Cientistas extraem DNA de adolescentes que viveram há quase 10 mil anos

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Cientistas extraem DNA de adolescentes que viveram há quase 10 mil anos

📸 Créditos da imagem: © Unsplash

Em uma reviravolta fascinante para a arqueologia e a genética, cientistas conseguiram extrair e analisar o DNA de adolescentes que viveram há quase 10 mil anos. A descoberta, que revela detalhes íntimos sobre a vida de caçadores-coletores logo após a última Era do Gelo, não veio de ossos ou dentes, mas de algo tão mundano quanto um “chiclete” pré-histórico.

Tradicionalmente, a arqueologia desvenda o passado por meio de vestígios como ossos, ferramentas e ruínas. No entanto, em alguns casos, as informações mais valiosas emergem dos objetos mais improváveis. Um simples gesto rotineiro de adolescentes em uma antiga comunidade no norte da Europa, há dez milênios, transformou-se em uma das mais impressionantes descobertas da arqueogenética moderna.

Um acampamento esquecido que se transformou em cápsula do tempo

A origem dessa descoberta extraordinária remonta a Huseby Klev, um sítio arqueológico localizado na costa oeste da atual Suécia, na ilha de Orust. Há cerca de 10 mil anos, a paisagem era drasticamente diferente: o nível do mar era mais elevado, e a área funcionava como um acampamento de pesca vital para os primeiros grupos humanos que repovoaram a Escandinávia após o recuo das geleiras.

Durante escavações realizadas na década de 1990, arqueólogos se depararam com uma quantidade notável de materiais orgânicos excepcionalmente preservados. Entre ossos humanos, restos de animais, ferramentas de pedra e utensílios de madeira, havia dezenas de pequenos fragmentos escuros de uma substância peculiar: piche de casca de bétula.

Esse material, uma espécie de resina produzida pelo aquecimento controlado da casca da bétula, era amplamente utilizado na pré-história como cola. Servia para fixar lâminas de pedra em cabos de madeira, essenciais na fabricação de armas e ferramentas. Antes de ser aplicado, o piche precisava ser amolecido, e a maneira mais prática de fazer isso era mastigá-lo.

Foi exatamente isso que os habitantes de Huseby Klev fizeram. Após o uso, simplesmente descartaram o material no chão, sem imaginar que estariam deixando para trás uma das mais extraordinárias fontes de informação biológica já encontradas sobre a Idade da Pedra.

O DNA preservado dentro de uma espécie de chiclete pré-histórico

Os pedaços de resina chamaram a atenção dos arqueólogos por exibirem marcas de dentes claramente visíveis, indicando que haviam sido mastigados por crianças e adolescentes. Contudo, na época das escavações, a tecnologia necessária para extrair DNA desses materiais ainda não existia. Os fragmentos foram, então, cuidadosamente armazenados por décadas.

Avanços nas técnicas genéticas permitiram, em 2019, que uma equipe internacional de pesquisadores recuperasse DNA humano de três desses pedaços de resina. O resultado surpreendeu a comunidade científica: os cientistas obtiveram material genético suficiente para reconstruir praticamente o genoma completo de três indivíduos que viveram cerca de 9.700 anos atrás, incluindo duas meninas e um menino.

Além de confirmar que esses indivíduos pertenciam às populações de caçadores-coletores que ocupavam a Escandinávia após a última glaciação, o estudo demonstrou que aqueles pedaços mastigados representavam uma fonte extraordinária de DNA antigo. O segredo da preservação residia na própria composição química do piche, que contém compostos naturais com propriedades antimicrobianas, dificultando a ação de bactérias responsáveis pela degradação biológica.

Quando os jovens descartaram a resina, sua saliva, células da boca e microrganismos ficaram protegidos dentro do material. Subsequentemente, uma camada de argila marinha cobriu o local, criando condições praticamente perfeitas para conservar esse conteúdo por milênios.

O que eles comeram e os problemas de saúde que carregavam

A história não terminou com a recuperação dos genomas. Em 2024, outro grupo de pesquisadores revisitou os mesmos fragmentos, utilizando técnicas avançadas para identificar o DNA de plantas, animais e microrganismos presentes na saliva dos mastigadores. O resultado ofereceu um retrato surpreendentemente detalhado da rotina desses jovens.

As análises revelaram vestígios genéticos de uma dieta variada, incluindo:

  • Veado-vermelho
  • Truta
  • Pato selvagem
  • Avelãs
  • Maçãs silvestres

Também foram encontrados sinais de raposas, lobos e raposas-do-ártico, sugerindo que esses animais eram caçados ou processados pela comunidade. Uma descoberta particularmente intrigante foi a identificação de DNA de visco, uma planta que, em períodos posteriores da pré-história, teria sido utilizada para produzir venenos destinados a pontas de flechas.

Talvez a informação mais inesperada estivesse relacionada à saúde bucal dos adolescentes. Os pesquisadores encontraram grande quantidade de bactérias atualmente associadas à periodontite, uma doença inflamatória grave das gengivas. Em alguns casos, as análises apontaram mais de 80% de probabilidade de que os jovens sofressem de problemas gengivais ativos. Isso significa que aqueles adolescentes da Idade da Pedra provavelmente conviviam com dores, inflamações e infecções bucais muito antes da existência de qualquer tratamento odontológico.

Como um simples pedaço de resina está transformando a arqueologia

As descobertas feitas em Huseby Klev estão redefinindo a forma como os cientistas investigam populações antigas. Tradicionalmente, estudos genéticos dependem da preservação de ossos ou dentes, materiais que nem sempre sobrevivem ao passar dos milênios. Muitas populações desapareceram dos registros biológicos justamente porque seus restos mortais se degradaram completamente.

O piche mastigado oferece uma alternativa inesperada e robusta. Em determinadas condições ambientais, ele pode conservar DNA humano, microbiano e alimentar por milhares de anos. Isso significa que comunidades inteiras que antes eram praticamente invisíveis para a genética podem agora ser estudadas por meio de algo tão banal quanto um “chiclete” descartado.

No caso dos jovens de Huseby Klev, um gesto cotidiano realizado há dez milênios permitiu reconstruir sua ancestralidade, parte de sua alimentação, suas atividades diárias e até seu estado de saúde. Poucos objetos arqueológicos conseguem revelar tanto sobre indivíduos específicos. E o mais impressionante é que dezenas de outros fragmentos encontrados no mesmo local ainda aguardam análise, o que sugere que muitos segredos da Idade da Pedra continuam escondidos dentro desses pequenos pedaços escuros de resina, prometendo futuras revelações sobre a vida de nossos ancestrais.

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