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Uma expressão superior de arte (da guerra)Bob Esponja surge em cena dizendo: “Você quer me ver fazendo isso de novo?” e, em seguida, aparece o vídeo de um prédio explodindo. A cena se repete, com a fala do personagem e novas imagens de explosões. Na sequência, recortes de filmes (de “Superman” a “Breaking Bad”) são sobrepostos pela estética de jogos de videogame e um placar de contagem de inimigos abatidos.
Ao fundo, uma trilha sonora eletrônica. Entre o arsenal utilizado nos ataques dos Estados Unidos ao Irã, além de navios, bombardeiros, mísseis de longo alcance e drones, há memes. Enquanto bombas eram despejadas às centenas e pessoas morriam em mais uma guerra, o campo de disputa de informação adotado pelos países são vídeos e imagens mais parecidos com algo que circularia em grupos de WhatsApp mal frequentados do que com comunicados oficiais. Não são vídeos hiper-realistas gerados por inteligência artificial. Tem disso também, mas esses memes são do tipo que você acha que seu sobrinho poderia criar usando um celular.
E ele poderia mesmo. Não é novidade e esse fenômeno tem até nome: “Memetic Warfare” e já foi tema de teses acadêmicas e tudo. Durante as eleições norte-americanas de 2016, houve quem alertasse para um novo passo na estratégia de comunicação política a partir do uso de memes e foi ali que isso ganhou impulso. O que mudou foi a escala e os canais adotados para difusão da mensagem.
Para ficar apenas em casos recentes, na invasão da Ucrânia pela Rússia, nos ataques de Israel à Faixa de Gaza, em protestos políticos no Quênia e em Taiwan, esse método foi adotado como forma de controle da pauta. No conflito com os EUA, o regime iraniano também tem revidado com bombas, minas e memes. Vídeos gerados com inteligência artificial com cenas de animação ao estilo Lego mostram combatentes iranianos derrotando norte-americanos e israelenses. Os posts são publicados no perfil em redes sociais, mas há indícios de vínculo com a agência de mídia estatal iraniana e com órgãos oficiais do regime.
Sim, uma teocracia patrocinando memes. Calma lá. Antes de deixar o tema esfriar nas lentes de uma análise, precisamos nos dar conta do absurdo: estamos assistindo a governos, agências estatais, embaixadas, exércitos e chefes de Estado se manifestando em redes sociais através de uma forma de conteúdo até pouco tempo tida como o fosso da linguagem digital. (Pausa para uma reflexão indignada e uma dose de asco). Em que momento passou a fazer sentido adotar esse tipo de formato como estratégia? Porque, convenhamos, não é que seu tio tenha sido eleito presidente (ainda que muitos amigos tenham tios com tais aspirações e ainda que muitos presidentes se pareçam com nossos tios e, bem, isso é tema para a coluna do Christian Dunker).
É a captura de uma linguagem simples, já disseminada e originalmente espontânea por engrenagens de comunicação. Ano passado, na esteira da indicação para o Oscar, a atriz Fernanda Torres disse em uma entrevista que considera os memes “uma expressão superior de arte”. Eu também acho. Mas quando eram a várzea do humor rasteiro, tosco e original.
A coisa complicou um bocado quando a várzea virou lama. E não foi acidental. Como instrumento de propaganda, os memes também se tornaram uma expressão sofisticada de ideias com pretensa aparência amadora. Há intenção, esse é o ponto.
A diagramação ruim, o formato mal acabado e o tom escrachado mascaram a sutileza para endereçar uma mensagem que passa despercebida à medida que seus receptores estão anestesiados pelo riso, pela bizarrice ou desatentos pelo desleixo das publicações. Em tempos de atenção dispersa, um recorte de tom categórico é o que cabe no pequeno espaço disponível para se receber algo. Rolando a tela do seu feed, a cidadã distraída e desinteressada em análises de qualquer tipo, engole o que lhe chega. Quando a mensagem é simplificada a ponto de ser digerida numa pequena cápsula de entretenimento, ocorre um achatamento da comunicação que deixa de lado o que, no fundo, mascara. Há um elemento adicional de complexidade nesse processo: em geral, o conteúdo chega através de reposts ou encaminhamentos.
Mesmo que governos e suas agências os criem e disseminem, é de pares que nos chegam memes. Se existe cada vez menos uma mídia de massa, cada vez mais existem as massas como mídia. Não necessariamente como produtores, mas como vetores de informação para suas redes.
O ambiente fragmentado das redes cria a percepção equivocada de que se trata de uma comunicação hipersegmentada. Paradoxalmente, o aparente amadorismo torna a mensagem mais confiável. E os memes refletem essa condição balizando por baixo. É superficial, simplista e bidimensional a ponto de não oferecer qualquer ruído para ser assimilado e potencialmente distribuído sem restrições. Está mais para uma guerrilha informacional do que para guerra.
Nesse campo, nossos grupos de WhatsApp, veículos de mídia e redes sociais são plataformas de disputa e controle de pauta. Por que isso interessa? Porque todos podemos ser vítimas e porque nos tornamos vetores. Se os veículos por onde a informação transita mudaram a ponto de inverterem a relação de origem e propagação, é importante que exista uma compreensão da linguagem que está sendo usada para que estejamos menos suscetíveis a seus efeitos. As guerras (caramba, no plural) talvez sejam o exemplo extremo do ponto a que chegamos.
Mas a batalha informativa também está no debate sobre vacinas, eleições, projetos de lei, disputa de condomínio e toda sorte de teorias conspiratórias e desinformação em que, sem querer, nos metemos. Se a coisa toda está complicada como parece, um texto como esse vai acabar sendo lido apenas pela minha esposa. Isso porque eu vou mandar o link pedindo que o faça. E é bem capaz que ao pedir sua opinião, ela me responda com algum meme da Fernanda Torres. [refs]Essa semana, eu fiquei lendo sobre manutenção dos cabos submarinos que fazem a internet funcionar, a história do primeiro homem a correr uma maratona abaixo de duas horas (1: 59: 30, meus amigos), sobre Haruki Murakami e também mais ligado do que deveria no julgamento Elon Musk vs Sam Altman, que promete ser a novela mais legal para seguir nas próximas semanas.
Nos podcasts, sigo maratonando episódios da altamente recomendável temporada 4 do Zen Vergonha sobre adolescência (criado e apresentado pela Fernanda Lima) e se você tem interesse em conhecer a história da Inteligência Artificial e seus desdobramentos até aqui, The Last Invention (criado pelo estúdio Longview) é uma fonte preciosa. Ando às voltas com a leitura dos livros “Os Imortais”, da Paulliny Tort, e “Escrita em Movimento”, da Noemi Jaffe. Eu ia fazer comentários a respeito por aqui, mas vou me segurar porque livros e leituras serão os temas da minha outra coluna aqui no que deve estrear daqui a alguns dias. Estou assistindo “Rooster” e quase gostando (muito cedo para formar opinião) e enrolando um bocado para seguir com “The Pitt” porque me dá uns gatilhos.
Assisti atrasado a “Valor Sentimental” e gostei demais. No fim de semana, levamos Cecília, nossa filha caçula, até o Planetário do Ibirapuera, coisa que nunca tinha feito. E mesmo que aquilo seja só um abajur colossal projetando luzes em um teto abaulado, confesso que foi tocante pensar que, poxa, tem tudo isso acontecendo acima de nós. E nem que seja por alguns minutos, é reconfortante tomar consciência de que no meio das complexidades que enfrentamos, colocando em perspectiva, o que somos e passamos é pequeno e breve demais.
Na saída, estava sol, o parque estava cheio de gente deitada sobre a grama verde, soprava uma brisa na beira do lago e nós tomamos um sorvete. Microcosmos, amigos, são nosso universo todo. *Antes de ir embora, uma nota: minha experiência usando internet de forma cotidiana e quase compulsiva começou há 30 anos junto com a estreia do. Sempre que podia, acessava (o bate-papo) os jornais e revistas no portal.
A web era puro encanto para um adolescente curioso e tributo àquele momento, as decisões de carreira dedicadas, sobretudo, a este meio. Desde então, trabalhei em áreas de produtos e negócios na AOL, Editora Abril, e, nos últimos 12 anos, no Google, onde estive à frente das iniciativas de apoio ao jornalismo na América Latina. A partir de hoje, volto para o, agora como colunista semanal neste espaço para discutir sobre mídia, tecnologia e cultura digital e também, com outra coluna mensal para falar de livros e experiência de leitura.
Obrigado pela acolhida. OpiniãoTexto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados. ** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do. O autor da mensagem, e não o, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do.
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