O Monte Etna guarda um segredo que pode mudar a previsão de erupções vulcânicas

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O Monte Etna guarda um segredo que pode mudar a previsão de erupções vulcânicas

📸 Créditos da imagem: © Dedyliciouss - Shutterstock

O Monte Etna, um dos vulcões mais ativos e monitorados do mundo, localizado na Itália, tem sido um laboratório natural para pesquisadores que buscam desvendar os mistérios por trás de suas poderosas erupções. Observado há séculos, o gigante siciliano intriga cientistas há décadas com uma questão fundamental: por que um mesmo vulcão, alimentado por um magma de composição muito semelhante, pode gerar erupções tão dramaticamente diferentes?

A resposta para esse enigma secular pode estar em um elemento invisível, mas crucial, oculto nas profundezas da Terra, conforme revela um novo e inovador estudo. Essa descoberta promete revolucionar a forma como compreendemos e, futuramente, prevemos o comportamento dos vulcões.

Duas erupções separadas por milênios revelaram um padrão surpreendente

Para desvendar esse segredo, uma equipe de pesquisadores da Universidade Cornell, em colaboração com especialistas da Universidade Columbia e da Universidade do Havaí, mergulhou na história geológica do Etna. Eles analisaram detalhadamente duas grandes erupções do vulcão, separadas por quase 4 mil anos, que apresentaram comportamentos contrastantes.

A primeira, ocorrida em 122 a. C., é reconhecida como uma das mais violentas na história do Etna. Essa explosão cataclísmica lançou uma coluna de cinzas que atingiu impressionantes 26 quilômetros de altura, espalhando material vulcânico por uma vasta extensão da Sicília. Ao reconstruir o percurso do magma, os cientistas descobriram que ele ascendeu das profundezas, mas ficou retido por várias semanas em uma câmara relativamente próxima da superfície.

Durante esse período de retenção, uma parte significativa dos gases conseguiu escapar lentamente, o magma esfriou parcialmente e sua viscosidade aumentou consideravelmente. Essa combinação de fatores criou as condições ideais para uma explosão de intensidade extrema quando a pressão interna finalmente alcançou seu limite crítico.

Em contraste, uma erupção muito mais antiga, conhecida pelos pesquisadores como “Fall Stratified”, exibiu um comportamento completamente distinto. Nesse evento, o magma permaneceu armazenado em profundidades ainda maiores e ascendeu à superfície de forma muito mais rápida. Em vez de semanas de preparação, a erupção foi desencadeada em questão de poucas horas, com o magma subindo a velocidades impressionantes, sem passar pelo longo período de retenção observado no evento de 122 a. C.

A comparação minuciosa entre esses dois episódios revelou que a diferença fundamental não residia apenas na profundidade ou na quantidade de magma envolvida, mas em algo muito mais específico e sutil.

O ingrediente invisível que muda completamente o comportamento do vulcão

Segundo os pesquisadores, o fator determinante para a dinâmica das erupções do Etna é o tipo de gás predominante no magma. O estudo demonstrou que o Monte Etna é um dos raros vulcões do planeta onde dois gases cruciais competem diretamente para controlar o processo eruptivo: o dióxido de carbono (CO₂) e o vapor de água.

Quando o dióxido de carbono domina o sistema, o magma consegue ascender rapidamente a partir de grandes profundidades. O aumento da pressão ocorre de forma acelerada, e a erupção pode ser desencadeada em questão de horas, com pouco aviso prévio.

Por outro lado, quando o vapor de água assume o papel principal, o processo eruptivo tende a ser mais lento e gradual. O magma permanece armazenado por mais tempo em câmaras próximas à superfície, liberando gases de forma progressiva antes da explosão final. Essa dinâmica oferece um período de sinais prévios mais longo.

Essa descoberta representa um avanço potencialmente revolucionário para os sistemas de monitoramento vulcânico em todo o mundo. A capacidade de identificar qual gás está predominando no sistema magmático em um determinado momento pode ser a chave para prever se uma futura erupção terá semanas de sinais de alerta ou se poderá ocorrer com um tempo de aviso extremamente curto, salvando vidas e permitindo evacuações mais eficazes.

Como os cientistas conseguiram descobrir o que aconteceu há milhares de anos

Para reconstruir eventos geológicos tão antigos e obter informações precisas sobre as condições internas do vulcão em épocas remotas, os pesquisadores empregaram uma metodologia engenhosa. Eles analisaram cristais de olivina encontrados em depósitos vulcânicos, que funcionam como verdadeiras “cápsulas do tempo”.

Durante sua formação, esses cristais aprisionam minúsculas bolhas que contêm gases e fragmentos de magma, preservando assim informações valiosas sobre a pressão, temperatura e composição existentes no interior do vulcão no momento da cristalização. Utilizando a espectroscopia Raman, uma técnica de análise química de extrema precisão, a equipe conseguiu medir a densidade do dióxido de carbono presente nessas bolhas microscópicas.

A partir desses dados detalhados, foi possível calcular com exatidão a pressão e a profundidade em que o magma estava armazenado antes de cada uma das erupções estudadas, revelando as condições que levaram a comportamentos eruptivos tão distintos.

Os pesquisadores acreditam que essa metodologia inovadora poderá ser aplicada com sucesso em diversos outros vulcões ao redor do planeta. Atualmente, estudos semelhantes já estão em andamento em regiões vulcânicas de alto risco, como o Chile e o Havaí, com o objetivo de criar modelos cada vez mais precisos e confiáveis para antecipar o comportamento de futuras erupções.

O Monte Etna, com sua intensa atividade e uma longa e bem documentada história de observações e registros, provou ser o laboratório ideal para o desenvolvimento e teste dessas técnicas. O conhecimento adquirido aqui poderá, futuramente, ajudar populações de todo o mundo a conviver de forma mais segura com um dos fenômenos naturais mais imprevisíveis e poderosos da Terra.

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