Novo estudo revela uma gigantesca cicatriz geológica sob a Antártida

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Novo estudo revela uma gigantesca cicatriz geológica sob a Antártida

📸 Créditos da imagem: © Danita Delimont - Shutterstock

A Antártida, à primeira vista, pode parecer um deserto gelado uniforme e silencioso. Contudo, sob sua vasta superfície congelada, reside um mundo complexo e dinâmico, composto por montanhas, vales, lagos e cicatrizes geológicas que permaneceram ocultas por milhões de anos. Uma nova pesquisa, agora, revela que algumas dessas estruturas podem estar interligadas por uma formação muito maior do que se imaginava, oferecendo pistas surpreendentes sobre um dos momentos mais decisivos da história geológica da Terra.

Uma estrutura colossal escondida sob quilômetros de gelo

Por décadas, cientistas investigaram diversas depressões subterrâneas localizadas sob a Antártida Oriental como entidades independentes. No entanto, um estudo recente, publicado na renomada revista Nature Geoscience, sugere que essas formações são, na verdade, parte de um único e vasto sistema tectônico de escala continental. A descoberta foi liderada por pesquisadores da Universidade de Gênova, na Itália, que analisaram novos e detalhados mapas do relevo oculto sob a imensa camada de gelo antártica.

O que mais chamou a atenção da equipe foi um padrão geográfico incomum: dezenas de grandes bacias pareciam irradiar de uma região próxima ao Polo Sul, formando uma geometria que lembra um leque aberto. Ao todo, foram identificadas cerca de 30 bacias subglaciais, algumas das quais apresentam formato triangular ou em “V” e se estendem por mais de 1.500 quilômetros. Muitas dessas formações permanecem enterradas sob mais de três quilômetros de gelo.

Para validar que esse padrão não era uma mera coincidência topográfica, os pesquisadores realizaram um cruzamento de informações topográficas com dados sísmicos, gravitacionais e magnéticos. Os resultados confirmaram que a mesma configuração se manifesta em camadas profundas da crosta terrestre e da litosfera, indicando que sua origem está intrinsecamente ligada a antigos processos tectônicos, e não apenas à erosão provocada pelas geleiras ao longo do tempo. Entre as estruturas incluídas nesse gigantesco sistema estão algumas das regiões subglaciais mais conhecidas da Antártida, como as bacias de Wilkes e Aurora, além da área que abriga o famoso Lago Vostok.

A pista que ajuda a explicar a fragmentação de um supercontinente

Segundo os autores do estudo, essa gigantesca rede de bacias pode ter se formado durante um processo geológico conhecido como extensão rotacional distribuída. Em vez de a crosta terrestre se romper por uma única falha reta, ela teria começado a se deformar gradualmente, girando em torno de um ponto relativamente estável. O resultado desse processo seria análogo à abertura de um leque: enquanto o centro permanece quase fixo, suas extremidades se afastam, criando espaços triangulares entre elas. Esses espaços, por sua vez, teriam dado origem às grandes bacias hoje escondidas sob a Antártida.

O aspecto mais fascinante dessa descoberta é que esse processo pode ter ocorrido antes da separação definitiva de Gondwana, o supercontinente ancestral que reunia a América do Sul, África, Antártida, Austrália e Índia. Os cientistas acreditam que essa deformação enfraqueceu a litosfera ao longo de milhões de anos, preparando o terreno para a futura separação entre a Antártida e a Austrália e para a subsequente formação dos oceanos que hoje dividem esses continentes.

Além de sua relevância histórica, a descoberta também possui importância atual. Essas depressões subterrâneas influenciam diretamente a movimentação das geleiras, o fluxo de água sob o gelo e, consequentemente, a estabilidade da vasta camada de gelo antártica. Compreender sua geometria detalhada pode auxiliar pesquisadores a desenvolver modelos mais precisos sobre como a Antártida responderá às mudanças climáticas nas próximas décadas.

Embora ainda existam algumas dúvidas sobre a idade exata dessas formações geológicas, a pesquisa revela que sob um dos ambientes mais extremos e aparentemente intocados do planeta existe uma gigantesca cicatriz geológica. Essa cicatriz não só registra o momento em que um supercontinente começou lentamente a se desfazer, mas também continua a influenciar o comportamento do gelo até os dias de hoje, oferecendo uma janela única para o passado e o futuro do nosso planeta.

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