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Elas cresceram sem saber que dividiam a mesma origem
Uma simples descoberta mudou tudo décadas depois.
A história das irmãs de esperma
Gemma Hicks e Helen Hicks cresceram juntas em Berkshire, na Inglaterra, acreditando que o homem que as criou era também seu pai biológico.
Durante muitos anos, essa foi a única versão possível da história.
Só já adultas, na faixa dos 20 anos, descobriram que haviam sido concebidas por meio de um doador de esperma.
O choque veio acompanhado de uma segunda camada de incerteza: como elas nasceram antes da regulamentação moderna da fertilidade no Reino Unido, praticamente não havia registros claros sobre o doador.
A busca pelas origens
As irmãs sabiam que tinham sido concebidas com a ajuda de um doador, mas não podiam afirmar sequer se o material genético usado no caso das duas vinha do mesmo homem.
Era o tipo de vazio que, em vez de responder perguntas, criava outras ainda maiores.
Gemma, hoje com 36 anos, descreve aquele período como uma espécie de “Velho Oeste” da doação de esperma.
No caso de Gemma, a descoberta abalou mais do que a árvore genealógica.
Elas entraram em contato com Natasha, e em cerca de um mês as três marcaram um encontro.
O reencontro
A conexão foi imediata.
Elas descrevem esse primeiro momento como algo quase mágico, com lágrimas, espanto e a sensação de que havia uma familiaridade difícil de explicar racionalmente.
Gemma conta que bastaram poucos minutos de conversa para perceber semelhanças no jeito de falar, nas opiniões e até na energia com que se relacionavam.
A descoberta ficou ainda mais impressionante quando perceberam que suas trajetórias já haviam se cruzado de forma quase invisível.
A busca por identidade
Para Gemma, existe uma tristeza real em pensar no que foi perdido: aniversários, convivência, infância compartilhada e uma relação que poderia ter começado muito antes.
Ao mesmo tempo, as semelhanças entre as três reforçaram a sensação de pertencimento.
Todas demonstram inclinação criativa: Gemma seguiu pelas artes, Helen pela música e Natasha pela dança.
Em algum momento, as três também trabalharam como professoras ou palestrantes.
A história das irmãs de esperma
A revelação não destruiu a história de vida que elas já tinham, mas obrigou as três a reposicionar a própria identidade.
Gemma e Helen foram criadas em uma família profundamente conectada ao País de Gales.
O pai que as criou é galês, e essa herança cultural marcou a infância das duas, das viagens ao país ao orgulho pelo rugby galês.
Por isso, descobrir que o pai biológico também tinha raízes galesas trouxe alívio.
Para Gemma, foi reconfortante perceber que uma parte importante da identidade que construiu ao longo da vida não estava em contradição com a própria genética.
Natasha não cresceu se definindo como galesa, mas também mantinha laços afetivos com a região.
Elas conseguiram descobrir quem era o pai biológico e entraram em contato com ele.
Segundo relatam, a recepção foi positiva e gentil.
A história delas vai muito além do reencontro pessoal.
Hoje, as três se apresentam como “Sperm Sisters”, ou “irmãs de esperma”, nome que também virou o título de um podcast criado por elas.
O projeto nasceu como uma forma de processar a própria história, fortalecer a relação recém-descoberta e, ao mesmo tempo, abrir espaço para um debate que ainda costuma ser tratado como tabu.
Esse debate passa pela falta de informação, pelo silêncio dentro das famílias e pela fragilidade da regulação em determinados contextos.
No Reino Unido, a Autoridade de Fertilização Humana e Embriologia só foi criada em 1991.
Em 2005, a legislação avançou e deixou de permitir a doação anônima de esperma, óvulos ou embriões.
Desde então, ao completar 18 anos, pessoas concebidas por doação podem solicitar informações identificáveis sobre o doador e tentar contato.
Mas a geração de Gemma, Helen e Natasha ficou num limbo regulatório.
Elas não sabem quantos irmãos ou irmãs biológicos ainda existem, já que o limite atual de 10 famílias por doador não valia quando foram concebidas.
E, para elas, o problema está longe de ser apenas histórico.
As três alertam que a expansão de grupos e redes sociais usados para doações informais pode recriar um cenário de pouca transparência, com impactos profundos para os filhos gerados por esse sistema.
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