📸 Créditos da imagem: Unsplash
A Ascensão das Imagens Históricas Geradas por IA: Desafios e Enganos
A inteligência artificial (IA) tem sido cada vez mais empregada na criação de imagens e vídeos que simulam eventos históricos, desde a Segunda Guerra Mundial até a catástrofe nuclear de Chernobyl. Essa tendência, segundo o pesquisador de mídia Roland Meyer, parece atender a uma necessidade de preencher lacunas em registros históricos para os quais não existem imagens.
Meyer adverte que, embora a IA possa recombinar imagens do passado para gerar conteúdo sintético que “poderia ter existido”, essa é uma “promessa enganosa”. Ele destaca o risco de que essas criações preencham supostas ou reais “lacunas” nos arquivos históricos com representações que, embora plausíveis à primeira vista, carecem de autenticidade.
Indícios de que a IA está envolvida
Enquanto muitos conteúdos gerados por IA ainda são identificáveis por marcas d’água, avisos em plataformas ou notas da comunidade, as ferramentas de IA estão em constante evolução. Os vídeos se tornam cada vez mais sofisticados, e as marcas d’água são frequentemente removidas, tornando a análise crítica das imagens ainda mais crucial.
Alguns vídeos são, obviamente, fáceis de identificar, especialmente aqueles que retratam eras anteriores à invenção das câmeras. Um exemplo notável é um vídeo no TikTok que mostra Pompeia antes, durante e depois da erupção do Vesúvio em 79 d. C., claramente identificado como conteúdo gerado por IA no YouTube. Este vídeo exibe características típicas da IA, como pessoas se movendo de forma robótica e a aparência da protagonista não correspondendo ao visual da Roma Antiga.
Momentos Icônicos Recriados
Outros vídeos, contudo, buscam falsificar momentos de épocas em que registros de vídeo já eram comuns. Um vídeo no X, que supostamente mostra imagens de câmeras de vigilância da catástrofe nuclear de Chernobyl em 1986, também foi gerado por IA. Embora não contivesse marca d’água, foi identificado como conteúdo de IA por notas da comunidade.
Um exemplo ainda mais complexo é um vídeo do YouTube produzido com a ferramenta de IA generativa Veo. Ele mostra a câmera se aproximando de um grupo de soldados segurando a bandeira dos Estados Unidos, focando em seus rostos enquanto olham para o horizonte. Este vídeo é baseado na icônica fotografia do hasteamento da bandeira dos EUA na ilha japonesa de Iwo Jima, tirada por Joe Rosenthal em 23 de fevereiro de 1945, um símbolo marcante da vitória militar americana na Segunda Guerra Mundial.
A fotografia autêntica de Iwo Jima está disponível nos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos. Embora a cena tenha sido registrada por um cinegrafista na época, a filmagem era estática e não apresentava o ângulo dinâmico mostrado pelo vídeo de IA. Apesar da falsificação, a conta do YouTube que publicou o vídeo gerado por IA promete “histórias patrióticas” e “conteúdo informativo e de entretenimento que dá vida à história dos Estados Unidos”, levantando sérias questões sobre a integridade histórica.
A IA está substituindo fontes reais?
O vídeo de Iwo Jima, embora baseado em um acontecimento histórico, adiciona detalhes e perspectivas não documentadas, apresentando-os em uma encenação de caráter patriótico. Por isso, é fundamental examinar cuidadosamente as imagens e, principalmente, quem as divulga. Perguntas como “De onde vem a imagem? ”, “Quem a apresenta? ”, “Para quem? ” e “Com qual finalidade? ” tornam-se essenciais.
Muitos vídeos “históricos” gerados por IA, que afirmam mostrar o passado, situam-se em uma zona intermediária entre fatos e entretenimento. Eles podem despertar interesse em eventos históricos, mas especialistas alertam que esses vídeos conferem ao passado uma clareza e uma certeza que raramente existiram. O historiador Jürgen Zimmerer aponta que “com cada interpretação de uma determinada cena são eliminadas outras possíveis interpretações e representações, que também existem”. É crucial que os espectadores reconheçam que estão diante de um vídeo “histórico” gerado por IA e o vejam com o necessário distanciamento crítico.
Clichês e Estereótipos
Enquanto imagens da Roma Antiga são obviamente fictícias, no caso de eventos como a Segunda Guerra Mundial, existe o risco de que uma grande quantidade de falsificações geradas por IA acabe substituindo documentos autênticos. Roland Meyer observa que isso ocorre “especialmente por essas imagens de IA serem adaptadas às nossas expectativas e aos nossos hábitos visuais”.
Os modelos de IA utilizam tanto fontes autênticas quanto imagens criadas em seus conjuntos de dados de treinamento, incluindo fotografias históricas, pinturas digitalizadas, cenas de filmes e imagens de videogames. Meyer explica que “as imagens do passado geradas pela IA reproduzem principalmente os padrões, clichês e estereótipos pelos quais esse passado costuma ser representado. São, acima de tudo, imagens das nossas expectativas: não uma janela para o passado, mas um espelho do nosso presente”.
Essas criações de IA também levantam questões sobre responsabilidade. Diferentemente das reconstituições em documentários, onde diretores e produtores tomam decisões conscientes sobre como representar o passado, as imagens dos vídeos de IA são geradas a partir de um vasto volume de dados, sem uma compreensão dos contextos históricos. “Ela produz algo que parece plausível, à primeira vista, não porque seja historicamente correto, mas porque corresponde às nossas expectativas”, conclui Meyer.
Um bom uso da IA
Embora o uso da IA para criar imagens “históricas” seja controverso, existem exemplos de aplicações positivas, especialmente quando desenvolvidas em colaboração com especialistas. Em Pompeia, por exemplo, arqueólogos utilizaram inteligência artificial para reconstruir a aparência de uma vítima da erupção vulcânica de 79 d. C.
Essa representação, baseada em descobertas arqueológicas, busca aproximar a pesquisa científica do público leigo, tornando-a mais compreensível e visual. No entanto, é crucial que seja entendida como uma reconstrução científica e não como uma representação autêntica da pessoa retratada, demonstrando que a IA pode ser uma ferramenta valiosa quando usada com rigor e transparência.
📰 Leia a notícia completa em: UOL »