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A indústria global de combustíveis está passando por uma transformação sem precedentes, afastando-se das fontes tradicionais como milho, soja e cana-de-açúcar. Uma nova geração de biocombustíveis, produzida a partir de resíduos como óleo de cozinha usado, gordura animal e outros materiais orgânicos, está rapidamente ganhando espaço em setores cruciais como aviação, transporte marítimo e máquinas agrícolas. Essa mudança representa uma oportunidade histórica para países que conseguirem se adaptar rapidamente a essa corrida global por energia limpa.
O avanço dos biocombustíveis transcendeu a pauta ambiental para se consolidar como um vasto mercado internacional. Segundo Agustín Torroba, especialista em Biocombustíveis e Energias Renováveis do IICA, a demanda mundial por alternativas aos combustíveis fósseis é praticamente infinita. Durante um congresso da Maizar, Torroba destacou que a Argentina, em particular, pode assumir uma posição estratégica nesse novo cenário, desde que acompanhe as tendências globais que já mobilizam governos e indústrias em diversos países.
Uma das tendências mais notáveis é o crescimento acelerado da mistura de combustíveis renováveis à gasolina e ao diesel tradicionais. Atualmente, mais de 60 países já incorporam etanol à gasolina, com dados indicando que sete em cada dez litros de gasolina consumidos globalmente já contêm alguma proporção de etanol. O biodiesel também segue em rápida expansão, sendo utilizado por cerca de 50 países para substituir parte do diesel fóssil.
- Nos Estados Unidos, o uso da mistura E-15 (com maior proporção de etanol) foi liberado para o ano inteiro.
- Na Índia, o progresso é impressionante: em apenas seis anos, o país passou de praticamente zero para uma mistura de 20% de etanol na gasolina.
- O Brasil, já uma referência global, planeja elevar sua mistura para 32%.
A Revolução dos Biocombustíveis de Resíduos
A grande inovação atual vai além dos combustíveis derivados diretamente de cultivos agrícolas. Um dos produtos de maior crescimento no setor é o HVO, ou óleo vegetal hidrogenado. Este combustível é produzido a partir de óleo de cozinha usado, gorduras animais e outros resíduos orgânicos, e possui características notavelmente semelhantes às do diesel tradicional. Torroba aponta que o HVO já responde por cerca de 30% do mercado global de biodiesel e é considerado um pilar fundamental no processo de descarbonização do transporte.
Outra aposta gigantesca é o SAF (Combustível Sustentável para Aviação). Fabricado tanto de forma convencional quanto a partir de resíduos e óleos usados, o SAF é visto como uma das principais soluções mundiais para reduzir as emissões do setor aéreo. As projeções para este mercado são ambiciosas:
- Previsão de mercado global de SAF entre 10 e 20 milhões de metros cúbicos até 2030.
- Em 2050, mesmo em projeções conservadoras, o volume pode atingir 43 milhões de metros cúbicos.
Para contextualizar, a produção total de biocombustíveis no planeta atualmente soma cerca de 180 milhões de metros cúbicos. Apesar desse potencial, a Argentina ainda se encontra atrasada no setor, sem nenhuma planta dedicada à produção de SAF, o que pode limitar sua competitividade nos próximos anos, segundo o especialista.
Novos Setores Adotam a Energia Limpa
O alcance dos biocombustíveis está se estendendo a áreas que, até pouco tempo, pareciam difíceis de transformar. No setor marítimo, por exemplo, combustíveis renováveis estão sendo misturados ao fuel oil tradicional para reduzir a pegada de carbono dos navios, um movimento que ecoa a transformação vista na aviação. Além disso, já existem embarcações dual fuel capazes de operar com metanol ou etanol puros, dependendo do porto de abastecimento. Embora apenas 0,3% da frota mundial utilize esse sistema, a procura por novos navios desse tipo cresce rapidamente.
A agricultura também abraçou essa transformação. No Brasil, discute-se o uso de misturas puras de biocombustíveis em tratores e máquinas agrícolas, visando reduzir as emissões do setor e aprimorar a imagem ambiental dos produtos exportados. Para Torroba, a Argentina precisaria acelerar certificações, fortalecer cadeias produtivas e participar mais ativamente das discussões internacionais sobre sustentabilidade e combustíveis limpos.
Argentina Busca Acelerar a Transição
Em um esforço para não ficar para trás, foi lançado o Movimento para a Transição Energética e a Mobilidade Sustentável na Argentina. Essa iniciativa busca construir uma agenda comum para transformar a matriz energética do país, reunindo montadoras, fabricantes de máquinas agrícolas, produtores de biocombustíveis e entidades do setor agroindustrial. A proposta é evitar disputas isoladas e desenvolver projetos de longo prazo que englobem combustíveis renováveis, hidrogênio verde, GNC e eletromobilidade.
No fundo, o que está em jogo é uma corrida econômica global que já começou. Enquanto vários países aceleram investimentos em novas fontes de energia, cresce o temor de que aqueles que demorarem a agir possam perder espaço em um mercado que promete movimentar bilhões nas próximas décadas.
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