Como nasceu Backrooms? Conheça a lenda urbana que deu origem para o filme de sucesso da A24

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Como nasceu Backrooms? Conheça a lenda urbana que deu origem para o filme de sucesso da A24

📸 Créditos da imagem: reprodução / Tecmundo

O filme Backrooms, uma produção da A24, fez uma estreia estrondosa nos cinemas, marcando um novo capítulo na história do terror e do cinema independente. Dirigido pelo jovem Kane Parsons, o longa arrecadou impressionantes US$ 118 milhões em bilheteria global no primeiro fim de semana, consolidando-se como a maior abertura da história do estúdio e o maior lançamento de terror de 2026 até agora.

O sucesso meteórico não apenas elevou o filme ao status de fenômeno, mas também catapultou Parsons para o panteão de Hollywood. Aos 20 anos, o cineasta tornou-se o diretor mais jovem a comandar um filme que alcançou o primeiro lugar nas bilheterias, um feito notável que tem raízes em uma simples imagem compartilhada na internet.

Mas, afinal, o que são os Backrooms e como essa ideia, aparentemente despretensiosa, conseguiu capturar a imaginação e o medo de milhões de pessoas ao redor do mundo? A resposta reside em uma complexa tapeçaria de fóruns online, teorias colaborativas, uma nostalgia perturbadora e um dos maiores fenômenos de horror digital da última década.

A Origem da Lenda Urbana

A semente dos Backrooms foi plantada em setembro de 2019, no 4chan, um dos fóruns mais conhecidos e, por vezes, controversos da internet. Em uma discussão dedicada a imagens que evocavam uma sensação de estranheza ou desconforto inexplicável, um usuário anônimo compartilhou a fotografia de um ambiente vazio, caracterizado por carpetes amarelados e uma iluminação fria de lâmpadas fluorescentes.

Pouco tempo depois, outro participante do fórum respondeu com um texto conciso que se tornaria a base de uma das lendas urbanas virtuais, ou creepypastas, mais famosas da internet. A publicação descrevia um lugar infinito, composto por salas vazias, carpetes úmidos, paredes amarelas e um zumbido constante vindo da iluminação, um destino para qualquer um que, por acidente, ‘saísse da realidade’.

O texto original, de autoria anônima, dizia: “Se você não tomar cuidado e fizer um noclip fora da realidade nas áreas erradas, você vai acabar nos The Backrooms, onde não há nada além do fedor de carpete velho e úmido, a loucura do amarelo monocromático, o ruído de fundo infinito de luzes fluorescentes no zumbido máximo e aproximadamente seiscentos milhões de milhas quadradas de salas vazias segmentadas aleatoriamente para ficar preso. Deus te salve se você ouvir algo vagando por perto, porque com certeza ele te ouviu. ”

Apesar de sua simplicidade, a ideia foi incrivelmente eficaz, gerando um subgênero de terror na internet. O conceito mesclava o medo do desconhecido com a sensação de estar aprisionado em um lugar estranhamente familiar, proporcionando uma experiência psicológica distinta dos tropos tradicionais do horror.

A Foto Real por Trás do Pesadelo

Por anos, a origem da imagem que deu vida aos Backrooms permaneceu um mistério, o que apenas intensificava a aura enigmática da lenda urbana. A fotografia parecia ter surgido do nada, alimentando a especulação e o fascínio.

A verdade só veio à tona em 2024, quando membros de uma comunidade dedicada aos Backrooms conseguiram rastrear a origem da foto. Eles descobriram que a imagem havia sido registrada em 2002, durante a reforma do segundo andar de uma antiga loja de móveis em Oshkosh, no estado de Wisconsin, nos Estados Unidos.

O local estava sendo preparado para receber uma unidade da rede HobbyTown. O ambiente, com suas divisórias temporárias, iluminação fluorescente, carpetes desgastados e a ausência de contato com o exterior, possuía precisamente os elementos que contribuíram para criar a atmosfera inquietante que transformaria aquela simples fotografia em um ícone da cultura digital.

O Fenômeno dos ‘Espaços Liminares’

Parte do sucesso dos Backrooms está intrinsecamente ligada ao conceito de ‘liminal spaces’, ou espaços liminares. O termo descreve locais de transição que, em circunstâncias normais, seriam movimentados, mas que aparecem completamente vazios, provocando uma estranha sensação de nostalgia e desconforto.

Corredores de escolas abandonadas, shoppings desertos e escritórios sem pessoas são exemplos clássicos dessa estética, que também pode ser observada em produções como Round 6 e a aclamada série Ruptura. Os Backrooms se tornaram o maior símbolo desse movimento na internet, ajudando a popularizar imagens que parecem familiares, mas ao mesmo tempo profundamente erradas.

O fascínio surge justamente porque o cérebro reconhece o ambiente, mas percebe que algo está fora do lugar. É um medo menos baseado em sustos e mais na sensação de que a realidade deixou de funcionar como deveria, um terror existencial.

A Psicologia por Trás do Desconforto

A psicóloga Miriam Hoffman abordou um conceito semelhante em um artigo publicado em 2018, antes mesmo do surgimento da creepypasta. Segundo a pesquisadora, o cérebro constrói ‘mapas cognitivos’ dos espaços que frequenta, associando ambientes a memórias, emoções e sensações de familiaridade.

Quando nos deparamos com locais vazios, silenciosos ou estranhamente desocupados, esses mapas mentais são ativados, mas algo parece faltar, criando uma sensação de estranhamento difícil de explicar. Hoffman afirma que “o cérebro utiliza períodos de descanso desperto como uma oportunidade para explorar internamente rotas nunca experimentadas e relações espaciais importantes para a formação de um mapa cognitivo robusto. ”

É precisamente nessa lacuna entre o familiar e o desconhecido que os Backrooms encontram sua força: os cenários parecem pertencer a lembranças reais, mas surgem distorcidos, infinitos e sem qualquer referência humana, transformando uma sensação cotidiana de nostalgia em uma experiência genuinamente perturbadora.

O Conceito de ‘Noclip’ e a Geração Gamer

A lenda dos Backrooms incorpora o termo ‘noclip’, que descreve quando alguém encontra um ‘bug na realidade’ e cai dentro do ambiente assustador. O termo, originário dos videogames, é usado para descrever situações em que um personagem atravessa paredes ou objetos devido a falhas na programação.

Na história original, as pessoas acabam nos Backrooms ao ‘errar um passo’ e ‘cair para fora da realidade’ que conhecemos. Em vez de atravessar um cenário digital, elas atravessariam o próprio mundo real e cairiam em uma dimensão paralela composta por corredores intermináveis e salas sem saída.

Essa fusão entre a linguagem gamer e o horror existencial ajudou a aproximar a história de uma geração acostumada a explorar mundos virtuais. Aliado a isso, o teor minimalista dos cenários transformou a narrativa dos Backrooms em um celeiro criativo para games, textos e vídeos na internet.

Como os Fãs Construíram um Universo Colaborativo

Poucos dias após a publicação original no 4chan, comunidades inteiras começaram a expandir a ideia. Usuários do Reddit, TikTok, YouTube e diversas wikis criaram centenas de novos ‘andares’ com base na imagem inicial. Conhecidos como ‘níveis’, esses ‘não-lugares’ passaram a abrigar criaturas misteriosas, chamadas de entidades, e muitos outros mistérios.

O conceito deixou de ser apenas uma única sala amarela para se tornar um universo compartilhado. Surgiram estacionamentos infinitos, túneis industriais, hotéis abandonados, piscinas vazias e inúmeros outros ambientes que mantinham a mesma sensação de isolamento e estranheza.

Ao contrário de franquias tradicionais, os Backrooms nunca tiveram uma versão oficial definitiva, tampouco um único dono. Qualquer pessoa podia contribuir com histórias, imagens ou regras, criando uma experiência colaborativa semelhante ao fenômeno da Fundação SCP, outra creepypasta que ganhou vida na internet.

De Curta Viral a Sucesso de Bilheteria

Em 2022, Kane Parsons, o diretor do filme da A24, publicou o curta-metragem The Backrooms (Found Footage), o que o colocou no centro das atenções da lenda urbana. Produzido com softwares como Blender e After Effects, o vídeo simulava uma gravação encontrada de alguém perdido dentro da dimensão.

O projeto viralizou rapidamente, acumulando dezenas de milhões de visualizações e dando origem a um universo de curtas-metragens virais. Parsons expandiu a ideia em uma série de vídeos que adicionavam novas camadas de narrativa, incluindo experimentos científicos, organizações secretas e explicações para a existência dos Backrooms.

Com um orçamento de US$ 10 milhões, o longa-metragem já arrecadou US$ 118 milhões apenas em seu fim de semana de estreia, demonstrando a força desse universo alimentado na internet. O sucesso nas telonas deixa claro que até mesmo uma simples foto na internet pode se tornar combustível para grandes obras, desde que o público abrace a ideia e a transforme em um fenômeno cultural.

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