📸 Créditos da imagem: Unsplash
Durante quase cinco décadas, o desaparecimento repentino de sapos e rãs em uma região da Mata Atlântica brasileira intrigou cientistas. Agora, uma investigação internacional encontrou evidências de que um fungo microscópico pode ter provocado a mortalidade desses animais entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980. A descoberta também revelou algo surpreendente: algumas espécies parecem ter desenvolvido maior tolerância à doença e conseguido recuperar suas populações.
Um fungo pode explicar um mistério de quase 50 anos O desaparecimento ocorreu principalmente na Estação Biológica de Boraceia, localizada em Salesópolis, no estado de São Paulo. Entre 1979 e 1982, pesquisadores observaram uma redução acentuada nas populações de diferentes espécies de anfíbios. Durante décadas, mudanças climáticas e condições meteorológicas extremas estiveram entre as possíveis explicações.
Entretanto, um estudo publicado na revista científica Molecular Ecology encontrou evidências de outro responsável: o fungo Batrachochytrium dendrobatidis. Esse microrganismo provoca a quitridiomicose, uma doença infecciosa que afeta a pele dos anfíbios e pode comprometer funções essenciais para sua sobrevivência. A pesquisa foi conduzida por cientistas do Instituto Smithsonian, da Universidade Estadual da Pensilvânia e de instituições brasileiras.
Segundo os pesquisadores, o fungo provavelmente se espalhou pela região justamente quando as populações começaram a diminuir drasticamente. Sapos preservados em museus revelaram a resposta Para investigar o que aconteceu, os cientistas recorreram a uma fonte inesperada: animais preservados em coleções científicas. A equipe analisou mais de 370 exemplares de anfíbios pertencentes a 17 espécies, coletados durante expedições realizadas nas décadas de 1970 e 1980.
Os resultados mostraram uma diferença impressionante. Nenhum dos animais coletados antes de 1979 apresentou sinais detectáveis do fungo. Entretanto, mais da metade dos exemplares recolhidos durante os anos 1980 apresentou resultado positivo para a infecção.
Essa mudança indica que o patógeno se disseminou rapidamente entre os anfíbios da região, coincidindo com o período de maior mortalidade. A descoberta também demonstrou a importância das coleções de história natural. Animais preservados décadas atrás permitiram identificar uma doença que os pesquisadores da época ainda desconheciam.
Por que algumas espécies desapareceram e outras sobreviveram? Um dos resultados mais intrigantes foi a diferença entre as espécies afetadas. Os animais que sofreram as maiores reduções populacionais não apresentaram infecções detectáveis nas amostras preservadas.
Por outro lado, espécies que permaneceram relativamente estáveis frequentemente carregavam o fungo. Os pesquisadores acreditam que essa aparente contradição pode estar relacionada à tolerância natural à doença. Algumas espécies possivelmente conseguiam sobreviver mesmo infectadas, enquanto outras eram tão vulneráveis que morriam antes de serem coletadas.
Essa hipótese ajuda a explicar por que o mesmo patógeno pode provocar consequências tão diferentes em animais que compartilham o mesmo ambiente. Cientistas encontraram sinais de recuperação na Mata Atlântica A investigação também trouxe notícias positivas para a conservação da biodiversidade brasileira. Entre 2022 e 2024, pesquisadores realizaram seis expedições à Estação Biológica de Boraceia para verificar a situação atual dos anfíbios.
Das 17 espécies representadas nas coleções históricas, 12 foram encontradas novamente. As outras cinco não foram localizadas, e sua situação permanece incerta. Embora o fungo continue presente, os resultados sugerem que diversas populações conseguiram se recuperar, possivelmente graças ao desenvolvimento de maior tolerância à infecção.
Os cientistas agora investigam o DNA dos exemplares antigos para compreender os mecanismos genéticos associados à sobrevivência. A descoberta pode ajudar a desenvolver estratégias de conservação contra doenças emergentes que ameaçam anfíbios em diferentes partes do mundo. Entretanto, os autores ressaltam que os resultados se referem especificamente à região de Boraceia e não explicam automaticamente o desaparecimento de anfíbios em toda a Mata Atlântica.
O estudo demonstra que investigar o passado pode ser fundamental para proteger espécies ameaçadas no futuro.
📰 Leia a notícia completa em: Gizmodo »