📸 Créditos da imagem: mostra um frasco de insulina e várias agulhas de insulina
A morte do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, de apenas 22 anos, no último sábado (23), em São Paulo, reacendeu um debate urgente e preocupante: o uso irregular de insulina entre praticantes de musculação que buscam o ganho extremo de massa muscular. O caso, que ainda está sob investigação do Instituto Médico Legal, não teve sua causa oficial de morte confirmada.
Dias antes de seu falecimento, Ganley havia compartilhado em suas redes sociais um episódio de hipoglicemia. Ele relatou ter aplicado insulina em meio a uma rotina de alimentação restrita, um cenário que levantou discussões intensas sobre os perigos do hormônio quando administrado por indivíduos sem diabetes e sem acompanhamento médico adequado.
Na medicina, a insulina é reconhecida como um hormônio de ação anabólica potente. Sua capacidade de reduzir a degradação muscular, favorecer o armazenamento de nutrientes e aumentar o volume muscular é precisamente o que a tornou alvo de uso clandestino em parte do fisiculturismo, na busca por um crescimento corporal acelerado e massivo.
Uma pesquisa publicada em 2024 por Filippo Giorgio Di Girolamo e sua equipe no periódico Springer Nature já havia alertado sobre os riscos significativos à saúde associados ao uso indevido de insulina no fisiculturismo. O principal perigo descrito é a hipoglicemia grave, que pode ser desencadeada pela ação direta da insulina na redução da glicose circulante no sangue.
Especialistas e estudos recentes têm enfatizado que, embora o hormônio possa, de fato, contribuir para o aumento da massa muscular, ele também é um potente gatilho para a hipoglicemia severa, que pode levar a danos neurológicos permanentes. Além disso, a combinação de insulina com outras substâncias, como anabolizantes e estimulantes, eleva drasticamente os riscos cardíacos e dificulta a fiscalização antidoping, tornando a prática ainda mais perigosa.
Uso clandestino de insulina preocupa especialistas
A insulina é um hormônio vital e indispensável no tratamento de pessoas com diabetes, especialmente naqueles casos em que o organismo não consegue produzi-lo adequadamente. Contudo, médicos têm observado que a substância passou a circular de forma irregular em ambientes ligados ao fisiculturismo, onde é utilizada para acelerar o crescimento muscular.
Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explicou que a insulina possui um efeito anabólico real. Ela estimula a síntese de proteínas e reduz a degradação muscular, um mecanismo que, segundo o endocrinologista, explica por que pacientes diabéticos recuperam peso e massa corporal ao iniciar o tratamento adequado. “A insulina é um anabolizante”, afirmou Macedo.
O especialista, no entanto, ressaltou que o uso da insulina possui indicação médica apenas em casos de deficiência hormonal. Pessoas saudáveis que administram a substância sem necessidade clínica e sem controle especializado expõem-se a riscos graves e desnecessários.
Um levantamento de 2024, publicado na revista científica Sports Medicine Open e hospedado na Nature Springer, identificou a presença frequente da insulina em protocolos utilizados por fisiculturistas. O estudo avaliou atletas e revelou que uma parte significativa deles combinava o hormônio com esteroides anabolizantes e hormônio do crescimento.
Por que atletas recorrem à insulina?
O artigo científico aponta que o uso de insulina entre fisiculturistas está associado a estratégias para maximizar o ganho de massa muscular em fases específicas de treinamento, especialmente quando o objetivo é ampliar rapidamente o volume corporal.
Nesse contexto, o hormônio é incorporado como parte de rotinas de “otimização metabólica”, onde o foco transcende o treino e se estende à manipulação do ambiente hormonal e energético do corpo. A lógica por trás desse uso reside no papel da insulina no metabolismo humano como um hormônio com forte ação anabólica, capaz de influenciar o armazenamento de nutrientes e a síntese de proteínas.
Alguns atletas a utilizariam para tentar potencializar o aproveitamento de carboidratos e aminoácidos ingeridos, criando um cenário mais favorável ao crescimento muscular durante períodos de alta demanda calórica. Contudo, a pesquisa também destaca que esse comportamento raramente ocorre de forma isolada.
A insulina é frequentemente combinada com esteroides anabolizantes e hormônio do crescimento em protocolos informais do fisiculturismo. Essa combinação, descrita pelos pesquisadores como uma tentativa de somar efeitos metabólicos distintos, busca intensificar o ganho de massa, mas também aumenta a instabilidade fisiológica e a complexidade do controle dos efeitos no organismo.
Hipoglicemia: de tremores ao coma
A principal e mais imediata ameaça associada ao uso inadequado da insulina é a hipoglicemia, um quadro em que a glicose sanguínea cai a níveis perigosos, comprometendo gravemente o funcionamento do organismo e, em particular, do cérebro.
Andrea Fioretti, coordenadora do Departamento de Endocrinologia do Esporte e Exercício da SBEM, esclareceu que a insulina produzida naturalmente pelo corpo é ajustada conforme a quantidade de açúcar circulante. Já a substância aplicada externamente age independentemente da necessidade metabólica, sem o controle natural do corpo.
Segundo a médica, exercícios intensos e uma alimentação restrita podem agravar ainda mais o problema, especialmente quando o praticante não consome carboidratos suficientes para compensar a ação do hormônio. Nessas circunstâncias, o organismo perde a capacidade de equilibrar os níveis de glicose, levando a um descontrole perigoso.
Os primeiros sinais da hipoglicemia costumam incluir tremores, suor excessivo e aceleração dos batimentos cardíacos. Em estágios mais graves, a falta de glicose no cérebro pode provocar confusão mental, convulsões, perda de consciência e coma. “A pessoa pode dormir e não acordar mais”, alertou Clayton Macedo, enfatizando a gravidade da situação.
Mistura de substâncias amplia riscos cardíacos
A pesquisa de Filippo Giorgio Di Girolamo reitera que a insulina raramente é utilizada sozinha nos protocolos clandestinos do fisiculturismo. Em muitos casos, ela é associada a esteroides anabolizantes, diuréticos e estimulantes, criando um coquetel de alto risco.
Bruno Sthefan, cardiologista e especialista em medicina do esporte, explicou que a combinação dessas substâncias aumenta o desgaste metabólico e sobrecarrega órgãos vitais como o coração, os rins e o fígado. Alterações nos eletrólitos e episódios de desidratação elevam significativamente a possibilidade de arritmias e colapsos cardiovasculares.
Os endocrinologistas também apontam que os anabolizantes podem reduzir o colesterol HDL (considerado “bom”), elevar a pressão arterial e favorecer processos de coagulação sanguínea. Além disso, o coração tende a sofrer hipertrofia devido ao estímulo hormonal contínuo, uma condição que pode levar a complicações sérias.
Outro fator preocupante é a dificuldade de detecção da insulina em exames antidoping. O estudo europeu mencionado destaca que a substância utilizada artificialmente é muito semelhante à produzida naturalmente pelo organismo, além de permanecer por um tempo muito curto circulando no sangue, o que dificulta sua identificação.
Para os médicos, o crescimento desse tipo de prática está intrinsecamente ligado à disseminação de padrões corporais considerados inalcançáveis sem o uso de substâncias hormonais. A exposição constante a físicos extremos nas redes sociais, segundo os especialistas, contribui para banalizar riscos graves à saúde, criando uma pressão perigosa sobre os praticantes de musculação.
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