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A comunicação digital contemporânea é um campo minado de nuances, onde a linha entre formato e linguagem se torna cada vez mais tênue. Uma anedota familiar ilustra bem essa complexidade: o autor relata uma conversa com sua filha, Nina, sobre a “maneira correta” de expressar risadas no ambiente online.
A discussão começou com a aversão de Nina ao “rsrs” e ao “hahahaha”, que ela rotulou como sarcástico. A risada “legítima”, segundo a jovem, é o “kkkkk”, com a ressalva de que cinco “K’s” são o ideal para denotar honestidade, enquanto menos seria desrespeito e mais, exagero. A intensidade da risada pode ser expressa em maiúsculas, se a situação for “bem engraçada”. A experiência culminou com a filha chamando o pai de “psicopata” por sua preferência por “hahahaha”, evidenciando um choque geracional na interpretação de códigos digitais.
Embora o autor tenha ressalvas sobre a rotulação de gerações e a influência do ano de nascimento em comportamentos, ele reconhece que Nina e seu grupo são “nativos” do ambiente digital, moldando um tipo de comunicação que, embora consumida por todos, nem sempre é dominada pelos “visitantes” de outras épocas. Essa observação é crucial para entender o descompasso atual no setor de mídia.
O Desafio das Empresas de Mídia: Atrair os Jovens
Nos últimos anos, a prioridade estratégica de muitos dirigentes de empresas de comunicação tem sido “criar conteúdo para atrair os mais jovens”. Produtores de informação veem nesse público um alvo essencial para a construção e validação de seus produtos. Historicamente, a produção de informação se baseava na tríade mensagem, meio e formato, somada à escolha dos canais de distribuição. Contudo, o principal motivo de descompasso entre emissores e receptores hoje reside em um elemento diferente: a linguagem.
Muitas organizações se esforçam para adaptar a mensagem a novos formatos, ignorando que o verdadeiro problema é o desconhecimento da linguagem a ser falada. Essa abordagem resulta em um anacronismo que compromete o diálogo pretendido. É compreensível que o formato seja o foco inicial, pois é o que se enxerga como distinção: perfis populares em redes sociais, vídeos curtos, fóruns de jogos e grupos de conversas parecem, para um olhar externo, um emaranhado de mensagens curtas e desconexas.
Essa premissa é reforçada pelo histórico das transformações midiáticas, que sempre foram centradas em mudanças de formato. A plataforma era o canal, e cada uma demandava um tipo específico de formato. Isso ocorreu com mídias tradicionais (rádio, TV, jornais, revistas) e, por anos, com as digitais (transição de sites para desktop para mobile, rolagem com mouse para telas sensíveis ao toque, sites próprios para distribuição em redes sociais). Acreditava-se que o ajuste seria sempre uma edição do conteúdo original.
A Linguagem Além do Formato: Novas Pesquisas e Comportamentos
Pesquisas recentes apoiam a ideia de que os jovens priorizam plataformas sociais, vídeos e “vozes autênticas” no consumo de informação. Relatórios como os do Reuters Institute sobre consumo de notícias por jovens e o Next Gen News da FT Strategies com o Knight Lab, além de reportagens sobre o consumo de notícias no TikTok, confirmam essa tendência. No entanto, focar apenas na perspectiva geracional é um erro.
A fragmentação da mensagem não criou apenas um novo formato, mas uma nova linguagem. Adaptar o formato já não é suficiente quando o conteúdo em si também mudou. Produzir vídeos verticais, clipes curtos, edições com imagens sobrepostas e escalar uma pessoa mais jovem “gritando” em frente à câmera soa como um “cosplay geracional” que, além de não ser legítimo, é anacrônico.
Aprender uma nova linguagem exige a construção nativa do discurso. Não se trata apenas de construir pontes com jovens consumidores, mas com todo o universo que consome informação a partir de plataformas sociais (e ri usando “kkkkk”). Independentemente do recorte demográfico, essa se tornou a linguagem nativa dos usuários dessas redes, não necessariamente na forma de se expressar, mas no tipo de conteúdo que consomem. Os jovens, por serem nativamente fluentes, apenas assimilaram e disseminaram isso intuitivamente.
Autenticidade Contra a Mimetização
Quando fenômenos de mídia como Casimiro, PodPah, Felipe Neto e Dylan Page surgem, muitas marcas correm para emular seus modelos, mas falham. O erro está em copiar o formato e não perceber que a virtude é a autenticidade. Não é possível falar uma língua que não se entende; um olhar de estranhamento para essa nova realidade não funcionará.
Outro equívoco é assumir que o público é exclusivamente jovem, ignorando a diversidade. No Brasil, 69% das pessoas com mais de 60 anos acessam a internet regularmente, e 72% dos idosos conectados são ativos em redes sociais, segundo dados do IBGE e uma pesquisa CNDL/SPC. Ao focar apenas nos jovens, as marcas negligenciam outros consumidores importantes.
O Desafio da Fluência e o Futuro do Conteúdo Longo
A assimilação de uma nova linguagem é um passo crucial para veículos de mídia que buscam legitimidade no ambiente digital. Ganhar fluência é difícil, pois exige reconhecer a necessidade de ajuda para dialogar, um conceito complexo para uma indústria acostumada a monólogos. Falar em “ter uma voz” é comum, mas talvez seja mais urgente “ter mais ouvidos” neste cenário.
A questão sobre o destino das longas reportagens, ensaios e livros que demandam mais espaço é pertinente. O autor desafia a tese de que uma coisa precisa excluir a outra. É papel do produtor de conteúdo educar o público sobre o valor de apurações complexas, e talvez seja no convite à leitura que a linguagem se torne ainda mais vital. O conteúdo em si não precisa ser diferente, mas a forma de atrair para ele, sim.
Adquirir fluência em uma nova língua é um processo longo e desafiador. O autor, em suas próprias tentativas de adaptação (gravando vídeos em selfie ou usando “kkkkk”), compara-se a uma “tia de 65 anos que veste as roupas da filha para ir ao shopping”. O objetivo é soar legítimo sem perder a identidade, ou, no mínimo, assimilar e assumir as diferenças para conseguir dialogar. Por enquanto, sua crença é que “ser fluente em Nina” será suficiente.
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