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O fechamento do Estreito de Ormuz pode criar uma ameaça ambiental que vai além da região. Um grupo internacional de biólogos marinhos alerta que navios imobilizados por longos períodos podem desencadear um evento de “superpropagação” de espécies marinhas invasoras quando o tráfego marítimo for retomado.
Cerca de 1.500 navios ficaram retidos no Golfo Pérsico desde fevereiro. Outras centenas de embarcações permanecem no Golfo de Omã. O problema é que um navio parado não permanece biologicamente vazio por muito tempo.
Colonização de navios
Cascos de navios podem virar verdadeiros recifes. Quando uma embarcação fica imóvel, bactérias e outros microrganismos começam a colonizar sua superfície. Eles formam uma fina camada conhecida como biofilme.
Depois aparecem organismos maiores. Esporos de algas e larvas de invertebrados, como cracas, mexilhões e vermes marinhos, encontram no casco uma superfície perfeita para crescer. Esse processo é chamado de bioincrustação, ou biofouling.
Riscos ambientais
A situação no Golfo Pérsico é especialmente favorável porque grande parte do fundo marinho da região é formada por areia, lama e sedimentos. Superfícies rígidas são relativamente escassas.
Por isso, enormes estruturas artificiais como os cascos dos navios podem se transformar rapidamente em locais de colonização. Em condições normais, os navios da região costumam permanecer nos portos por apenas alguns dias.
Pesquisadores apontam que períodos superiores a dez dias já podem favorecer um acúmulo significativo de organismos. Agora, muitas embarcações estão paradas há meses.
Consequências
Cientistas descrevem um cenário quase perfeito para invasões. A combinação de fatores é particularmente preocupante. Além do enorme número de embarcações, o período de imobilização coincidiu com o aumento sazonal da temperatura da água.
Águas mais quentes estimulam diversos organismos marinhos a crescer e se reproduzir. Um exemplo citado pelos pesquisadores é a Amphibalanus improvisus, uma espécie de craca altamente adaptável que já se espalhou por diferentes regiões do planeta através do transporte marítimo.
Em temperaturas próximas de 30 °C, cada adulto pode liberar dezenas de larvas diariamente. Considerando a quantidade de navios e o tempo de permanência, milhões de larvas podem ter sido liberadas na região.
Portos expostos
Os pesquisadores analisaram fatores como rotas marítimas, duração das viagens e condições ambientais para identificar destinos potencialmente vulneráveis.
- Jidá, na Arábia Saudita
- Mumbai, na Índia
- Colombo, no Sri Lanka
- Singapura
- Alexandria, no Egito
- Pireu, na Grécia
- Algeciras, na Espanha
- Roterdã, nos Países Baixos
Portos com águas quentes e salinidade semelhante às condições encontradas no Golfo podem apresentar riscos ainda maiores.
Além disso, os cientistas alertam que organismos invasores podem transportar parasitas e agentes patogênicos. As temperaturas elevadas do Golfo também poderiam favorecer organismos mais tolerantes ao calor.
Caso sejam transportados para outros ecossistemas, algumas dessas espécies poderiam ter vantagens à medida que os oceanos ficam mais quentes.
Desafios
Limpar milhares de navios será um desafio. Em um cenário ideal, as embarcações deveriam ter seus cascos limpos antes de deixar a região.
Na prática, isso seria extremamente difícil. São muitos navios de grande porte, e uma limpeza adequada precisa impedir que os organismos removidos simplesmente sejam liberados novamente na água.
Existem tecnologias robóticas capazes de limpar os cascos e recolher os resíduos. Porém, a infraestrutura disponível na região pode não ser suficiente para atender rapidamente uma frota tão grande.
Por isso, os pesquisadores consideram fundamental uma resposta internacional coordenada. Portos que receberem navios vindos do Golfo poderão precisar intensificar inspeções, monitoramento e procedimentos de limpeza.
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