Mercado de card games no Brasil: Como viramos a capital do TCG na América Latina

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Mercado de card games no Brasil: Como viramos a capital do TCG na América Latina

📸 Créditos da imagem: mercado de card games no brasil - LigaFest (divulgação)

A história de Diogo Pires, co-criador da LigaMagic e um dos organizadores da LigaFest, é um testemunho vívido da transformação do mercado de Trading Card Games (TCG) no Brasil. O que começou como um hobby de colecionar cartas de Magic: The Gathering, décadas depois, permitiu que ele realizasse um sonho inesperado: pagar a casa dos sonhos vendendo sua coleção. Essa anedota pessoal encapsula perfeitamente a evolução do setor no país, que deixou de ser um nicho para se tornar um ativo financeiro com um ecossistema profissional e números impressionantes.

O Brasil, de fato, consolidou-se como a capital latino-americana dos TCGs, respondendo por mais de 60% de todas as transações na região. Essa participação desproporcional reflete um crescimento robusto e uma infraestrutura de mercado que poucos países conseguiram replicar.

Um Mercado em Expansão Global e Local

O mercado global de TCGs está em plena ascensão. Avaliado em US$ 8,4 bilhões em 2025, as projeções indicam que dobrará de valor até 2035, alcançando US$ 16,9 bilhões, com um crescimento anual de quase 7%. Dentro desse cenário, Magic: The Gathering se destaca como um motor principal, gerando US$ 1,7 bilhão em receita em 2025, um aumento notável de 59% em relação ao ano anterior. Esse desempenho impulsionou a Hasbro a fechar o ano com um faturamento total de US$ 4,7 bilhões.

O quarto trimestre de 2025 foi particularmente forte para Magic, com um crescimento de 141% em comparação ao mesmo período de 2024, impulsionado por lançamentos estratégicos como as coleções de Avatar: The Last Airbender e Final Fantasy. O Brasil está no epicentro dessa expansão, com sua liderança nas transações latino-americanas.

A LigaMagic e a Construção de um Ecossistema

Há quase 25 anos, Diogo Pires e Rafael Giovanini fundaram a LigaMagic como um projeto de hobby, sem equipe ou plano de negócios formal. A chave para o sucesso da plataforma, que a diferenciou de concorrentes na América Latina, foi o foco na comunidade e, posteriormente, nas lojas. Enquanto outros sites regionais seguiram diferentes direções, a LigaMagic investiu em oferecer infraestrutura para o varejo especializado, incluindo um marketplace, sistema de loja virtual e suporte para torneios.

O resultado dessa estratégia é evidente: o Brasil conta hoje com aproximadamente 700 lojas de TCG, um número que contrasta drasticamente com as poucas dezenas na Argentina ou as cerca de 50 no Chile. A LigaMagic desempenhou um papel fundamental no fomento dessas lojas, criando um ciclo virtuoso onde a infraestrutura para clientes (acesso a informações, preços, torneios e comunidade) impulsiona o crescimento do mercado.

Da Competição ao Festival: A Evolução da LigaFest

A LigaFest, hoje o maior festival de TCG da América Latina, teve suas origens há cerca de 13 anos como o Circuito LigaMagic. Seu objetivo inicial era simples: criar um torneio nacional que reunisse os melhores jogadores do país em busca de um campeão. “Eu sonhava que trouxesse pessoas novas para a parte competitiva do jogo”, conta Diogo, e foi exatamente o que aconteceu.

Após a pandemia, a decisão foi expandir o escopo, saindo do foco exclusivo em Magic para abraçar todo o ecossistema de card games. Rebatizado como LigaFest, o evento passou a integrar circuitos de Pokémon, One Piece e outros títulos. A primeira edição com o novo formato atraiu 7.000 pessoas ao Shopping Frei Caneca, em São Paulo. A quarta edição, agendada para 11 e 12 de julho de 2026, já conta com mais de 10.000 inscritos, com expectativa de chegar a 12.000. O evento ocorre duas vezes ao ano, em julho e dezembro, e já tem contrato assinado para dezembro em um espaço 60% maior.

Cartas Colecionáveis como Ativo Financeiro

A discussão sobre o investimento em cartas colecionáveis transcendeu o nicho, ganhando espaço em canais do YouTube, perfis do Instagram e fóruns online. Contudo, ainda há confusão sobre o funcionamento desse mercado, especialmente ao comparar Magic com Pokémon.

No universo Pokémon, o valor das cartas é determinado principalmente pela raridade absoluta e pela nota de conservação (grading). Um exemplo notório é a carta Charizard graduada em nota 10, que apareceu em um documentário da Netflix e foi vendida por cerca de US$ 18 milhões. São cartas que são compradas, seladas e raramente tocadas, onde o jogo em si é secundário.

Em Magic, a lógica é mais acessível e diferente. As cartas que mais valorizam são, em sua maioria, aquelas que são relevantes no jogo competitivo e não são mais reimpressas. As Dual Lands, terrenos que geram mana de duas cores e que Diogo guardou por décadas, são um exemplo clássico: quando jovens, valiam R$ 10 cada; hoje, alcançam R$ 1.000, uma valorização de cem vezes. “Quem joga Magic nunca vê o dinheiro que está gastando como um gasto, vê como um investimento”, afirma Diogo. “É diferente de ir ao cinema ou comprar um board game. Com as cartas, você sempre pensa que pode vender depois. ”

Embora nem todos construam uma casa com seu baralho, o mercado secundário é real, possui liquidez e atrai desde jogadores veteranos até especuladores. A Black Lotus, a carta mais icônica de Magic, foi vendida pela última vez por US$ 3 milhões. O “Um Anel” de Senhor dos Anéis, uma carta única no mundo, foi adquirido pelo músico Post Malone por US$ 2 milhões. Esses são extremos que ilustram o quanto esse mercado cresceu além do simples hobby.

O Ecossistema em Expansão e Novas Tendências

O cenário atual não se resume à força de Magic e Pokémon, mas também à velocidade com que novos títulos estão ganhando espaço. A 4ª LigaFest, além dos dois gigantes, sediará torneios de One Piece, Lorcana (da Disney), Riftbound (o card game de League of Legends, um dos mais novos e com alta procura), Star Wars, Dragon Ball e, notavelmente, cinco TCGs de produção brasileira: Oroman, Éther TCG, Fábula TCG, Odisséia Card Game e Ecos da Guerra.

Este último grupo é particularmente interessante, pois representa jogos desenvolvidos no Brasil que, embora ainda em fase inicial de alcance, já contam com um público fiel e terão espaço dedicado no evento para serem conhecidos e jogados. Essa iniciativa, que não aparece em relatórios de mercado, é crucial para a construção da base do ecossistema a longo prazo e para o fortalecimento da comunidade.

As colaborações com grandes IPs pop também estão mudando o perfil dos novos jogadores. Diogo relata que seu próprio irmão, que nunca havia se interessado por Magic, comprou as cartas da coleção Final Fantasy e se engajou. “Ele sai do computador para jogar uma coisa mais tática, mais física”, observa Diogo. “E ficou. ”

Perspectivas para o Futuro

Quinze anos de crescimento consecutivo são um dado que desafia análises convencionais. Sempre que o mercado parece atingir seu teto, ele cresce novamente, e 2025 foi o ano mais forte até então. Diogo Pires é otimista, e com razão, mas também pragmático. Os desafios que poderiam frear o crescimento já estão no radar das empresas. A Wizards, por exemplo, ajustou o ritmo de lançamentos de Magic para evitar a saturação do mercado, e a Pokémon Company monitora ativamente a cadeia de distribuição para prevenir superfaturamento.

Esses são sinais de um mercado que aprendeu com seus próprios excessos e busca garantir longevidade, não apenas crescimento rápido. “Eu vejo o futuro muito positivo”, conclui Diogo. “Não dá nenhum ar de que isso vai mudar nos próximos anos. ”

LigaFest 2026: Informações e Inscrições

A 4ª edição da LigaFest acontece nos dias 11 e 12 de julho de 2026, no Shopping Frei Caneca, em São Paulo (SP). A entrada é gratuita, mediante check-in online via QR Code.

  • Mais de 60 torneios ao longo do final de semana.
  • R$ 260.000 em prêmios distribuídos.
  • Finais dos Circuitos Nacionais: LigaMagic (R$ 72 mil), LigaPokémon (R$ 13 mil), LigaOnePiece (R$ 12 mil).
  • Torneio Legacy de Magic: The Gathering com premiação de até R$ 50.000 (200 vagas, inscrição R$ 300).
  • Torneio Trio Pauper: R$ 15.000 em prêmios.
  • Serviço de graduação de cartas ao vivo, inédito no Brasil.
  • Área de trocas e free play para jogadores casuais.
  • Espaços de aprendizado com Copag (Pokémon e Lorcana), Asmodee (Star Wars e Pokémon) e Geek Culture (Flesh and Blood).
  • 5 TCGs brasileiros em área dedicada: Oromã, EDTCG, Fábula, Seia e Ecos da Guerra.
  • Encontro com o criador de conteúdo Gaveta (domingo, dia 12).
  • Expectativa de movimentar mais de R$ 2 milhões em compra, venda e troca de cartas.

Inscrições para torneios e informações adicionais podem ser encontradas em ligafest. com. br.

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