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Órgãos doados chegam aos hospitais com um relógio correndo contra eles. Corações e pulmões normalmente precisam ser transplantados em poucas horas, enquanto rins podem permanecer viáveis por até cerca de 36 horas nas condições convencionais de preservação. Uma equipe da Universidade de Minnesota apresentou um avanço que pode mudar essa lógica: armazenar rins de porcos durante meses, recuperar suas funções e transplantá-los em outros animais.
Um ano de preservação em temperaturas extremas O trabalho, liderado conjuntamente pelo cirurgião de transplantes Erik Finger, incluiu um rim armazenado por mais de um ano. Depois do reaquecimento, os órgãos recuperaram a coloração e ajudaram os animais receptores a produzir urina. Esses resultados indicam o restabelecimento da circulação sanguínea e de funções renais.
Ainda assim, representam uma etapa experimental em animais, sem demonstrar que o procedimento já possa ser aplicado com segurança em pessoas. A pesquisa foi disponibilizada como prepublicação no bioRxiv e aguarda revisão por outros especialistas. Em entrevista à MIT Technology Review, Finger contou que, dez anos atrás, não tinha grandes expectativas de que a abordagem funcionasse.
Após o último transplante, porém, saiu da sala convencido da importância do resultado. A técnica evita transformar o órgão em gelo Embora a descrição mais simples seja “congelamento”, os pesquisadores utilizam um processo chamado vitrificação. Ele envolve introduzir substâncias crioprotetoras no tecido e reduzir sua temperatura até formar um estado semelhante ao vidro.
A diferença importa porque a formação de cristais de gelo pode danificar estruturas celulares. A vitrificação procura preservar o órgão sem esse tipo de cristalização. No experimento, os rins chegaram a aproximadamente −150 °C.
Segundo Finger, temperaturas abaixo de cerca de −120 °C permitem manter esse estado estável por períodos prolongados. A possibilidade de preservação indefinida, entretanto, permanece uma expectativa, não uma conclusão demonstrada pelo estudo. A vitrificação já tem aplicações na medicina reprodutiva.
Adaptá-la a um órgão inteiro acrescenta dificuldades relacionadas ao volume e à distribuição das substâncias protetoras. Nanopartículas ajudam a controlar o reaquecimento Preservar o tecido é apenas metade do problema. O retorno à temperatura de funcionamento também precisa ocorrer de maneira controlada.
Para enfrentar esse desafio, Finger trabalhou com pesquisadores da engenharia mecânica, incluindo John Bischof. A equipe desenvolveu uma solução com nanopartículas de óxido de ferro, adicionada à mistura crioprotetora. Quando ativadas, essas partículas ajudam a aquecer o tecido de forma mais uniforme.
O objetivo é reduzir os danos que podem surgir quando diferentes regiões do órgão se aquecem em velocidades distintas. O avanço atual faz parte de uma sequência de experimentos. Em 2023, os pesquisadores publicaram resultados de transplantes com rins de ratos criopreservados.
Em 2025, anunciaram um transplante de rim suíno após um período de armazenamento de dez dias. O que falta para chegar aos órgãos humanos O objetivo de longo prazo é reproduzir o procedimento em órgãos humanos. Se isso se tornar possível, hospitais poderiam ganhar tempo para organizar cirurgias, transportar órgãos e encontrar receptores compatíveis.
A iniciativa recebe apoio da Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos por meio do centro ATP-Bio, sediado na Universidade de Minnesota. A instituição já havia detalhado o avanço anterior com um rim suíno criopreservado. Os próprios autores ressaltam que aumentar a escala exige resolver problemas interligados.
Entre eles estão o resfriamento, a estabilidade dos crioprotetores, sua distribuição pelo tecido e a toxicidade dessas substâncias. Recuperar funções após meses de armazenamento mostra uma possibilidade importante. Transformá-la em uma alternativa clínica dependerá de demonstrar que o processo preserva os órgãos de maneira consistente e segura, além dos sinais iniciais observados nos animais.
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