Uma repetição de 60 milhões de anos está escondida na história dos oceanos

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Uma repetição de 60 milhões de anos está escondida na história dos oceanos

📸 Créditos da imagem: © Magnific

A história da vida na Terra costuma ser vista como uma sequência de acontecimentos imprevisíveis e caóticos. Ao longo de centenas de milhões de anos, espécies surgem, desaparecem, continentes se fragmentam e os oceanos transformam sua dinâmica. No entanto, quando cientistas examinam esses eventos em uma escala geológica gigantesca, um padrão oculto começa a emergir do registro fóssil e da própria geologia planetária.

Durante décadas, paleontólogos notaram variações curiosas na biodiversidade marinha. Ao analisar a distribuição dos organismos ao longo das eras, diversos estudos já indicavam uma sutil periodicidade próxima de 60 milhões de anos. Uma nova pesquisa decidiu investigar se esse ritmo era uma mera coincidência estatística nos fósseis ou o reflexo de processos planetários muito mais profundos.

Uma oscilação registrada no tempo profundo

Para mapear esse fenômeno, pesquisadores analisaram séries temporais detalhadas sobre a diversidade, o surgimento de novos gêneros e os episódios de extinção de animais marinhos. Em seguida, cruzaram esses dados biológicos com reconstituições geológicas e químicas do período Fanerozoico, iniciado há cerca de 539 milhões de anos. A correspondência entre os dados foi especialmente marcante durante a Era Paleozoica, ocorrida entre 539 e 252 milhões de anos atrás.

Os cientistas destacam, contudo, que essa descoberta não funciona como um relógio pontual para prever a próxima grande crise biológica. Trata-se de uma tendência estatística observada em escalas de dezenas de milhões de anos. Além disso, as análises revelaram que as ondas de extinção tiveram um peso significativamente maior para moldar essa oscilação do que a taxa de surgimento de novas espécies.

A cadeia de eventos entre a geologia e os oceanos

Buscando entender o motivo de a biodiversidade marinha responder a esse ritmo, a equipe comparou os registros fósseis com dados da atividade tectônica global. Surpreendentemente, vários parâmetros do movimento das placas tectônicas apresentaram periodicidades muito semelhantes às da biodiversidade. Essa mesma assinatura química foi identificada em isótopos de estrôncio e enxofre preservados em rochas oceânicas antigas.

Essa coincidência aponta para uma complexa reação em cadeia que conecta as profundezas da Terra à superfície:

  • O movimento das placas tectônicas altera o vulcanismo e a formação de continentes;
  • Essas transformações modificam os níveis de dióxido de carbono na atmosfera e afetam o clima global;
  • As mudanças climáticas e tectônicas intensificam o desgaste químico e a erosão das rochas nos continentes;
  • A erosão transporta volumes gigantescos de nutrientes para os oceanos através dos rios.

Quando o excesso de vida consome o oxigênio

Embora a chegada de mais nutrientes aos oceanos pareça benéfica para a vida aquática, ela desencadeia um efeito colateral perigoso. O aumento da produtividade biológica gera um volume muito maior de matéria orgânica que, ao afundar, precisa ser decomposta por bactérias. Esse processo de decomposição consome imensas quantidades de oxigênio dissolvido na água.

Em determinados períodos da história da Terra, especialmente no Paleozoico, essa combinação de intensa erosão continental e alta produtividade biológica resultou na formação de vastas zonas oceânicas empobrecidas em oxigênio. Ambientes anóxicos aumentaram drasticamente a pressão sobre os animais marinhos, levando a colapsos populacionais e episódios recorrentes de extinção que ficaram gravados nas rochas.

O ritmo silencioso do planeta

O estudo, publicado no periódico científico Communications Earth & Environment, reforça que a Terra funciona como um sistema integrado. Não existe um mecanismo subterrâneo programado para exterminar espécies a cada intervalo fixo de tempo, mas sim uma rede de interações de longo prazo entre a geodinâmica interna e a biosfera.

A evolução biológica, portanto, não respondeu apenas a impactos astronômicos ou eventos isolados na superfície. Ao longo de centenas de milhões de anos, a vida marinha acompanhou o próprio pulso geológico do planeta, mostrando que a história dos seres vivos está intrinsecamente ligada às forças que movem as profundezas da Terra.

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