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Os glaciares dos Alpes, testemunhas silenciosas de milênios, sempre estiveram sujeitos a ciclos naturais de avanço e recuo. Contudo, os últimos anos revelam uma aceleração alarmante nessas transformações. Em 2026, uma combinação de inverno com pouca neve e temperaturas excepcionalmente elevadas no início do verão precipitou um momento crítico para essas vastas reservas de gelo, gerando profunda preocupação entre os pesquisadores, que já comparam a situação a um dos piores períodos já registrados na região.
A proteção natural que os glaciares dependem para sua sobrevivência desapareceu muito antes do esperado. A neve acumulada durante o inverno atua como um escudo vital: sua superfície branca reflete grande parte da radiação solar, mitigando o aquecimento do gelo milenar. Enquanto essa camada protetora permanece intacta, o derretimento ocorre de forma mais gradual. No entanto, neste ano, essa cobertura desapareceu prematuramente em diversas áreas dos Alpes, especialmente na Suíça e na Áustria. Consequentemente, o gelo permanente ficou diretamente exposto ao sol já no início do verão, acelerando drasticamente o ritmo de degelo.
A proteção natural desapareceu antes do esperado
Na Suíça, pesquisadores da Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH Zurich) constataram que toda a neve acumulada durante o inverno havia desaparecido em 29 de junho. Essa data marca o que é conhecido como “Dia da Perda dos Glaciares”, o ponto em que toda a água derretida representa uma perda definitiva da massa de gelo. Este registro é o segundo mais precoce da história, superado apenas por 2022, quando o marco ocorreu em 26 de junho. Naquele ano, o país sofreu a maior perda de gelo desde o início das medições, com aproximadamente 6% do volume glaciar desaparecendo em uma única temporada.
Embora os cientistas ainda aguardem o fim do verão para calcular o balanço completo de 2026, eles admitem que a evolução atual segue uma trajetória muito semelhante à observada naquele ano histórico. O processo de retração, no entanto, não é recente. Entre 2003 e 2022, a Suíça perdeu cerca de 200 quilômetros quadrados de gelo. Além disso, mais de mil pequenos glaciares desapareceram completamente entre 1973 e 2016. Embora o país ainda possua aproximadamente 1.400 glaciares, estima-se que o volume total de gelo tenha diminuído quase 40% desde o ano 2000.
O impacto já vai muito além da paisagem alpina
Na Áustria, o cenário é igualmente preocupante. Medições realizadas no maciço de Dachstein revelaram que a espessura da neve em maio era de aproximadamente 3,7 metros, quase dois metros abaixo da média histórica. Em anos considerados normais, os mesmos pontos costumam registrar mais de sete metros de neve acumulada. As mudanças são tão significativas que já são visíveis até mesmo para os visitantes da região. Em 2025, dois glaciares que permaneceram conectados por cerca de 3.500 anos finalmente se separaram devido ao intenso recuo do gelo.
O glaciar Hallstätter, por exemplo, perdeu aproximadamente um terço de sua massa desde o início do monitoramento moderno, forçando as autoridades a alterar trilhas e restringir áreas que antes eram cobertas por gelo permanente. Os pesquisadores também registraram dias em que a superfície glaciar perdeu mais de dez centímetros de espessura em apenas 24 horas. A ausência de novas nevascas durante o verão agrava ainda mais a situação, pois até mesmo uma fina camada de neve poderia reduzir temporariamente a absorção de calor.
As consequências desse degelo acelerado estendem-se muito além da alteração da paisagem. À medida que o gelo desaparece, as montanhas tornam-se menos estáveis. O degelo do solo permanentemente congelado, conhecido como permafrost, reduz a sustentação natural das encostas, elevando o risco de deslizamentos, quedas de rochas e danos em estradas, trilhas e estruturas turísticas. Outra preocupação crítica envolve o abastecimento de água. Durante os meses mais secos, os glaciares liberam lentamente parte da água armazenada, alimentando rios, usinas hidrelétricas, sistemas de irrigação e diversos ecossistemas. Com a redução contínua dessas reservas, essa função reguladora vital também começa a diminuir.
Algumas estações de esqui utilizam grandes mantas geotêxteis brancas para proteger pequenas áreas do gelo. Essas coberturas conseguem reduzir localmente entre 50% e 70% do derretimento, mas seu alto custo impede qualquer aplicação em larga escala. Por isso, especialistas afirmam que essas soluções servem apenas para preservar pontos específicos por algum tempo. A única estratégia capaz de reduzir a perda contínua dos glaciares dos Alpes, e mitigar os impactos globais, continua sendo a diminuição das emissões de gases de efeito estufa, os principais responsáveis pelo aumento das temperaturas que aceleram o desaparecimento de uma das maiores reservas naturais de gelo da Europa.
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