OpenAI quer o governo como sócio. Quem ganha com isso?

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OpenAI quer o governo como sócio. Quem ganha com isso?

📸 Créditos da imagem: Unsplash

A proposta da OpenAI de ceder uma fatia de 5% da empresa ao governo dos Estados Unidos agitou o cenário da Inteligência Artificial (IA) nesta semana, conforme noticiado pelo Financial Times. Avaliada em impressionantes US$852 bilhões em sua última rodada de investimentos, essa participação representaria um valor substancial de cerca de US$42,6 bilhões.

Sam Altman, CEO da OpenAI, defende a iniciativa como uma forma de permitir que a população participe dos ganhos gerados pela IA. Ele se inspira no modelo do fundo soberano do Alasca, que distribui aos seus cidadãos parte da riqueza proveniente da exploração de petróleo. Altman ainda sugeriu que outras gigantes da tecnologia deveriam seguir o mesmo caminho, ampliando o debate sobre a distribuição dos lucros da inovação.

Embora a proposta ainda esteja em fase preliminar e sem aprovação, o momento em que ela surge levanta uma série de questionamentos e desconfianças. Empresas que, por anos, impulsionaram a IA para todos os setores e prometeram uma reestruturação massiva do mercado de trabalho, agora parecem dispostas a compartilhar os frutos com a sociedade. A aparente generosidade, contudo, esconde motivações complexas.

A principal pergunta é: por que agora? Nenhuma empresa abre mão de uma fatia tão significativa sem um motivo estratégico. Parte da resposta reside na crescente desconfiança da sociedade americana em relação à tecnologia. Pesquisas, como a da Edelman, revelam que apenas 32% dos americanos confiam na IA, um contraste gritante com os 87% dos chineses e 67% dos brasileiros. Essa queda de confiança pode se tornar um tema central nas próximas eleições de meio de mandato, pressionando a agenda de IA de aliados políticos.

A proposta de Altman também pode ser vista como uma tentativa de reorganizar a narrativa após anos de promessas de uma revolução da IA que, para muitos, soava como um “apocalipse de empregos”. Curiosamente, a ideia de Altman dialoga com a do senador democrata Bernie Sanders, que em junho propôs transferir metade das ações de grandes empresas de IA para um fundo soberano, distribuindo mil dólares por ano a cada cidadão. Apesar das diferenças nos valores e na abordagem, ambas as propostas partem de um diagnóstico comum: a necessidade de convencer a sociedade de que ela também se beneficiará da IA.

Essa discussão remete a um episódio do podcast de Ezra Klein, do NY Times, onde Ben Buchanan, conselheiro de IA da Casa Branca durante a administração Biden, destacou um ponto crucial: pela primeira vez na história, a tecnologia mais poderosa da época não está sendo desenvolvida pelos Estados, mas por empresas guiadas pelo capital privado. Isso serve como um alerta para a necessidade de os governos participarem mais ativamente do desenho do futuro tecnológico.

No entanto, as propostas de Altman e Sanders, embora visem compartilhar os ganhos da IA, não estão isentas de contradições. Nas últimas semanas, o mesmo governo dos EUA solicitou à OpenAI o adiamento do GPT-5.6 e levou a Anthropic a suspender seus modelos mais avançados por semanas. Isso demonstra que o Estado já interfere, na prática, nos modelos de IA que chegam ao público. A ideia de que esse mesmo Estado se torne sócio dessas empresas levanta um dilema regulatório: o regulador passaria a ter interesse financeiro no desempenho do ente regulado, criando um potencial conflito de interesses.

Essa simbiose entre Estado e empresas de tecnologia pode ser interpretada como uma estratégia dos Estados Unidos para preservar sua hegemonia em uma área que se tornou estratégica demais para ser deixada apenas nas mãos do mercado. Ao integrar as grandes empresas de tecnologia à sua estratégia nacional, a Casa Branca ganharia maior controle sobre capital, infraestrutura, lançamento de modelos e o acesso internacional a uma infraestrutura cognitiva capaz de influenciar até mesmo a forma como pensamos.

E o Brasil, como se posiciona nesse cenário? Infelizmente, fora do debate. Toda essa discussão sobre a repartição da riqueza da IA é uma conversa entre americanos. O cidadão brasileiro que utiliza o ChatGPT diariamente, alimenta esses modelos com seus dados e paga a assinatura em dólar não verá a cor de nenhum eventual dividendo futuro da IA. No Brasil, não haverá sequer um “cheque de consolo”. A conta de termos aceitado depender de uma tecnologia que não controlamos pode, a longo prazo, sair extremamente cara.

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