Uma descoberta do MIT está fazendo neurocientistas revisarem antigas certezas

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Uma descoberta do MIT está fazendo neurocientistas revisarem antigas certezas

📸 Créditos da imagem: © Shawn Day - Unsplash

Durante décadas, a maior parte das pesquisas sobre memória e inteligência concentrou sua atenção nos neurônios. Elas eram vistas como as protagonistas absolutas do cérebro, responsáveis por processar informações, formar lembranças e sustentar tudo aquilo que chamamos de cognição. Mas existe um detalhe curioso que costuma passar despercebido: o cérebro humano abriga quase a mesma quantidade de outro tipo de célula.

Agora, um estudo desenvolvido por pesquisadores do MIT sugere que essas células podem estar escondendo uma parte importante do segredo por trás da impressionante capacidade de armazenamento da mente humana. O problema que desafia os modelos tradicionais da memória A ciência já possui diversas teorias para explicar como o cérebro armazena informações. Entre as mais influentes está um modelo matemático criado na década de 1980 pelo físico John Hopfield, posteriormente reconhecido com o Prêmio Nobel por suas contribuições ao entendimento das redes neurais.

Esses modelos ajudaram pesquisadores a compreender como memórias podem ser armazenadas em conexões entre neurônios. No entanto, existe uma limitação importante: a capacidade de armazenamento prevista por essas teorias é significativamente menor do que aquilo que o cérebro humano parece demonstrar na prática. Ao longo dos anos, surgiram versões mais sofisticadas desses modelos capazes de armazenar quantidades muito maiores de informação.

O problema era outro. Para funcionar biologicamente, essas versões exigem interações simultâneas envolvendo múltiplas células nervosas ao mesmo tempo. As sinapses convencionais, porém, conectam apenas dois neurônios.

Isso criou um impasse que permaneceu sem uma explicação convincente durante décadas. Foi justamente nesse ponto que um grupo de pesquisadores decidiu olhar para uma população celular que normalmente ocupa um papel secundário nos livros de neurociência. As células que passaram décadas sendo tratadas como simples suporte Essas células são chamadas de astrócitos.

Receberam esse nome por causa de sua aparência semelhante a uma estrela, com inúmeros prolongamentos que se espalham pelo tecido cerebral. Durante muito tempo, acreditava-se que sua principal função era fornecer suporte estrutural e metabólico para os neurônios. Mas pesquisas mais recentes começaram a mostrar que a história pode ser muito mais complexa.

Um único astrócito consegue estabelecer contato com centenas de milhares de sinapses. Quando isso acontece, forma-se uma estrutura conhecida como sinapse tripartite, composta por três elementos: o neurônio que envia o sinal, o neurônio que o recebe e o próprio astrócito. Diferentemente dos neurônios, os astrócitos não produzem impulsos elétricos tradicionais.

Ainda assim, eles se comunicam utilizando sinais químicos e moléculas especializadas capazes de influenciar diretamente a atividade cerebral. Os pesquisadores do MIT decidiram então tratar essa estrutura de três componentes não como um elemento passivo, mas como uma verdadeira unidade computacional. O resultado foi surpreendente.

Segundo o modelo matemático desenvolvido pela equipe, essas conexões tripartites fornecem exatamente o tipo de interação complexa que os modelos mais avançados de memória exigem para funcionar. Uma hipótese que pode mudar a forma como entendemos a memória A consequência mais impressionante da teoria está relacionada à capacidade de armazenamento. De acordo com os cálculos apresentados, cada uma dessas unidades envolvendo neurônios e astrócitos poderia armazenar uma quantidade extremamente elevada de padrões de memória.

Em conjunto, isso permitiria que a capacidade total do sistema crescesse de maneira muito mais eficiente do que os modelos tradicionais preveem. Na prática, isso significa que a memória humana talvez não dependa apenas das conexões entre neurônios, como se acreditava há décadas. Ela poderia estar explorando uma arquitetura biológica muito mais sofisticada, baseada na colaboração entre diferentes tipos de células cerebrais.

Os próprios autores ressaltam que a hipótese ainda não foi comprovada experimentalmente. O trabalho apresenta um modelo matemático coerente e compatível com conhecimentos biológicos atuais, mas ainda será necessário realizar testes específicos para verificar se o mecanismo realmente opera dessa forma dentro do cérebro humano. Essa cautela é importante porque a neurociência possui uma longa história de teorias promissoras que demoraram anos para serem confirmadas.

Ainda assim, a pesquisa oferece uma resposta para o mistério sugerido pelo título. Se a hipótese estiver correta, a capacidade extraordinária da memória humana pode não depender apenas dos neurônios que estudamos há tanto tempo, mas também de células que passaram décadas sendo vistas como meros coadjuvantes. E isso significaria que a unidade fundamental da memória talvez não seja aquilo que os cientistas acreditaram durante gerações.

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