Fertilidade também pode depender das bactérias presentes no sêmen, aponta estudo

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Fertilidade também pode depender das bactérias presentes no sêmen, aponta estudo

📸 Créditos da imagem: © Osarugue Igbinoba - Unsplash

Durante décadas, a investigação médica sobre o papel dos microrganismos na fertilidade humana manteve seu foco quase exclusivo no microbioma vaginal. No entanto, uma nova perspectiva científica está transformando a compreensão sobre o tema. Um estudo recente sugere que o sucesso reprodutivo de um casal depende também de comunidades bacterianas presentes no sêmen e no trato gastrointestinal feminino, revelando que a saúde do ecossistema microscópico masculino é tão determinante quanto a feminina.

A pesquisa foi conduzida por cientistas do Hospital Universitário de Copenhague e publicada no periódico especializado The Lancet Obstetrics, Gynaecology, & Women’s Health. O levantamento acompanhou 353 mulheres e 191 homens entre abril de 2018 e setembro de 2023, todos em acompanhamento para tratamentos de reprodução assistida ou com histórico de perdas gestacionais recorrentes.

O impacto do microbioma seminal na saúde reprodutiva

Os pesquisadores voltaram sua atenção para uma condição específica identificada no público masculino: a chamada “disbiose seminal do tipo vaginal”. Esse termo descreve um desequilíbrio populacional nas bactérias do sêmen, cuja composição assume características semelhantes a alterações bacterianas observadas em quadros de disbiose vaginal. A alteração foi detectada em cerca de 25% dos homens analisados na pesquisa.

Um dos pontos mais relevantes destacados pelo estudo é que a disbiose seminal não é detectada por exames rotineiros. O espermograma convencional, responsável por avaliar parâmetros como motilidade, concentração e morfologia dos espermatozoides, pode apresentar resultados perfeitamente normais mesmo quando há um desequilíbrio bacteriano significativo no fluido seminal.

Queda nas taxas de nascimento e risco de aborto

A análise dos desfechos clínicos entre os casais revelou disparidades expressivas nas taxas de sucesso gestacional, dependendo da presença ou ausência da disbiose no sêmen do parceiro:

  • Taxa de nascimento de 85%: registrada entre os casais em tratamento de fertilidade cujo parceiro masculino apresentava um microbioma seminal equilibrado.
  • Taxa de nascimento de 57%: registrada no grupo de casais em que o homem apresentava disbiose seminal do tipo vaginal.
  • Maior frequência de abortos espontâneos: o número de perdas gestacionais foi notadamente superior nos casos em que o microbioma do sêmen apresentava alterações bacterianas.

Apesar de a estatística indicar uma forte correlação, os autores ressaltam que o caráter observacional do estudo não permite afirmar diretamente uma relação de causa e efeito. No entanto, os números reforçam a existência de um fator oculto na fertilidade masculina que não vem sendo contemplado na medicina reprodutiva tradicional.

O papel da flora intestinal e as surpresas do microbioma vaginal

No braço feminino do estudo, o microbioma intestinal demonstrou papel relevante. As mulheres que apresentavam alterações na composição das bactérias do trato digestivo levaram um tempo consideravelmente maior para conseguir engravidar e registraram menores taxas de sucesso em procedimentos de reprodução assistida. Contudo, ao contrário da disbiose seminal, o desequilíbrio intestinal feminino não demonstrou relação direta com o aumento de abortos espontâneos.

Por outro lado, o dado mais surpreendente emergiu do microbioma vaginal. Tradicionalmente considerado o pilar dos estudos sobre flora bacteriana e fertilidade, o ecossistema vaginal não apresentou associação direta estatisticamente clara com casos de infertilidade ou aborto na amostra analisada. Os pesquisadores esclarecem que isso não invalida a importância da flora vaginal, mas indica que, dentro do grupo estudado, outros ecossistemas bacterianos exerceram impacto mais decisivo.

Rumo a uma abordagem integrada para o casal

A grande contribuição do trabalho é propor uma mudança de paradigma no diagnóstico reprodutivo, migrando da avaliação isolada da mulher para o estudo microbiológico do casal como uma unidade biológica conectada. Essa abordagem integrada pode ser a chave para esclarecer diagnósticos de infertilidade sem causa aparente ou explicar por que tratamentos idênticos geram resultados tão díspares entre pacientes com perfis clínicos semelhantes.

Apesar do entusiasmo com as descobertas, os especialistas orientam cautela. Ainda não há confirmação científica de que o uso de probióticos, antibióticos ou mudanças na dieta possa corrigir a disbiose seminal ou intestinal a ponto de garantir o aumento das chances de gravidez. Novos ensaios clínicos controlados serão necessários para testar intervenções terapêuticas específicas. Ainda assim, a pesquisa adiciona uma camada fundamental à medicina reprodutiva, demonstrando que o sucesso de uma gestação depende também dos bilhões de microrganismos que coexistem com as células reprodutivas.

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