosas e atos de rebeldia idealizados para transformar os últimos meses do ensino médio em algo inesquecível.
Para sustentar essa premissa, o jogo apresenta um escopo considerável para um projeto independente. O mapa é composto pelo campus da escola, dois bairros residenciais, uma área central e uma zona rural. A rotina do protagonista envolve frequentar aulas obrigatórias durante a semana (incluindo disciplinas de inglês, matemática, geografia, alemão e música), com a liberdade de cabular aulas para explorar a cidade, realizar missões secundárias, além de personalizar Sam com roupas, cortes de cabelo, tatuagens e acessórios.
No papel, a estrutura parece promissora: são 32 missões principais, 15 atividades secundárias, dois finais diferentes e uma duração estimada entre 8 e 10 horas. Contudo, essa ambição inicial contrasta fortemente com a execução prática do título.
Problemas na movimentação e um mundo aberto sem vida
Se as seções dentro da sala de aula funcionam de maneira razoável com mecânicas mais simples, a exploração do mundo aberto revela falhas graves. Por se tratar de um protagonista menor de idade, a locomoção fica restrita a caminhadas e ao uso de bicicletas. Ambas as opções sofrem com física imprecisa e controles pouco responsivos, fazendo com que o deslocamento até os objetivos se torne uma tarefa cansativa.
Apesar dos gráficos que buscam uma estética realista, o cenário é marcado pelo vazio. Existem grandes extensões de mapa sem pontos de interesse relevantes, segredos ou elementos que incentivem a exploração. A ausência de uma trilha sonora constante durante os trajetos acentua a sensação de que a cidade de Agefield é desprovida de vida e personalidade.
Combate travado e narrativa prejudicada
Os problemas se estendem ao sistema de combate, um elemento frequente ao longo da campanha. O tutorial já apresenta falhas de interface, fazendo o personagem pular acidentalmente ao tentar avançar o texto explicativo. Nas lutas, os golpes carecem de impacto, as animações são rígidas e a movimentação imprecisa dificulta o entendimento das interações na tela.
A narrativa, embora conte com legendas em português do Brasil, também não consegue empolgar. As piadas e as missões focadas em pegadinhas adolescentes carecem de ritmo e carisma. A falta de expressividade nos rostos e modelos dos personagens impede que o humor funcione adequadamente, tornando a experiência narrativa genérica e pouco envolvente.
Histórico da desenvolvedora e o desafio do polimento
A Refugium Games tem uma trajetória de projetos audaciosos. O estúdio estreou com o jogo de terror Greyhill Incident em 2023, título que também sofreu com críticas em relação à falta de testes e problemas técnicos. Após lançarem Vacant’s Mine, a equipe decidiu investir no projeto dos sonhos idealizado em 2020, culminando no lançamento de Agefield High.
Embora a evolução do estúdio seja visível na busca por projetos mais complexos, o novo título evidencia que boas intenções e homenagens nostálgicas não substituem a necessidade de refinamento técnico. Outros projetos independentes do mercado conseguiram prestar homenagens a eras clássicas dos videogames estabelecendo uma identidade própria e respeitando os limites de seu orçamento, algo que faltou a esta produção.
Custo-benefício desfavorável e considerações finais
Com um valor fixado em cerca de R$ 80 no PC via Steam, Agefield High se coloca em uma posição difícil perante o mercado. Como comparação, o próprio clássico Bully: Scholarship Edition pode ser adquirido por R$ 39,99 na mesma plataforma, oferecendo uma experiência incomparavelmente mais coesa e divertida mesmo décadas após seu lançamento original. Até mesmo outras produções independentes com propostas parecidas, como o brasileiro 171 comercializado na faixa de R$ 60, entregam sistemas de jogabilidade mais estruturados.
O fracasso pontual faz parte do ciclo de desenvolvimento de estúdios independentes, e fica a expectativa para que a desenvolvedora utilize as críticas recebidas como aprendizado para lançamentos futuros. No estágio atual, Agefield High atua principalmente como um lembrete de que replicar o sucesso de fórmulas consagradas exige um nível de polimento que vai muito além da simples nostalgia.
Avaliação do jogo
Nota final: 20/100
Pontos positivos:
- Proposta nostálgica que busca inspiração em Bully e nas comédias adolescentes dos anos 2000;
- Sistema de aulas e rotina escolar funcional;
- Presença de legendas em português do Brasil.
Pontos negativos:
- Movimentação problemática tanto a pé quanto de bicicleta;
- Sistema de combate travado, sem impacto e frustrante;
- Mundo aberto extenso, porém vazio e desinteressante;
- Pouca variedade e presença de ambientação sonora durante a exploração;
- Bugs técnicos e comportamentos inesperados desde o tutorial;
- Modelos de personagens sem expressão facial ou corporal;
- Falta de identidade própria, dependendo excessivamente de referências a outros jogos.
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