Uso de Ozempic e Wegovy entre pessoas com transtornos alimentares preocupa cientistas: estudo revela índices muito acima da média

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Uso de Ozempic e Wegovy entre pessoas com transtornos alimentares preocupa cientistas: estudo revela índices muito acima da média

📸 Créditos da imagem: © Jaap Arriens via Getty

Os medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1, como a semaglutida, princípio ativo de fármacos populares como Ozempic e Wegovy, transformaram o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Sua eficácia em reduzir o apetite e promover uma perda de peso significativa os tornou amplamente utilizados em todo o mundo.

Contudo, é justamente por esses efeitos potentes sobre o peso corporal que especialistas têm manifestado crescente preocupação com o uso dessas medicações por indivíduos que sofrem de transtornos alimentares. Uma nova pesquisa, publicada na prestigiada revista científica JAMA Psychiatry, sugere que a extensão desse problema pode ser consideravelmente maior do que se imaginava inicialmente.

Um Uso Preocupante entre Pessoas com Transtornos Alimentares

O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade de Louisville, nos Estados Unidos, em colaboração com outras instituições, teve como objetivo principal investigar a frequência do uso de medicamentos GLP-1 entre pessoas com transtornos alimentares, uma área até então pouco explorada. A equipe analisou dados de 436 participantes com histórico de transtornos alimentares, incluindo aqueles que já estavam em remissão dos sintomas.

Os resultados obtidos foram notavelmente altos e chamaram a atenção da comunidade científica. A pesquisa revelou que:

  • Mais de 32% dos participantes relataram ter utilizado algum medicamento da classe GLP-1 em algum momento de suas vidas.
  • Cerca de 22% afirmaram estar utilizando essas substâncias atualmente.

Para contextualizar esses números, estimativas anteriores indicam que entre 15% e 18% da população americana em geral já fez uso de medicamentos desse tipo. Essa comparação evidencia que o uso é significativamente mais comum entre indivíduos com transtornos alimentares, superando a média da população geral.

Riscos e Uso Indevido: Quando o Tratamento Desvia do Caminho

Além da elevada frequência de uso, os pesquisadores identificaram indícios preocupantes de uso inadequado dos medicamentos. Aproximadamente 10% dos participantes relataram ter utilizado as medicações de maneira considerada incorreta. Entre os comportamentos classificados como uso indevido, destacam-se:

  • Iniciar o tratamento com doses superiores às recomendadas.
  • Aumentar a dosagem antes do período indicado.
  • Compartilhar os medicamentos com pessoas que não possuíam prescrição médica.

Outro dado relevante e alarmante foi que cerca de 10% dos entrevistados admitiram ter utilizado versões manipuladas ou não regulamentadas dos medicamentos. Esse mercado paralelo tem experimentado um crescimento rápido nos últimos anos em diversos países, e os autores do estudo alertam que a facilidade de acesso a essas versões, comercializadas fora dos canais tradicionais, pode intensificar os riscos para pessoas vulneráveis.

A Complexidade dos Transtornos Alimentares e o Alerta Médico

Os transtornos alimentares compreendem um grupo complexo de condições psiquiátricas caracterizadas por comportamentos e pensamentos prejudiciais relacionados à alimentação, ao peso corporal e à imagem física. Entre os mais conhecidos estão a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e o transtorno de compulsão alimentar periódica.

É crucial ressaltar que, atualmente, os medicamentos GLP-1 não possuem aprovação específica para o tratamento desses transtornos. Embora algumas pesquisas preliminares sugiram que possam oferecer benefícios para pacientes com compulsão alimentar, ainda não há um consenso científico robusto que justifique seu uso generalizado nesse contexto. Os pesquisadores expressam preocupação de que algumas pessoas possam estar utilizando essas substâncias com o objetivo de alcançar níveis perigosamente baixos de peso corporal ou para sustentar padrões extremos de restrição alimentar, agravando quadros já delicados.

Limitações do Estudo e a Urgência da Farmacovigilância

Os autores do estudo destacam uma limitação importante: os dados foram coletados por meio de relatos dos próprios participantes. Isso implica que alguns casos de uso, ou de uso inadequado, podem não ter sido informados, sugerindo que a frequência real do problema pode ser ainda maior do que a identificada na pesquisa.

Curiosamente, o uso dos medicamentos GLP-1 foi menos frequente entre pessoas diagnosticadas com anorexia nervosa clássica, com taxas próximas de 10%. Em contrapartida, indivíduos com outros tipos de transtornos alimentares apresentaram índices significativamente mais elevados, indicando uma heterogeneidade na forma como esses medicamentos são procurados e utilizados dentro do espectro dos transtornos alimentares.

O crescimento acelerado do mercado de medicamentos para emagrecimento impulsionou especialistas a defenderem um monitoramento mais rigoroso dessas substâncias. Os pesquisadores enfatizam a urgência da farmacovigilância dos medicamentos GLP-1, especialmente com a chegada de novas formulações ao mercado, incluindo versões orais que prometem ampliar ainda mais o acesso.

Para os autores, o desafio primordial é assegurar que essas medicações continuem a beneficiar os pacientes que realmente necessitam do tratamento, ao mesmo tempo em que se previne seu uso inadequado por pessoas em situação de vulnerabilidade física ou psicológica. O estudo reforça, de forma contundente, que, embora Ozempic, Wegovy e medicamentos similares representem um avanço significativo no combate à obesidade, seu uso deve ser sempre realizado sob estrita supervisão médica, particularmente em indivíduos com histórico de transtornos alimentares.

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