Mitos e verdade sobre a psicanálise: é uma pseudociência?

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Mitos e verdade sobre a psicanálise: é uma pseudociência?

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Mitos e verdade sobre a psicanálise: é uma pseudociência? Mitos e verdades sobre a psicanálise1. Para o psicanalista, tudo é culpa dos pais? Mito total. Não procuramos culpados, mas sim a responsabilidade, que é sempre do próprio sujeito, na medida em que seu desejo está envolvido.

Nosso desejo é construído ao longo da vida, com bons e maus encontros, interpretações, lembranças, edições e censuras. Os pais são o começo dessa história. Eles representam tudo o que já existia antes de nós: a cultura, a sociedade, a língua e as histórias da família.

Quando a psicanálise reconstrói a relação com os pais e antepassados, o objetivo não é se livrar do que não nos pertence, mas recuperar uma parte importante de quem esquecemos que fomos. Sem isso, o passado mal resolvido vira um problema no futuro. Quando as coisas não dão certo, a tendência é reclamar com a “gerência”.

A psicanálise serve para nos curar disso, não para nos prender a esse papel.2. Em psicanálise, tudo tem de ter sempre uma interpretação sexualVerdade parcial. Toda interpretação é sexual sim, mas desde que se esclareça o que quer dizer “sexual” e o que vem a ser uma “interpretação” em psicanálise.

Pensemos nesta satisfação que a criança tem quando resolve um problema na escola, neste prazer que experimentamos quando reencontramos alguém querido, quando descobrimos pela primeira vez uma nova sensação em nosso corpo, quando sentimos o olhar ou a admiração do outro. Pense que tudo o que nos faz “sentido” vem junto com uma pitada que seja de prazer. Aí está o sexual.

O problema não é que a psicanálise introduza o sexual por toda parte, mas que ele já esteja aí, na forma deste “sentido” que faz a vida valer a pena ou tornar-se insuportável. A interpretação sexual já é dada pelo neurótico. O que a interpretação psicanalítica faz é aliviar este excesso de sentido sexual.

Não precisamos de todo o sentido do mundo para viver. Na verdade um tanto de falta de sentido (portanto de falta de interpretação sexual) faz bem.3. A psicanálise é uma teoria velha e desatualizadaMito duplo.

Teorias velhas não são necessariamente desatualizadas. A geometria de Euclides, a Física de Newton, a teoria darwiniana da evolução, são todas mais velhas que a psicanálise nem por isso estão desatualizadas. Sofreram adendos, relativizações e modificações, exatamente como aconteceu com a psicanálise.

Mas ao contrário das teorias anteriormente mencionadas a psicanálise não é só uma teoria, ela é principalmente um método para tratar sintomas, certas formas de sofrimento e de mal-estar. Neste sentido ela é mais velha do que Freud, pois sempre se usou a palavra com este fim terapêutico. Compará-la com as intervenções bioquímicas é como comparar uma mudança no software com uma transformação no hardware de seu computador.

Neste sentido ela não seria nem atualizada nem desatualizada, mas simplesmente outra coisa.4. O psicanalista entra na sessão mudo e sai caladoVerdadeiro quando necessário. As principais mudanças não acontecem quando nós escutamos o outro, mas quando nós nos tornamos capazes de nos escutar (o que facilita bem para escutar o outro, depois disso).

Fazemos como Sancho Pança com Dom Quixote, dizemos a todo momento: mas escute bem o que o senhor está dizendo. Se você imagina que em menos de uma hora de sessão psicanalítica, toda a massa de experiências, desencontros, incoerências e complicações que compõe qualquer vida, vai ser alterada pela palavra mágica do outro, procure um xamã. A única chance que temos é fazer o sujeito trabalhar “fora” da sessão, e que esta seja um impulso, um grão de areia capaz de fazer a estrutura ranger, estimulando seu posterior trabalho elaborativo.

Acho também que a imagem é falsa, hoje em dia os analistas falam muito mais nas sessões do que antigamente.5. O paciente tem de contar seus sonhos para o analistaVerdadeiro, mas não obrigatório. Quando se começa uma análise um dos fenômenos mais misteriosos é que pessoas que nunca se lembram de seus sonhos, começam a trazê-los para a sessão.

Obviamente isso quer dizer que há alguém que está esperando por eles, e isso muda tudo. O sonho é de fato uma peça muito útil do tratamento, não porque ele contenha algum conteúdo que não seria acessível de outra forma, mas porque ele coloca o sujeito na “atitude” que convém ao tratamento, ou seja, examinar fatos que pertencem a ele, que são de sua lavra e produção, sem que ao mesmo tempo seu sentido seja imediato e transparente. Costumo “encomendar” sonhos, em momentos específicos do tratamento.

Quase sempre dá certo. Como Berzelius que descobriu a solução para o problema da estrutura química do benzeno através de um sonho.6. O tratamento psicanalítico é longoMito/Verdadeiro.

Os objetivos do tratamento são recolocados muitas vezes ao longo de seu desenvolvimento. Há muitos pontos de parada, assim como há vários reinícios, estabelecidos ou não em contrato. Há análises curtas, baseadas em sintomas ou situações de vida pontuais e críticas.

Há análises longas como uma viagem que se vai levando mais longe na medida do interesse. Em trajetos mais longos a remoção de problemas vai cedendo espaço para a aventura da descoberta. Sempre é central resolver a separação com o analista, modelo de outras separações possíveis.

Há também análises intermináveis, que se tornam parte de uma existência cronicamente inviável. Esta variação entre meios e fins pode ser usada para esconder imperícia, alienação e dependência, o que qualquer tratamento deveria evitar. Por outro lado, tudo o que realmente vale a pena na vida demora, custa ou é proibido.7.

A psicanálise não curaMito cientificamente comprovado como falso. A definição de cura pode mudar ao longo do tratamento, no entanto se a pergunta é focada na eficácia comparativa com outras abordagens psicoterapêuticas ou com tratamentos medicamentosos, há recentes pesquisas que comprovam a eficiência da psicanálise. Ainda assim é preciso ressaltar a terrível redução metodológica que se deve fazer para chegar a este tipo de resultado: formas diferentes de psicanálise, tipos de paciente, experiências formativas e profissionais distintas entre analistas, modalidades diversas e irreprodutíveis de sintoma, extensão e regularidade do tratamento, momentos diferenciais de vida, dimensão proporcionalmente incomparável do sofrimento impingido pelos sintomas e finalmente o chamado “caráter único do encontro” que se dá entre os envolvidos, muitas vezes comparado ao encontro amoroso.

Uma prova científica e cabal de que a psicanálise cura pode ser encontrada na seguinte meta-análise (um tipo de estudo que equaliza e reúne centenas de outras pesquisas, potencializando seus resultados convergentes).8. As críticas de Foucault, Deleuze e as neurociências acabaram com a psicanálise na saúde mentalMito Reverso. Já defendi que tais críticas são mal recebidas pelos psicanalistas porque baseiam-se no que o mestre do pós-estruturalismo francês chamou de discurso psicanalítico.

Neste sentido a psicanálise seria entendida como herdeira de práticas confessionais de extração religiosa, como dispositivo de localização da verdade do sujeito em sua interioridade sexual, dependente da falsa hipótese repressiva. No ocidente cristão seríamos impedidos de falar sobe o sexual, e não que somos justamente incitadas a falar da sexualidade como uma forma de repressão. A psicanálise seria um efeito necessário de certos impasses da psiquiatrização da sociedade, notadamente do controle das famílias e de alguns tipos sociais que lhe seriam contrários (a criança masturbadora, a mãe naturalizada, o perverso, etc).

Isso tudo costuma ser percebido pelos psicanalistas como uma generalização exterior à sua própria prática, como se ela não fosse interna e intimamente uma prática que estaria às voltas com sua constituição social e consequente circulação de poder. Penso que repensar a psicanálise a partir das críticas de Foucault é tarefa urgente para ajudar a criar uma psicanálise menos neurótico-cêntrica, menos andro-cêntrica, menos totemista-patriarcal, menos judicialista-disciplinar, menos indiferente ao tema do poder na própria situação analítica. Mas para isso as críticas foucaultianas teriam que ser infiltrada em uma arqueologia ou uma genealogia das práticas clínicas, de tratamento e de psicoterapia.

É o que tentei fazer em meu último livro Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica. Por ser considerada uma crítica “exterior” as considerações de Foucault são injustamente recusadas. Por outro lado, algumas destas objeções são usadas por alguns foucaultianos, de forma englobante, apenas para postular a erradicação de uma prática, em nome de outras, o que me parece um abuso absolutamente contrário ao espírito da pesquisa foucaultiana.

No mais esta apresenta uma oscilação muito mais ponderada e prudente do que a sua versão popular feita para recrudescer ânimos e criar territórios imaginários.9. A Psicanálise é uma pseudociênciaMito Mercadológico. O mesmo Popper que criou e estabeleceu o termo pseudociência para designar formas de saber que se apresentavam como científicas, mas que não praticavam métodos científicos, usando como exemplo Marx, Nietsche e Freud, dizia também que pela sua demarcação do que é ciência e do que não é ciência, que Darwin e sua teoria da evolução não são científicos.

Diversos autores já mostraram que nos próprios critérios de Popper a psicanálise não é exatamente uma pseudociência, mas isso não significa que ela não apresente certas peculiaridades epistemológicas que não permitem incluí-la completamente nos parâmetros convencionais das ciências. A afirmação segue sendo recorrente mais como uma forma de criar suspeita sobre a prática dos psicanalistas, como se eles fosses figuras mal-intencionadas ou pouco idôneas, fazendo-se passar pelo que não são, do que uma discussão séria sobre o que é ciência. Por isso trat-se de um mito reverso, ou seja, que fala como um certo tipo de ciência entende prescindir dos mitos, da história e da própria crítica da extensionalidade de seus pressupostos, para amealhar mais autoridade do que lhe seria pertinente.

A pseudociência deveria ser pensada em conjunto com os pseudoepistemólogos, como mostramos em outros lugares. OpiniãoTexto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do. O autor da mensagem, e não o, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do.

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