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A América do Sul atravessa mais uma fase de reacomodação política, um movimento que se mostra mais profundo do que aparenta à primeira vista. Os resultados das eleições na Colômbia e o cenário cada vez mais favorável à direita no Peru reforçam uma guinada conservadora que já vinha se desenhando em parte da região. Mais do que simples trocas de governo, esses movimentos estão redefinindo alianças, discursos de segurança, relações com os Estados Unidos e o equilíbrio entre esquerda e direita no continente.
A vitória da direita na Colômbia representa uma das viradas mais simbólicas da política recente sul-americana. A eleição de Abelardo de la Espriella marca o retorno do país a um campo conservador, após uma experiência inédita com Gustavo Petro à esquerda. O novo governo colombiano adota um forte discurso de segurança, defesa da ordem e uma clara aproximação com Washington.
Essa mudança não é apenas doméstica; ela reposiciona uma peça importante no xadrez regional, justamente em um momento de crescente polarização entre projetos de esquerda e de direita. A Colômbia sempre teve um peso especial nessa equação, sendo historicamente um dos aliados mais próximos dos Estados Unidos na América do Sul, especialmente em temas de segurança, combate ao narcotráfico e cooperação militar.
A chegada de De la Espriella é, portanto, vista por muitos analistas como um retorno a uma lógica de alinhamento mais direto com Washington, interrompendo o período de maior atrito diplomático vivido durante o governo anterior. O novo presidente colombiano também consolida uma tendência mais ampla, onde candidatos de direita ou da nova direita ganham espaço com uma agenda centrada em segurança pública, endurecimento contra o crime, nacionalismo econômico e crítica à esquerda tradicional.
Não se trata de um movimento homogêneo em toda a região, mas a Colômbia reforça a sensação de que o ciclo político sul-americano está mais uma vez em mutação. O perfil do vencedor, que construiu sua imagem como um outsider de linha dura, explorando a rejeição aos partidos tradicionais e se apresentando como alguém capaz de restaurar a autoridade, é um traço marcante da nova direita latino-americana, combinando antipolítica, personalismo e discurso de ordem.
O Peru pode reforçar a mesma onda e reduzir ainda mais o espaço da esquerda
Se a Colômbia já alterou o mapa, o Peru pode ampliar essa guinada. A tendência de vitória de Keiko Fujimori, ainda que em um cenário apertado, empurra o país para o mesmo campo político e reforça a leitura de que a direita voltou a ganhar fôlego na América do Sul. O peso desse movimento é grande porque o Peru, apesar de sua instabilidade crônica, continua sendo uma peça relevante no equilíbrio político andino.
Com Colômbia e Peru inclinados para a direita, o bloco conservador ou de nova direita ganha mais densidade regional. Nesse desenho, seguem nesse campo países como Argentina, Chile, Equador e Paraguai, além da própria Colômbia recém-convertida. O Peru, se confirmar a mudança, engrossa esse grupo e amplia o isolamento relativo de governos mais identificados com a esquerda. Do outro lado, permanecem sob gestões à esquerda ou centro-esquerda países como Brasil, Uruguai, Suriname e Guiana. A Venezuela segue como um caso à parte, atravessada por crise institucional, repressão, disputas internacionais e, agora, uma situação ainda mais complexa depois da captura de Nicolás Maduro e da crescente interferência externa em seus rumos.
O resultado é um continente novamente dividido, mas com uma diferença importante em relação a outros momentos da chamada “onda conservadora”: desta vez, a direita populista parece mais articulada, mais conectada ao discurso de segurança e mais alinhada à influência de Donald Trump. Essa polarização entre esquerda e direita não desapareceu, mas passou a ser atravessada por um novo tipo de liderança conservadora, menos institucional, mais agressiva na retórica e muito mais focada em temas como imigração, combate ao crime, endurecimento penal e guerra cultural.
O avanço da nova direita pode mudar alianças, agendas e a relação da região com os EUA
A principal consequência dessa reconfiguração não está apenas na cor ideológica dos governos, mas no tipo de agenda que tende a ganhar força. Em vários países, a direita tem avançado explorando o desgaste econômico, a insegurança urbana e a frustração com elites políticas tradicionais. Isso favorece candidatos que se vendem como figuras antiestablishment, mesmo quando têm forte conexão com setores empresariais, militares ou conservadores.
Na prática, esse avanço pode significar uma América do Sul mais inclinada a políticas de segurança duras, mais próxima da agenda internacional de Trump e menos propensa a iniciativas regionais de integração sob liderança progressista. A Colômbia é um exemplo claro: com De la Espriella, a expectativa é de um reposicionamento externo mais previsível para Washington e mais hostil a parte da agenda da esquerda latino-americana.
Isso não significa, porém, que a direita tenha conquistado um domínio absoluto ou estável. A política sul-americana continua altamente volátil, e o próprio histórico da região mostra que ondas ideológicas costumam ser cíclicas. Crises econômicas, desgaste rápido de governos e escândalos de corrupção frequentemente embaralham o jogo em poucos anos. Ainda assim, o momento atual sugere uma inclinação clara: a maré, ao menos por agora, parece favorecer o campo conservador.
No fim das contas, Colômbia e Peru podem funcionar como mais do que casos isolados. Juntos, ajudam a desenhar um novo mapa político da América do Sul, em que a direita volta a ocupar espaços estratégicos e a esquerda vê sua margem regional encolher. A pergunta agora não é apenas quem governa cada país, mas que tipo de continente está sendo montado a partir dessas vitórias.
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