📸 Créditos da imagem: Universal
Filmar em IMAX tornou-se quase sinônimo de grandiosidade e espetáculo no cinema moderno, especialmente quando o nome de Christopher Nolan está envolvido. No entanto, apesar da imagem gigantesca e da imersão que o formato proporciona, poucos longas-metragens são realizados inteiramente com essa tecnologia.
A explicação para essa raridade não se limita apenas ao custo ou à complexidade logística. Segundo o elenco de A Odisseia, o novo épico de Nolan, o maior obstáculo é surpreendentemente mais sonoro do que visual: o ruído emitido pela própria câmera IMAX.
Foi justamente para contornar esse problema que a produção desenvolveu uma solução inédita, que envolveu a criação de uma espécie de blimp gigante e um engenhoso sistema de espelhos.
Por que filmes inteiros em IMAX ainda são raros?
A Odisseia, uma adaptação do clássico poema épico de Homero, tem atraído atenção não só pelo elenco estelar e pela escala grandiosa, mas também por sua proposta técnica ambiciosa. O filme foi gravado inteiramente em IMAX, algo que, conforme a atriz Anne Hathaway, é praticamente inviável quando há diálogos.
Hathaway explicou que a câmera IMAX tradicional é extremamente barulhenta. Esse ruído é causado pelo tamanho do filme físico que passa pelo mecanismo interno do equipamento. Em uma produção muda, isso não representaria um problema. Contudo, em um longa com falas, o barulho pode encobrir completamente o diálogo captado no set.
Na prática, essa situação obrigaria os atores a dublarem todas as falas posteriormente, em um processo conhecido como looping ou ADR (Automated Dialogue Replacement). Embora essa técnica seja comum na indústria cinematográfica, utilizá-la em um filme inteiro comprometeria a espontaneidade de cenas dramáticas e íntimas, especialmente em uma obra que depende tanto da conexão entre personagens.
É nesse ponto que reside o desafio de Nolan. O diretor desejava manter o impacto visual do IMAX em 70 mm sem sacrificar a naturalidade das performances.
A solução de Christopher Nolan em A Odisseia
Para resolver a questão do som, Nolan colaborou com o diretor de fotografia Hoyte van Hoytema, o engenheiro de som Willie D. Burton e outros profissionais da equipe para criar um blimp ao redor da câmera IMAX.
No contexto cinematográfico, um blimp é uma estrutura utilizada para abafar o ruído das câmeras. O desafio, no caso do IMAX, foi que essa proteção precisou ser de proporções gigantescas. Hathaway descreveu o equipamento como uma presença enorme no set, envolvendo a câmera por diversos lados.
Esse isolamento, embora eficaz na redução do barulho, gerou outro obstáculo: a distância entre os atores e a lente. Em cenas de diálogo, é comum que o ator fora de quadro fique muito próximo da câmera, garantindo a linha de olhar correta para quem está sendo filmado. Isso faz com que o rosto captado pareça estar realmente olhando para outra pessoa, e não para um ponto distante ao lado da lente.
Com o blimp gigante, essa proximidade tornou-se quase impossível. Se o ator ficasse ao lado do equipamento, a linha de olhar seria incorreta, e a intimidade da cena poderia ser perdida.
Como funciona o sistema de espelhos de A Odisseia?
A solução encontrada foi a criação de um sistema de espelhos que permitisse aos atores enxergar o parceiro de cena como se ele estivesse bem próximo da lente, mesmo quando fisicamente estava em outro ponto do set.
Matt Damon, que interpreta Odisseu, detalhou que, em uma cena íntima com Anne Hathaway, ele olhava para um espelho que refletia outro espelho. Dessa forma, o rosto da atriz aparecia próximo à câmera, no lugar ideal para a linha de olhar, enquanto o equipamento IMAX permanecia protegido pelo blimp.
O resultado, segundo Damon, foi surpreendentemente natural. Ele relatou que, ao recordar a cena, não se lembra da presença dos espelhos como um obstáculo. A memória que permaneceu foi a de estar atuando diretamente com Hathaway, olhando nos olhos dela.
Tom Holland também compartilhou sua experiência. Em uma cena com Jon Bernthal, o ator disse que o reflexo fazia o rosto do colega parecer flutuar perto da câmera, ajudando a esquecer a presença do equipamento e da equipe ao redor. Para uma tecnologia criada para resolver um problema técnico, o sistema acabou reforçando a sensação de intimidade.
Essa combinação de grandiosidade visual e atuação próxima ajuda a explicar por que as primeiras impressões de A Odisseia descrevem o filme como ambicioso e de tirar o fôlego.
IMAX, tecnologia e atuação sem perder o lado humano
Um dos pontos mais interessantes do relato de Hathaway é que a inovação não veio de computadores ou efeitos digitais, mas de uma engenharia prática pensada por cineastas. Para a atriz, o mérito estava no fato de a tecnologia ter sido concebida a partir da necessidade dos atores e da cena.
Em outras palavras, não era tecnologia pela tecnologia. O objetivo era permitir que uma câmera enorme, barulhenta e complexa capturasse momentos silenciosos, respirações, pausas e olhares sem obrigar o elenco a sacrificar a performance.
Isso dialoga diretamente com a forma como Nolan costuma trabalhar. O diretor é conhecido por preferir soluções físicas, formatos de película e efeitos práticos sempre que possível. Em A Odisseia, essa busca parece ter atingido um novo patamar, já que o filme tenta unir o peso mitológico da história de Homero com uma experiência cinematográfica em grande formato.
A Odisseia pode mudar o futuro do IMAX?
Ainda é cedo para afirmar se a técnica criada para A Odisseia será amplamente adotada por outras produções. Contudo, ela oferece uma resposta clara sobre por que mais filmes não são gravados inteiramente em IMAX: não basta desejar uma imagem maior. É fundamental resolver problemas complexos de som, espaço, atuação, foco, enquadramento e logística.
No caso de Nolan, a resposta foi construir uma solução sob medida. O blimp reduziu o ruído da câmera. Os espelhos corrigiram a linha de olhar. E os atores conseguiram preservar a sensação de proximidade em cenas dramáticas, mesmo diante de um aparato técnico gigantesco.
Com estreia marcada para 16 de julho nos cinemas e em IMAX, A Odisseia promete ser uma experiência cinematográfica pensada para a maior tela possível.
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