Startup ligada a Trump quer robôs humanoides autônomos em operações militares

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Startup ligada a Trump quer robôs humanoides autônomos em operações militares

📸 Créditos da imagem: Foundation Future Industries

Enquanto o Vale do Silício se concentra em robôs humanoides para tarefas domésticas, uma startup de São Francisco, a Foundation Future Industries, está direcionando essa tecnologia para um propósito radicalmente diferente: operações militares e funções consideradas perigosas ou letais para seres humanos.

A empresa de robótica, que possui ligações com a família do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está desenvolvendo robôs humanoides autônomos de “uso duplo”. Esses equipamentos são projetados tanto para ambientes industriais pesados quanto para aplicações militares, uma proposta que, embora pareça ficção científica, já tem versões iniciais sendo testadas na Ucrânia, em meio à guerra contra a Rússia.

Sankaet Pathak, diretor-presidente da Foundation, enfatiza que a missão central da companhia é focar a robótica humanoide em desafios mais relevantes do que tarefas cotidianas. “Estou convencido de que a tecnologia está alcançando um nível em que pode substituir trabalhos que são perigosos para os seres humanos realizarem e, se você puder fazer isso, esse é o maior benefício líquido que pode criar entre todas as aplicações da robótica”, declarou Pathak.

Apesar de atuar em um mercado de robôs humanoides cada vez mais competitivo, a Foundation Future Industries se destaca pela defesa explícita do uso militar de sua tecnologia. A startup estabeleceu metas ambiciosas, com Pathak planejando expandir a produção para milhares de unidades ainda neste ano e iniciar testes em operações de linha de frente com as Forças Armadas dos Estados Unidos nos próximos 12 a 18 meses. Essa aproximação com Washington reflete uma tendência global de incorporação da inteligência artificial e da robótica à guerra moderna, elevando-as a temas de segurança nacional.

A trajetória de Pathak inclui a liderança da Synapse, uma plataforma de tecnologia financeira que faliu em 2024, gerando controvérsias. Pouco depois, ele fundou a Foundation ao lado de Arjun Sethi, ex-presidente da Tribe Capital, e Mike LeBlanc, cofundador da Cobalt Robotics. A nova empresa também enfrentou questionamentos após sugerir relações próximas e possíveis investimentos da General Motors (GM), alegações que foram posteriormente rejeitadas pela montadora.

Ucrânia como Laboratório de Combate

A Foundation ganhou projeção internacional ao enviar duas unidades do robô Phantom MK-1 para a Ucrânia em uma demonstração piloto, marcando o primeiro envio conhecido de robôs humanoides para um cenário de combate. Os testes, apoiados pelo governo dos Estados Unidos e conduzidos em cooperação com autoridades ucranianas, concentraram-se em atividades logísticas em áreas perigosas.

A Ucrânia foi escolhida como local de estreia da tecnologia por já ter se consolidado como um campo de testes crucial para aplicações de inteligência artificial (IA) e robótica em combate. Ao longo dos anos de conflito contra a Rússia, o país tem utilizado:

  • Robôs terrestres para transporte de suprimentos até a linha de frente.
  • Drones autônomos.
  • Sistemas reforçados por IA para reconhecimento e ataques de precisão.

Segundo Pathak, os testes com o Phantom MK-1 já demonstraram a capacidade do robô de realizar a coleta de suprimentos, uma atividade que frequentemente expõe soldados a riscos. Contudo, os modelos atuais ainda não são “supersoldados”, com o MK-1 transportando apenas cerca de 20 quilos de carga, sem proteção adequada contra água e com limitações de bateria que impedem uma implantação em larga escala. A empresa planeja enviar à Ucrânia, ainda neste ano, uma nova geração, o Phantom 2, que Pathak promete ter “habilidades sobre-humanas” e o dobro da capacidade de carga do modelo anterior. O Ministério da Defesa da Ucrânia e o Departamento de Defesa dos Estados Unidos não comentaram o assunto.

Contratos Governamentais e Críticas

A Foundation afirma que os testes na Ucrânia servirão de base para futuras operações com as Forças Armadas estadunidenses. A empresa já recebeu contratos governamentais de pesquisa que somam US$ 24 milhões para estudos de viabilidade envolvendo inspeção, logística e manuseio de armamentos para o Exército, a Marinha e a Força Aérea dos Estados Unidos. Pathak espera que a tecnologia da empresa seja utilizada pelos militares estadunidenses, inclusive em zonas de combate, dentro de 12 a 18 meses.

Um dos aspectos que mais geraram atenção e críticas foi a entrada de Eric Trump, segundo filho de Donald Trump, como principal assessor de estratégia da empresa. A senadora democrata Elizabeth Warren classificou os contratos governamentais da companhia como um caso de “corrupção à vista de todos”. Em resposta, um porta-voz da Foundation afirmou que Eric Trump já era investidor antes de assumir o cargo e que ambos compartilham a visão de fortalecer a manufatura nos Estados Unidos. A companhia também alinha sua tecnologia aos interesses estratégicos de Washington na disputa geopolítica com a China. “O objetivo é entregar os melhores robôs que pudermos construir para as Forças Armadas dos Estados Unidos — melhores do que qualquer coisa que a China tenha”, declarou Pathak.

O Cenário Geopolítico e o Debate Ético

Embora diversas empresas estadunidenses colaborem com o governo no desenvolvimento de robôs autônomos para uso militar, o Pentágono ainda não anunciou o emprego operacional de robôs humanoides em suas forças. A China, por sua vez, abriga várias das principais empresas do setor e financia iniciativas para o desenvolvimento da tecnologia, principalmente para aplicações industriais e econômicas. Pesquisadores militares chineses já publicaram estudos sobre o potencial dos robôs humanoides para fins militares, e as Forças Armadas chinesas já exibiram cães robóticos equipados com IA para combate e soldados humanoides controlados por movimentos.

Defensores da tecnologia argumentam que robôs humanoides possuem vantagens sobre outras formas de automação por serem mais adequados para se deslocar em ambientes projetados para pessoas, como canteiros de obras, centros logísticos e zonas urbanas de combate. Kateryna Bondar, pesquisadora sênior do Wadhwani AI Center, destaca que os humanoides podem oferecer benefícios específicos nos campos de batalha devido à autonomia e à destreza semelhante à humana. “Os espaços modernos de combate urbano — onde há escadarias, escadas, porões e corredores estreitos — foram criados para o movimento humano, o que poderia dar aos sistemas humanoides uma vantagem sobre robôs com esteiras ou quadrúpedes em determinados cenários”, explicou.

Apesar dos potenciais benefícios, persistem dúvidas sobre a complexidade e os custos envolvidos na fabricação desses sistemas em comparação com outras alternativas. O avanço dos robôs humanoides para aplicações militares também levanta sérias preocupações éticas, especialmente em relação à tomada autônoma de decisões em situações onde vidas humanas estão em jogo. Pathak afirmou que a maioria dos usos armados dos robôs Phantom continuará exigindo algum tipo de confirmação humana no processo decisório, mas reconheceu que os equipamentos precisarão tomar decisões totalmente autônomas em determinadas situações críticas, nas quais o fator tempo seja decisivo.

Viabilidade e o Futuro da Guerra

Os militares dos Estados Unidos já demonstraram disposição para utilizar modelos de IA, que teriam sido empregados para auxiliar ataques e processos de tomada de decisão em conflitos. No entanto, especialistas apontam que o principal desafio para empresas como a Foundation será demonstrar que robôs humanoides conseguem ser mais práticos e econômicos do que outras tecnologias já disponíveis. “Fazer robôs parecerem humanos é um desafio de engenharia complexo e caro, e o que a Ucrânia nos ensinou é exatamente o oposto: precisamos da capacidade de nos adaptar rapidamente e fabricar de forma rápida e barata”, afirmou Melanie Sisson, pesquisadora sênior da Brookings Institution.

Apesar das divergências sobre o formato ideal dessas máquinas, há um consenso de que a presença crescente de robôs com inteligência artificial em conflitos armados parece inevitável. “Espero que robôs terrestres, aéreos e submarinos substituam forças humanas”, afirmou Toby Walsh, cientista-chefe do Instituto de Inteligência Artificial da Universidade de New South Wales. Ele ponderou, contudo, que a imagem de robôs humanoides semelhantes aos exterminadores da ficção científica pode ser apenas um “trope da ficção científica” distante da realidade atual.

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