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A discussão sobre a “uberização” da psicanálise e a proliferação de cursos de formação rápida tem ganhado destaque no cenário nacional, levantando sérias preocupações sobre a qualidade da prática clínica e a regulamentação da saúde mental no Brasil. O debate se intensifica em meio a um projeto de lei no Congresso que visa restringir a psicoterapia a psicólogos e psiquiatras, e à nova Norma Regulamentadora (NR-1) que exige das empresas a gestão de riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
Desde o governo Bolsonaro, a pauta da regulamentação de graduações em psicanálise tem sido um ponto de atrito. Atualmente, existem mais de 10 mil alunos matriculados em cursos “experimentais” que prometem habilitar para a prática clínica, apesar de a psicanálise não ser uma profissão regulamentada pelo Estado. Essa lacuna permite que escolas e associações de psicanálise, que tradicionalmente regulam a formação, corram para estabelecer critérios públicos que diferenciem profissionais bem formados de cursos duvidosos que se aproveitam da crescente demanda por serviços de saúde mental.
A pressão por uma regulamentação mais clara mobiliza discussões sobre a cientificidade e a eficácia de tratamentos, bem como recomendações específicas para condições clínicas como autismo, TDAH, neurodivergências e altas habilidades, temas que ainda geram intenso debate. Tudo isso ocorre em um contexto de apelo popular por regras contra o uso excessivo de telas, a disseminação de discursos de ódio e o avanço de um mercado predatório de testes diagnósticos rápidos e terapias virtuais.
Nesta análise aprofundada, um professor do Instituto de Psicologia da USP, analista membro da Escola dos Fóruns do Campo Lacaniano, comunicador digital e integrante de grupos de trabalho sobre Discurso de Ódio e Saúde Mental Digital junto aos ministérios dos Direitos Humanos e da Cidadania e da Saúde, compartilha sua perspectiva. Ele, que tem participado ativamente desses debates, propõe um mapa das principais linhas de força que cruzam esses problemas, a partir do ponto de vista da psicanálise.
Episódio 1: Uberização da psicanálise
Com mais de 20 anos dedicados à pesquisa sobre a presença e a extensão da psicanálise brasileira, o autor orientou teses e publicou artigos sobre a cultura de condomínios, o impacto das ideias de Freud no modernismo e a história da psicanálise no Brasil. Sua investigação busca compreender como a psicanálise é assimilada pela cultura brasileira, sua implantação no capitalismo e, mais recentemente, suas transformações diante da expansão digital.
Acreditando que a psicanálise deve ocupar o debate público, o professor divide seu tempo entre a academia e a promoção do debate em aulas públicas, rodas de conversa, projetos culturais e colaborações em jornais e revistas. Ele acompanha de perto a relação da psicanálise com a educação, as políticas públicas, o direito e a mídia, denunciando tentativas de reduzir a psicanálise a uma técnica psicoterapêutica ou pseudocientífica. Critica, ainda, abordagens mercantis, adaptativas ou religiosas, sejam elas tradicionais ou neoliberais.
Sua atuação constante em debates acadêmicos e ações junto a associações e grupos de estudo visa democratizar o ensino, diversificar o acesso e incluir pessoas interessadas na psicanálise, sempre insistindo em boas práticas de formação. Esse engajamento se manifesta em seu canal no YouTube, redes clínicas, projetos de escuta e intervenção, e coletivos de psicanálise, onde dialoga sobre experiências de sofrimento, psicoterapia e psicanálise.
Essa presença ativa o levou ao Fórum do Campo Lacaniano, junto à Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras, realizado em setembro de 2025, na Câmara dos Deputados. Na ocasião, o tema central foi a impertinência dos cursos de graduação em psicanálise, que estão em processo de regularização pelo Ministério da Educação (MEC).
Entre os argumentos favoráveis à criação dessas graduações, destacaram-se dois pontos:
- A criação de graduações reconhecidas poderia substituir cursos irregulares amplamente comercializados, especialmente em formatos digitais e de Ensino a Distância (EaD), que oferecem prática clínica, supervisão e análise pessoal sem controle institucional.
- Esses cursos poderiam democratizar e diversificar o acesso à formação, atendendo à demanda crescente por cuidados em saúde mental, diante da insuficiência das escolas tradicionais.
No entanto, o autor argumenta que esses pontos são falaciosos, pois confundem o estudo da psicanálise (legítimo e aberto a qualquer instituição acadêmica) com a habilitação, certificação ou reconhecimento estatal para a prática clínica. Há uma mistura, proposital ou inadvertida, entre a formação de pesquisador ou docente universitário, a formação como especialista ou terapeuta e a formação universitária genérica com a habilitação para a prática clínica psicanalítica.
O problema das pseudoformações
A criação de graduações em psicanálise, longe de resolver o problema das formações irregulares, tende a agravá-lo. Currículos padronizados, baseados em créditos acadêmicos, contrariam o fundamento da psicanálise. Nem mesmo o cumprimento formal do “tripé” – análise pessoal, supervisão clínica e estudo teórico – é suficiente para certificar psicanalistas. A garantia da qualidade provém da formação em si, e não apenas dos indivíduos formados. A democratização da psicanálise não deve ser confundida com acesso ao consumo, engajamento midiático ou proselitismo religioso.
O autor def
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