📸 Créditos da imagem: Instituto de Informática UFG/CEIA Foto: CEIA
Ele tirou o próprio notebook da mochila e entregou para a aluna. Ela tinha acabado de passar no primeiro bacharelado em Inteligência Artificial do Brasil, na Universidade Federal de Goiás. Um curso que, no Sisu, já passou Medicina em nota de corte. Só não tinha computador. Quem abriu a mochila foi o então coordenador, o professor Anderson Soares.
Sem edital, sem comitê, sem foto. Não há registro público da cena. Conto porque conheço os envolvidos e porque ela explica o CEIA, o Centro de Excelência em Inteligência Artificial da UFG, melhor que qualquer número. Antes de seguir, uma declaração: a HugLabs nasceu dentro do CEIA e tem contrato de pesquisa com ele, e eu assinei preprints com dois de seus diretores.
Não escrevo de fora. Hoje, às 19h, falo sobre o centro num webinar da AI Brasil. Esta coluna é o que eu gostaria que todo mundo soubesse antes. O sinal que morre no caminhoUma rede neural aprende pelo erro: um sinal de correção volta da saída até a primeira camada, ajustando cada uma no caminho.
Só que, a cada camada, esse sinal encolhe. Em redes muito profundas, ele chega ao começo praticamente zerado, e as primeiras camadas param de aprender. Em 2015, Kaiming He e colegas da Microsoft resolveram isso com um truque quase ofensivo de tão simples: um atalho. A entrada pula o bloco e é somada à saída dele.
Se o bloco não aprender nada, o sinal passa intacto. Com isso, treinaram uma rede de 152 camadas, e o artigo virou, segundo a Nature, o mais citado do século XXI. O detalhe que importa: o atalho não aprende nada. Só garante que o sinal chegue vivo aonde o aprendizado acontece. Agora troque o sinal por uma criança boa de matemática numa escola pública do interior.
As camadas são a renda da família, o cursinho, o vestibular, o computador, a bolsa, a oferta em dólar no fim do curso. Cada uma encolhe o sinal. Segundo o Banco Mundial, o Brasil perde de dois a três profissionais digitais qualificados para cada um que chega. O CEIA é uma conexão residual.
E os três que o dirigem sabem disso por experiência própria. Três sinais que chegaram vivosAnderson Soares cresceu em Catalão, no interior de Goiás, numa escola estadual de paredes de lajota. Adolescente, já dava aula de piano e queria fazer Música. Aí um tio morreu, a família se mudou para Goiânia, e ele chegou sem dinheiro para cursinho e com o vestibular da UFG já encerrado.
Era a camada que zera o sinal. O atalho foi uma bolsa do governo estadual para cursar Engenharia de Computação na PUC Goiás, curso que escolheu por influência do pai, que veio da roça e estudou até a quarta série. Depois vieram mestrado na USP, já com redes neurais, e doutorado no ITA, aos 26 anos. Em 2015, criou na UFG o laboratório que, em 2019, virou o CEIA, cujo conselho hoje preside.
Ontem, o Estadão o listou entre os ex-alunos notáveis do ITA como fundador do centro, “o principal dessa área no País”. Arlindo Galvão começou aprendendo a consertar computador, num curso técnico do Senai. Na faculdade conheceu Anderson. Dividiram quarto e, anos depois, foram juntos para o ITA.
O doutorado de Arlindo, mais tarde, foi orientado por Telma. Chamar o CEIA de rede não é metáfora. Hoje ele é diretor do CEIA. Na quarta-feira passada, o ex-aluno do curso técnico levou o modelo de formação do centro a um workshop ligado à ONU e resumiu o propósito numa frase: garantir que a IA “sirva a muitos, e não apenas a poucos”. Telma Soares conheceu o computador quando o pai comprou o primeiro da casa, no fim dos anos 1990.
Virou doutora em computação pela USP, cofundou o CEIA e é a diretora-executiva. Sobre o começo, disse ao jornal O Popular: “No começo do Ceia, mulher era só eu. ”Em junho, no Conecta CEIA, eu estava na plateia quando ela ergueu no palco uma placa de vídeo para games, uma GTX 780 Ti de 2013. No telão, a frase “Antes de ser escala, foi aposta”, e a lembrança de que o futuro do CEIA já tinha cabido numa GPU.
Na frente dela, centenas de pesquisadores. No rosto, a cara de quem ainda não acredita no tamanho do que ajudou a montar. Na mesma entrevista, ela contou o que a move: alunos “que provavelmente não terminariam a faculdade, mas conseguem pela possibilidade de participar de um projeto, receber uma bolsa, se manter”. É a definição de conexão residual, sem o jargão. Em altaTecMundoApple corrige problemas do iPhone 18 Pro com lançamento do iOS 27.0.1Anthropic lança Claude Sonnet 5.5, apesar de seu CEO pedir para desacelerar IAsIA criou a tempestade perfeita para o crime no Brasil, diz VP da CrowdStrikeO que o CEIA não éPara não virar folheto: os números do CEIA são autodeclarados e mudam conforme a fonte. Os “mais de 152 milhões de brasileiros” que usariam suas soluções somam os usuários de clientes como Globo e iFood, sem metodologia publicada.
Uma contagem externa, feita pelo CGEE para o MCTI com dados da Embrapii, registra 101 projetos de IA com 140 empresas entre 2022 e 2025. O centro também não treina um modelo gigante próprio e depende de chips da Nvidia. Nada disso diminui o que ele tem de raro: construiu o atalho antes da moda. Em dezembro de 2019, quase três anos antes do ChatGPT, a Fapeg, a fundação de pesquisa de Goiás, comprometeu-se a destinar R$ 7 milhões só em bolsas. O que eu realmente achoO Plano Brasileiro de IA prevê R$ 30,4 milhões dos R$ 1 bilhão.
Estamos comprando camadas e esquecendo o atalho. Três coisas mudariam isso, e nenhuma custa um supercomputador. Formação primeiro. Bolsa e equipamento para aluno de baixa renda em curso de computação e IA, pagos no primeiro semestre. Nenhum aprovado deveria depender de um professor abrir a mochila. Uma aposta por estado.
Toda fundação estadual de pesquisa deveria ter o seu dezembro de 2019: dinheiro para um grupo que já existe, antes da moda, com a maior parte em gente. Medir o sinal, não o alcance. Em vez de “brasileiros impactados”, publicar onde estão os formados cinco anos depois: no Brasil ou fora dele. A conexão residual não aprende no lugar da rede. Ela só impede que o sinal morra no caminho.
Um professor fez isso com um notebook. Três fizeram com um centro de pesquisa. Um país não pode continuar dependendo de alguém abrir a mochila. Até a próxima coluna.
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