📸 Créditos da imagem: Unsplash
O Imperativo de Reformar o Debate sobre a Formação de Psicanalistas no Brasil
O cenário atual da psicanálise no Brasil é marcado por um intenso debate sobre a legitimidade e a qualidade da formação de seus profissionais. Observa-se uma crescente preocupação com os confrontos entre diferentes linhas discursivas em espaços jurídicos e institucionais, levantando questões cruciais sobre como essas abordagens se justificam e se comportam diante da crítica.
A discussão central gira em torno da necessidade de reconstruir os argumentos de legitimidade da formação psicanalítica, verificando a origem, a qualidade e a procedência dos ensinantes e dirigentes. Compreender como as grandes teses da psicanálise são reinterpretadas em diversos contextos é fundamental para formular uma resposta robusta aos desafios vindouros, indo além da mera invocação da ética contra a mercantilização.
A Distinção Crucial: Formação versus Cursos
Um ponto frequentemente mal compreendido é o significado do termo “formação” (Bildung) na psicanálise. Ele se refere especificamente à habilitação para a prática clínica e não deve ser confundido com:
- Cursos
- Imersões
- Pós-graduações
- Treinamentos
- Especializações
É vital ressaltar que a pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) forma pesquisadores, não psicanalistas. Mesmo quando o objeto de estudo envolve procedimentos clínicos, estudos de caso ou autores da psicanálise, isso não confere a ninguém a capacidade de atender pacientes ou dirigir tratamentos, sejam eles psicanalíticos ou psicoterapêuticos. A pesquisa acadêmica atua de forma suplementar, e não complementar, na formação dos analistas, o que significa que não é necessário ter título de mestre ou doutor para clinicar, embora a maioria das escolas de psicanálise exija curso superior completo para ingresso.
Regulamentação e a Crise da Pseudoformação
É imperativo distinguir a regulamentação estatal da regulação social exercida pelas próprias escolas ou sociedades de psicanálise. Essas instituições possuem um papel legítimo na regulação da prática e da formação, mas isso levanta a questão: o que define uma escola ou sociedade de psicanálise? Como elas se diferenciam de associações que simplesmente comercializam cursos?
O problema da pseudoformação manifesta-se em diversas frentes, incluindo:
- Distribuição indiscriminada de carteirinhas de “psicanalista”.
- Obediência cega a um “tripé” (análise, supervisão e estudo) tratado como mero checklist, sem aprofundamento.
- Falta de leitura e rigor teórico.
- Cursos online massivos, com centenas de alunos e ausência de contato presencial.
- Mercantilização da clínica.
- Misturas indevidas com discursos religiosos e comerciais.
Essas práticas precisam ser confrontadas diretamente, especialmente por aqueles que buscam uma psicanálise decolonial e contextualizada à realidade brasileira, evitando a “pirotecnia digital” e a instrumentalização da “fé psicanalítica” para fins escusos, como assédio, interesses financeiros e disseminação de inverdades em congressos.
O Mercado da Saúde Mental e a Psicanálise Artesanal
A crescente demanda por saúde mental impulsionou um mercado que, por vezes, capitaliza sobre o sofrimento, como a “indústria do autismo” com diagnósticos rápidos e tratamentos intensivos. A busca por “superpoderes” em transtornos de atenção ou a idealização de níveis de psicopatia para certas profissões são exemplos da distorção que essa lógica pode gerar.
A medicina de “enhancement” (melhoria do potencial humano), que começou com cirurgias plásticas e evoluiu para o uso off-label de medicamentos para otimizar o desempenho cerebral, reflete essa tendência. Estimulantes para prolongar o trabalho, soníferos para o descanso, alucinógenos para o lazer, além de álcool e nicotina, ilustram a fronteira cada vez mais tênue entre compensação e doping social, exacerbada pelas redes sociais que produzem ódio, medo e amor programado.
Com a perda de eficácia de remédios clássicos e o fim de suas patentes, a indústria da saúde mental busca novos mercados, como a infância e o sofrimento leve. Nesse contexto, a psicanálise “artesanal”, com seus métodos lentos, formação longa e conceitos complexos, torna-se um obstáculo. Ela é, ao mesmo tempo, cobiçada por quem busca uma nova profissão e atacada por campanhas que visam descredibilizar sua ciência, ética e eficácia.
Críticas à Elite e a Necessidade de Inclusão com Rigor
A promessa das neurociências de mapear o cérebro, embora cumprida, não trouxe as “fórmulas mágicas” esperadas para mudar comportamento e bem-estar. Teóricos do cognitivismo migraram para a psicologia positiva ou psicoeducação, sem grandes inovações. Isso tem afunilado o debate na crítica às “elites” da psicanálise, acusadas de resistir à popularização da prática, mesmo diante da suposta crise anunciada pelo “Livro Negro da Psicanálise” nos anos 2000.
A fronteira entre formação e pseudoformação não é meramente jurídica, científica ou de marketing, criando uma anomalia no mercado da saúde mental. É crucial ouvir as pessoas sem homogeneizar, reconhecendo que ignorar aqueles que, com sonhos e dedicação, caem em ciladas de pseudoformação apenas reforça a exclusão social. Deve-se escutar sem infantilizar ou desqualificar saberes não hegemônicos, mas isso não implica que psicanalistas surjam por “geração espontânea”. A opressão deforma, e as deformações fazem parte do processo.
Reconhecer o saber de quem sofre a vulnerabilidade social pode enriquecer a psicanálise, mas a ideia de que a formação dispensa leitura, rigor e uma comunidade presencial apenas perpetua a exclusão que interessa a interesses locais. A psicanálise não é uma panaceia política nem revolucionária por si mesma, e os problemas das graduações apressadas e à distância, que iludem com diplomas fáceis, revelam uma face conservadora.
O Desafio da Crítica e a Construção de uma Resposta Ética
Repudia-se o abuso de lideranças inflamadas que impessoalizam a transmissão e o ensino de baixa qualidade, mas também a indiferença e a denúncia interesseira, que buscam legitimar-se através da acusação. Elevar o nível crítico envolve discernir quem denuncia preventivamente por medo de ser denunciado.
Criar uma resposta que inclua instituições e pessoas com o rigor de uma verdadeira formação é essencial. Construir um formato que gere emancipação e um compromisso de longo prazo, real e ético com a psicanálise, é um desafio, mas indispensável. Falar em democratização, decolonialidade ou diversidade racial e de classe na psicanálise exige uma compreensão crítica da “parasitagem universitária” e das pseudoformações.
Embora os mais conservadores critiquem a presença de psicanalistas na mídia e nas redes sociais, alegando que serve apenas ao entretenimento e ao empreendedorismo neoliberal da imagem, o Brasil possui uma longa tradição de analistas no debate público, de Gastão Silva a Virgínia Bicudo e Contardo Calligaris. Contudo, a novidade é que quem pede abertura e democratização, por vezes, condena participações “incompatíveis” segundo uma lógica de pensamento “decorativo”, onde a combinação de pessoas, palavras e ideias deve seguir um padrão de harmonia e conformidade.
As críticas à elitização frequentemente miram justamente aqueles que buscam ampliar o acesso à clínica pública. A suposição de que a sanção de uma prática, pessoa ou instituição se dá apenas pela metonímia “instagramável” revela uma adesão imaginária ao pensamento digital de massa, com seus usos deletérios e falsificadores. Entrar nas zonas de conflito e ter contato regrado com a diferença, em vez da indiferença e do fechamento, pode gerar discussões produtivas e forçar posicionamentos. O preocupante é quando a desconfiança surge da própria comunidade psicanalítica.
Embora a política de indiferença e silêncio diante das pseudoformações possa, eventualmente, levar tais iniciativas à autodestruição, parece justo e razoável experimentar outras estratégias, sem que o “terrorismo significante” prevaleça, buscando um caminho para uma psicanálise mais íntegra e acessível.
📰 Leia a notícia completa em: UOL »